Hiraga estivera observando através de um pequeno buraco na cerca. Quando Tyrer desapareceu, além da esquina, ele voltou pelo cadinho de pedra sinuoso, através do jardim, imerso em seus pensamentos. O jardim era enganadoramente espaçoso, com pequenos bangalôs, sempre com varandas, cercados por arbustos.
Mas Hiraga evitou a todos, embrenhou-se pelos arbustos, foi bater num painel da cerca, que foi aberto, sem qualquer ruído. O criado fez uma reverência, ele acenou com a cabeça e seguiu por um caminho na direção de uma habitação similar. A maioria das estalagens ou casas possuíam saídas secretas e esconderijos ou ligações com a propriedade vizinha. As que ousavam abrigar os shishi dispensavam atenção especial à segurança... para seu próprio bem. Aquela parte da Casa das Três Carpas era para visitantes muito especiais, com suas próprias instalações para cozinhar e criadas diferentes, mas com as mesmas cortesãs. Na varanda, Hiraga tirou seus geta — sapatos — e puxou a porta de shoji.
— O que ele fez? — perguntou Ori.
— Afastou-se, mansamente. Estranho.
Hiraga balançou a cabeça, espantado, foi sentar à frente de Ori e retribuiu com um cumprimento rápido a reverência profunda de Fujiko. No dia anterior, depois de entregar a carta de Tyrer, ele reservara Fujiko para esta noite, com a divertida aquiescência de Raiko.
— Posso saber por que, Hiraga-san? — perguntara Raiko.
— Só para irritar Taira.
— Acho que ele deixou sua virgindade aqui, com Ako. Depois experimentou Meiko e Fujiko em seguida. Fujiko deixou-o de olhos vesgos.
Ele rira junto com Raiko, simpatizando com ela. Ao ver Fujiko, ficara surpreso, sem entender como seu inimigo podia achar aquela moça atraente. Era vulgar, com cabelos vulgares, tudo nela era vulgar, à exceção dos olhos, grandes demais. Mesmo assim, ele escondera sua opinião, e cumprimentara Raiko por ter adquirido uma flor tão extraordinária, que parecia ter dezesseis anos, embora estivesse com trinta e um, e há quinze fosse cortesã.
— Obrigada, Hiraga-san.— Raiko sorrira.— Tem razão, ela é um patrimônio e tanto. Por alguma razão, o gai-jin gosta de Fujiko. Mas, por favor, não esqueça que o Taira é nosso cliente e que os gai-jin não são como nós. Tendem a se ligarem a uma dama apenas. Por favor, encoraje-o, pois os gai-jin são ricos. Soube que ele é importante e pode ficar aqui por alguns anos.
— Sonno-joi.
— Isso cabe a você. Pode cortar suas cabeças, desde que prometa que não o fará aqui, enquanto eu lhes arranco o dinheiro.
— Vai permitir que Ori continue aqui?
— Ori-san é um jovem curioso — comentara Raiko, hesitante. — Muito forte, muito irado, muito irrequieto... prestes a explodir. Tenho medo dele. Posso escondê-lo por mais um ou dois dias, mas... por favor, pode controlá-lo enquanto ele for meu hóspede? Já há problemas suficientes no mundo dos salgueiros, e não precisamos procurar por mais.
— Combinado. Tem alguma notícia de meu primo, Akimoto?
— Ele está são e salvo em Hodogaya, na Casa de Chá da Primeira Lua.
— Mande chamá-lo. — Hiraga tirara um oban de ouro de seu bolso secreto. Notara o brilho nos olhos de Raiko. — Isto pagará por qualquer mensageiro e pelas despesas de Ori e Akimoto aqui... e também pelos serviços de Fujiko amanhã.
— Certo. — A moeda, um pagamento bastante generoso, desaparecera na manga de Raiko. — Ori-san pode ficar até eu achar que é tempo de partir. Quando chegar esse momento, sinto muito, mas ele terá de ir embora. Concorda?
— Claro.
— E agora, shishi, sinto muito, mas devo dizer que sua presença aqui é muito perigosa. Isto está sendo enviado para todas as barreiras.
Raiko desdobrara uma xilogravura, um retrato. Dele. A legenda dizia: O Bakufu oferece uma recompensa de dois koku pela cabeça deste ronin de Choshu assassino, que usa muitos nomes, um dos quais é Hiraga.
— Baka! — exclamara Hiraga, através dos dentes semicerrados. — Parece comigo? Como é possível? Nunca deixei pintarem um retrato meu.
— Sim e não. Os artistas têm memória longa, Hiraga-san. Quem sabe um dos samurais na luta? A menos que alguém mais próximo de você seja um traidor. Também é ruim que pessoas importantes estejam à sua procura. Anjo, é claro, mas agora Toranaga Yoshi também.
Hiraga sentira um calafrio, especulando se a cortesã Koiko fora traída ou era a traidora.
— Por que ele?
Raiko dera de ombros.
— Ele é o chefe da serpente, quer goste ou não. Sonno-joi, Hiraga-san, mas não atraia o inimigo Bakufu para cá. Quero esta cabeça nos meus ombros.
Durante toda a noite, Hiraga preocupara-se com o cartaz e o que fazer a respeito. Agora, deixou que Fujiko lhe servisse mais saquê e comentou:
— Esse Taira me espanta, Ori.
— Por que perder tempo com ele? Mate-o.
— Mais tarde, não agora. Observar a ele e aos outros, testá-los, tentar adivinhar suas reações, é como um jogo de xadrez em que as regras mudam constantemente. É fascinante... depois que a gente se acostuma ao fedor.
— Devemos fazer esta noite o que eu queria fazer antes: matá-lo, jogar o corpo perto da casa da guarda e deixar que eles levem a culpa.
Irritado, Ori passou a mão direita pelos fios curtos que já cobriam sua cabeça raspada e o rosto, o ombro esquerdo enfaixado, o braço ainda numa tipóia.
— Amanhã estarei raspado de novo, e voltarei a me sentir como um samurai... Raiko tem um barbeiro em quem pode confiar. Mas raspado ou não, Hiraga, esta indolência forçada está me enlouquecendo.
— E seu ombro?
— O ferimento está limpo. Coça, mas é uma boa coceira. — Ori levantou o braço até a metade. — Não consigo ir além, mas forço um pouco mais a cada dia. Seria difícil usar numa luta. Karma. Mas se matássemos o gai-jin Taira não haveria risco nenhum para nós nem para a casa. Você disse que ele é tão retraído que não contou a ninguém que vinha até aqui.
— É verdade, mas ele pode ter comentado com alguém e é isso o que não compreendo. Os gai-jin são imprevisíveis. Vivem mudando de idéia, dizem uma coisa e, depois, fazem o oposto exato, mas não por cálculo, não como fazemos, não como nós.
— Sonno-joi! Matá-lo deixaria os gai-jin furiosos. Devemos fazer isso na próxima vez em que ele vier aqui.