— Faremos, só que mais tarde... ele é muito valioso por enquanto. Vai revelar os segredos deles, como humilhá-los, como matá-los às centenas e milhares... depois que os tivermos usado para humilhar e destruir o Bakufu.
Hiraga tornou a levantar o copo. No mesmo instante, Fujiko encheu-o, sorrindo para ele.
— Estive até no escritório do líder de todos os ingleses, a cinco passos dele. Estou no centro da autoridade dos gai-jin. Se ao menos eu compreendesse melhor a língua deles...
Hiraga era cauteloso demais para revelar a Ori a verdadeira extensão de seu conhecimento ou como persuadira Tyrer a tirá-lo do prédio da legação... ainda mais na presença daquela mulher.
Enquanto reabastecia os copos, ao longo da noite, sorrindo, sempre atenciosa, jamais interrompendo, Fujiko escutava avidamente, embora desse a impressão de que não prestava a menor atenção, querendo fazer uma centena de perguntas, mas muito bem treinada para interferir.
— Limitem-se a escutar, sorriam e finjam que são estúpidas, apenas um brinquedo — diziam todas as mama-sans para suas pupilas. — Muito em breve eles lhe contarão tudo o que quiserem saber, sem precisar de qualquer estímulo. Escutem e sorriam, observem e lisonjeiem, façam com que se sintam felizes, pois só assim eles se tornam generosos. Jamais esqueçam que um homem feliz é igual a ouro, e o ouro é o único propósito de vocês, a única segurança.
— Em Iedo — acrescentou Hiraga — esse Taira foi muito corajoso, esta noite um covarde. Fujiko, como ele é na cama?
Sorrindo, ela ocultou sua surpresa por alguém poder ser tão indelicado.
— Como qualquer jovem, Hiraga-san.
— Certo, mas como ele é? Está na proporção... homem alto, espada comprida?
— Sinto muito. — Fujiko baixou os olhos, assumiu uma voz humilde. — As damas do mundo dos salgueiros são orientadas para nunca falarem de um cliente com outro, não importa quem seja.
— E nossas regras aplicam-se aos gai-jin? — indagou Hiraga.
Ori riu.
— Não vai conseguir arrancar nada dela, ou de qualquer das outras. Já tentei, Raiko-san veio me censurar por interrogá-las. “Gai-jin ou não, a regra antiga da Yoshiwara sempre prevalece”, disse ela. “Podemos conversar sobre generalizações, mas não sobre qualquer cliente em particular... Baka-neh?” Ela ficou realmente zangada.
Os dois homens riram, mas Fujiko percebeu que não havia nenhum sorriso nos olhos de Hiraga. Fingindo não notar, ansiosa em apaziguá-lo, ao mesmo tempo em que especulava como teria de servi-lo naquela noite, ela disse:
— Sinto muito, Hiraga-san, mas minha experiência é pouca, com jovens velhos ou intermediários. Mas a maioria, damas experientes, diz que o tamanho não garante satisfação, nem para ele, nem para ela, mas que os jovens são sempre os clientes melhores e mais satisfatórios.
Fujiko riu para si mesma, pela mentira tão usada. Gostaria de lhe dizer a verdade, por uma vez: que vocês, jovens, são os piores clientes, os mais exigentes os menos satisfatórios. São todos irremediavelmente impacientes, com uma abundância de vigor, clamam por muitas entradas, esguicham poças de essência mas há pouco contentamento depois... e quase nunca se mostram generosos. O pior de tudo é que uma de nós, por mais que tente evitar, pode se apaixonar por um jovem em particular e isso acarreta ainda mais sofrimento, desastre e até o suicídio, na maioria das vezes. O velho é vinte vezes melhor.
— Alguns jovens são muito tímidos, embora bem-dotados — disse ela, respondendo sem responder.
— Interessante. Ori, ainda não posso acreditar que esse Taira tenha ido embora mansamente, sem protestar.
Ori deu de ombros.
— Manso ou não, ele deveria estar morto esta noite e eu dormiria melhor. O que mais ele podia fazer?
— Tudo. Deveria ter derrubado a porta a pontapés... um encontro marcado é um encontro marcado, e o fato de Raiko não ter uma substituta à espera foi um insulto adicional.
— A porta e a cerca são muito resistentes, até mesmo para nós.
— Neste caso, ele deveria ter ido até a rua principal, recrutado cinco, dez ou vinte dos seus companheiros, e voltado para derrubar a cerca. Afinal, é um homem importante, e todos os oficiais e soldados obedeciam às suas ordens na legação. Tal atitude, com toda certeza, faria com que Raiko se ajoelhasse diante dele por um ano ou mais, e lhe garantiria os serviços que quisesse no momento em que desejasse... e nós talvez tivéssemos de fugir. Isso é o que eu faria, se fosse uma autoridade tão importante quanto ele.
Hiraga sorriu e Fujiko reprimiu um calafrio de medo.
— É uma questão de honra. Contudo, eles compreendem essas coisas muito bem. Teriam defendido sua estúpida legação até o último homem, e depois a esquadra arrasaria Iedo.
— Não é isso o que queremos?
— É, sim. — Hiraga soltou uma risada.— Mas não quando se está sem armas, rastejando como um jardineiro... eu me sinto completamente nu!
Outra dose de saquê. Hiraga olhou para Fujiko. Em circunstâncias normais, muito embora a mulher daquela noite não fosse muito atraente, sua virilidade habitual e o saquê o excitariam. Mas esta noite era diferente. Afinal, encontrava-se na Yoshiwara dos gai-jin, a mulher já fora para a cama com eles, por isso está contaminada. Talvez Ori a quisesse, pensou ele, sorrindo para Fujiko, a fim de salvar as aparências.
— Peça alguma comida, está bem, Fujiko? A melhor que a casa possa oferecer.
— Agora mesmo, Hiraga-san.
Ela se retirou, apressada.
— Escute, Ori — sussurrou Hiraga, tão baixo que mais ninguém poderia ouvir —, há grande perigo por aqui.
Ele tirou do bolso o cartaz dobrado. Ori ficou chocado.
— Dois koku! É uma tentação para qualquer um. Não está muito parecido com você, mas um guarda de barreira poderia detê-lo.
— Raiko disse a mesma coisa.
Ori fitou-o.
— Joun era um artista e dos bons.
— Pensei nisso e tenho me perguntado como o prenderam, até que ponto o obrigaram a falar. Ele conhece muitos segredos dos shishi, está a par do planejamento de Katsumata para interceptar o xógum.
— É lamentável permitir que seja capturado vivo. É óbvio que o inimigo se infiltrou em nossa organização. — Ori devolveu o cartaz. — Dois koku tentariam qualquer pessoa, até mesmo a mama-san mais leal.
— Pensei nisso também.
— Deixe crescer a barba, Hiraga, ou o bigode. Isso ajudaria.
— Tem razão, ajudaria bastante. — Hiraga sentiu-se contente por Ori ter se recuperado, pois seus conselhos eram sempre valiosos. — É uma estranha sensação, saber que este cartaz circula por aí.