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Saquê!

A porta foi aberta no mesmo instante, uma criada entrou, de joelhos, trouxe novas garrafas, serviu-os e se retirou. Hiraga arrotou, o saquê o afetando.

— Eles agiam como animais. Sem seus canhões e navios, estão abaixo do desprezo.

Ori olhou pela janela, na direção do mar.

— O que é? — indagou Hiraga, subitamente em guarda. — Perigo?

— Não, não foi nada.

Hiraga franziu o rosto, apreensivo, recordando como Ori era sensível a emanações externas.

— Tem as espadas aqui?

— Tenho. Raiko as guarda para mim.

— Detesto não ter espadas no cinto.

— Eu também.

Por uma vez, eles beberam em silêncio, e depois a comida chegou, pequenos pratos com peixe grelhado, arroz, sushi e sashimi, assim como uma iguaria portuguesa chamada tempura — peixe e legumes passados na farinha de arroz e fritos. Antes de os portugueses chegarem, por volta de 1.550, os primeiros europeus a aparecerem em suas praias, os japoneses não conheciam a técnica de fritura.

Depois de se sentirem satisfeitos, eles mandaram chamar Raiko, apresentaram seus cumprimentos pela refeição e recusaram os serviços de entretenimento de uma gueixa. Por isso, ela fez uma reverência e se retirou.

— Pode ir também, Fujiko — disse Hiraga. — Voltarei amanhã, depois do pôr-do-sol.

— Pois não, Hiraga-san.

Fujiko fez uma reverência baixa, contente por ser dispensada sem trabalho adicional, pois Raiko já lhe dissera que seu pagamento era generoso.

— Obrigada por me honrar.

— Claro que nada do que ouviu ou viu esta noite jamais será mencionado para o Taira, outro gai-jin, ou qualquer pessoa.

Ela levantou a cabeça de repente.

— Claro que não, Hiraga-sama. — Sentiu um frio no coração ao ver os olhos dele e repetiu, a voz quase inaudíveclass="underline" — Claro que não.

Fujiko encostou a testa no tatame e depois, apavorada, saiu apressada.

— Ori, assumimos um risco com essa mulher escutando.

— Com qualquer delas. Mas ela não ousaria falar, nem as outras. — Ori tornou a usar o leque, contra os insetos noturnos. — Antes de partirmos, acertaremos um preço com Raiko para que Fujiko seja despachada para uma casa de baixa qualidade, onde estará ocupada demais para cometer algum erro, bem longe do gai-jin e do Bakufu.

— É um bom conselho. Pode ser caro, pois Raiko disse que Fujiko é bastante popular com os gai-jin, por algum motivo.

— Fujiko?

— Isso mesmo. Estranho, neh? Raiko disse que os costumes deles são diferentes dos nossos. — Hiraga percebeu o sorriso de Ori. — O que é?

— Nada. Podemos conversar mais amanhã.

Hiraga acenou com a cabeça, bebeu o resto do saquê no copo, levantou-se, tirou o yukata engomado que todas as casas e estalagens costumavam fornecer a seus cientes e tornou a vestir o quimono grosseiro de aldeão, o turbante ordinário e o chapéu de palha de cule. Pôs nos ombros o cesto de compras vazio.

— Está seguro assim?

— Estou, desde que não tenha de descobrir a cabeça e possa apresentar isto. — Hiraga mostrou os dois passes que Tyrer lhe dera, um para os japoneses, um para os ingleses. — Os guardas no portão e na ponte estão sempre alerta e soldados patrulham a colônia à noite. Não há toque de recolher, mas Taira me advertiu para ser cuidadoso.

Pensativo, Ori devolveu os passes. Hiraga guardou-os na manga.

— Boa noite, Ori.

— Boa noite, Hiraga-san. — Ori fitou-o com uma expressão estranha. — Eu gostaria de saber onde a mulher vive. Os olhos de Hiraga se contraíram.

— É mesmo?

— É, sim. Gostaria de saber onde. Exatamente.

— Talvez eu possa descobrir. E depois?

O silêncio tornou-se opressivo. Ori pensou: Não tenho certeza esta noite, bem que gostaria de ter, mas cada vez que deixo a mente vaguear lembro daquela noite e do ardor interminável que tive com a mulher. Se eu a matasse na ocasião, isso teria acabado, mas sabendo que ela continua viva, sinto-me obcecado. É uma estupidez, mas estou enfeitiçado. Ela é maligna, repulsiva, sei disso, mas ainda assim me sinto enfeitiçado e tenho certeza de que a mulher sempre haverá de me atormentar, enquanto estiver viva.

— E depois? — repetiu Hiraga.

Ori evitara que seus pensamentos transparecessem no rosto. Fitou Hiraga calmamente, e deu de ombros.

20

Quarta-feira, 15 de outubro:

André Poncin piscou os olhos, aturdido.

— Você está grávida?

— Isso mesmo — murmurou Angelique. — Deve compreender...

— Mas isso é maravilhoso, torna tudo perfeito! — exclamou ele, o choque se transformando numa intensa satisfação, porque Struan, o cavalheiro britânico, fizera mal a uma moça inocente, e agora não podia evitar um casamento prematuro, se quisesse permanecer um cavalheiro. — Madame, posso lhe dar os parabéns...

— Cale-se, André. Não, não pode, e não deve falar tão alto, porque as paredes têm ouvidos, ainda mais nas legações, não é mesmo? — Ela falou num sussurro, espantada por sua voz soar tão calma, e por se sentir tão calma que podia lhe contar com a maior facilidade. — Deve compreender que, infelizmente, o pai não é monsieur Struan.

O sorriso de Poncin desapareceu, mas logo retornou.

— Está gracejando, é claro, mas por que...

— Apenas escute, por favor. — Angelique deslocou sua cadeira para mais perto. — Fui estuprada em Kanagawa...

Ele a fitou, fixamente, atordoado, enquanto Angelique relatava o que pensava ter lhe acontecido, o que decidira fazer, como ocultara o horror desde então.

— Por Deus, minha pobre Angelique, deve ter sido terrível para você! — foi tudo o que André conseguiu murmurar, num choque profundo.

Ao mesmo tempo, outra peça do quebra-cabeça ajustou-se no lugar. Sir William, Seratard e Struan haviam decidido limitar a notícia sobre a operação do Dr. Hoag em Kanagawa ao mínimo de pessoas possível, ocultando-a em particular de Angelique, os dois médicos aconselhando que era o mais sensato.

— Por que agitá-la desnecessariamente? Ela já se sente bastante transtornada com o atentado na Tokaidô.