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Não havia ainda razão para contar a ela, pensou André, inquieto, abalado pela ironia.

Ele pegou a mão de Angelique, acariciou-a, forçando-se a reprimir suas próprias preocupações e concentrando-se nela. Vendo-a ali, sentada à sua frente, na sala que ocupava na legação, tão serena e recatada, a imagem da inocência, apenas umas poucas horas depois de ter sido a belle no melhor baile que Iocoama já testemunhara, proporcionava à sua história um ar total de irrealidade.

— Isso realmente aconteceu, Angelique?

Ela ergueu a mão, como se estivesse fazendo um juramento.

— Juro por Deus.

Angelique cruzou as mãos sobre o colo. Usava um vestido amarelo claro, uma pequena touca laranja e um guarda-chuva. Desconcertado, ele sacudiu a cabeça.

— Parece impossível.

Ao longo de seus anos como adulto, André Poncin tivera alguma participação em muitas dessas tragédias de homem-mulher: fora incluído em algumas por seus superiores, deparara por acaso com umas poucas, precipitara muitas e usara a maioria, se não todas, para a melhoria de sua causa... pela França, a revolução, liberdade, fraternidade, igualdade ou pelo imperador Luís Napoleão ou por qualquer pessoa ou coisa que estivesse em voga no momento... e também em proveito pessoal, acima de tudo.

Por que não? — pensava ele. O que a França tem feito por mim, o que algum dia fará por mim? Nada. Mas esta Angelique, com toda certeza, ou vai desmoronar a qualquer momento — sua serenidade é irreal — ou é como algumas mulheres que já conheci, que nasceram más e distorcem a verdade de maneira brilhante, para seus próprios propósitos, ou como alguém que foi levada à beira do abismo pelo terror, e se tornou uma mulher calculista, de sangue-frio, além dos seus anos.

— Como?

— Preciso remover o problema, André.

— Fazer um aborto? Mas você é católica!

— E você também. É uma questão entre Deus e eu.

— O que me diz da confissão? Tem de se confessar. Neste domingo, quando for à missa...

— É uma questão minha com o padre e depois com Deus. Mas o problema deve ser removido primeiro.

— É contra a lei de Deus e a lei do homem.

— E tem sido feito ao longo dos séculos, desde antes do dilúvio. — Um pouco nervosismo se insinuou na voz de Angelique. — Você confessa tudo? Adultério ambém é contra a “lei de Deus”, não é mesmo? E matar é contra todas as leis, não é?

— Quem disse quejá matei alguém?

— Ninguém, todavia é mais do que provável que já o tenha feito ou, pelo menos, causou mortes. Estes são tempos violentos. Preciso de sua ajuda, André.

— Está se arriscando à danação eterna.

— É verdade, angustiei-me por isso, com lagos de lágrimas.

Pensou Angelique, sombria, mas mantendo os olhos inocentes, odiando-o, detestando ter de confia nele.

Acordara cedo naquela manhã, continuara deitada, pensando, avaliando seu plano, de repente chegando à conclusão de que deveria odiar todos os homens Os homens causam todos os nossos problemas, pais, maridos, irmãos, filhos e padres... os padres são os piores de todos os homens, muitos são notórios fornicadores, insidiosos, mentirosos, que usam a Igreja para seus sórdidos propósitos pessoais, embora seja verdade que uns poucos são santos. Os padres e os outros homens que controlam nosso mundo e o arruinam para as mulheres. Odeio a todos... à exceção de Malcolm. Não o odeio, ainda não. Não sei se o amo de verdade. Não sei o que é o amor, mas gosto dele mais do que de qualquer outro homem que já conheci, e o compreendo.

Quanto ao resto, graças a Deus que meus olhos estão finalmente abertos! Ela fitava André com uma expressão confiante e suplicante. É uma desgraça que eu tenha de pôr minha vida em suas mãos, mas graças a Deus posso agora vê-lo como de fato é. Malcolm e Jamie têm razão, tudo o que você quer é dominar a Struan ou causar sua queda. É uma desgraça que eu tenha de confiar em qualquer homem. Se ao menos estivesse em Paris ou mesmo em Hong Kong, contaria com dezenas de mulheres a quem poderia discretamente pedir a ajuda necessária, mas aqui não há nenhuma. Aquelas duas megeras? Impossível! É evidente que me odeiam, são inimigas.

Angelique permitiu que umas poucas lágrimas aparecessem.

— Por favor, ajude-me. Ele suspirou.

— Falarei com Babcott esta ma...

— Enlouqueceu? Não podemos envolvê-lo de jeito nenhum. Nem Hoag. Não é possível, André. Pensei em tudo com o maior cuidado. Nenhum dos dois serve. Temos de encontrar outra pessoa. Uma madame.

André ficou espantado com sua voz calma e lógica implacável e balbuciou:

— Está se referindo a uma mama-san?

— O que é isso?

— Ahn... é a mulher, a mulher japonesa, que dirige os bordéis locais, contrata os serviços das moças, acerta preços, cuida da distribuição pelos clientes. E assim por diante.

Angelique franziu a testa.

— Eu não tinha pensado numa delas. Ouvi dizer que há uma casa no final da estrada.

— Essa não! Fala da casa de Naughty Nellie... na cidade dos bêbados? Tu não iria lá nem por mil luíses.

— Mas a casa não é dirigida pela irmã da Sra. Fortheringill? A famosa Sra. Fortheringill de Hong Kong?

— Como sabe dela?

— Por Deus, André, pensa que sou uma inglesa tola e intolerante? — disse inrritada. — Todas as europeias em Hong Kong sabem da Instituição para moças da Sra. Fortheringill, embora finjam que a ignoram e nunca falem abertamente a respeito; todas também sabem, à exceção talvez das mais estúpidas, que os homens visitam as casas chinesas ou têm amantes orientais. É hipocrisia, nada mais. Até mesmo você ficaria espantado se soubesse sobre o que as mulheres conversam na privacidade de seus boudoirs ou quando não há homens presentes.

Fui informada em Hong Kong que a irmã dela abriu uma casa aqui.

— Não é a mesma coisa, Angelique. Atende a marujos, bêbados, imigrantes que vivem do dinheiro que recebem de casa... a escória. E Naughty Nellie não é irmã, apenas alega ser, talvez até pague alguma coisa pelo uso do nome.

— É mesmo? Então para onde você vai, quando quer se “divertir”?

— Para a Yoshiwara.

André explicou o que era, desconcertado com a conversa e por se mostrar tão franco.

— Costuma frequentar algum lugar especial... uma casa especial? Mantém boas relações com alguma mama-san?

— Claro.

— Ótimo. Procure sua mama-san esta noite e obtenha a poção que elas usam, qualquer que seja.

— O quê?

— Por Deus, André, seja sensato... e sério. É um problema sério e, se não pudermos resolvê-lo, nunca serei a châtelaine da Casa Nobre; com isso você nunca poderá ajudar... a certos interesses.