Angelique percebeu que esse comentário atingira o alvo e sentiu-se ainda mais satisfeita consigo.
— Vá até lá esta noite e peça a poção a ela. Não pergunte à sua garota, ou a qualquer outra, porque elas não devem saber. Pergunte à patronne, à mama-san. Pode dizer que “a garota” está atrasada.
— Não sei se elas têm um medicamento assim. Ela sorriu, afável.
— Não seja tolo, André. Claro que têm. Não podem deixar de ter. — Com a mão direita, Angelique começou a esticar os dedos da luva na mão esquerda. — depois que esse problema estiver solucionado, tudo será maravilhoso e casaremos no Natal. Por falar nisso, decidi que será melhor deixar a casa de Struan até casarrnos... agora que monsieur Struan recupera mais e mais as forças, a cada dia. Voltarei para a nossa legação esta tarde.
— Acha que é uma providência sensata? Melhor ficar perto dele.
— Em circunstâncias normais, seria mesmo. Mas devemos pensar no decoro também, ainda mais importante, tenho certeza de que o medicamento fará com que me sinta mais segura. Descansarei por um ou dois dias. Assim que isso estiver resolvido, decidirei que vou voltar. Sei que posso contar com você, meu amigo. — Angelique levantou-se. — Amanhã, à mesma hora?
Se eu nada conseguir, darei um jeito de avisá-la.
— Não. É melhor nos encontrarmos aqui ao meio-dia. Sei que posso com contar com você.
Ela ofereceu o seu sorriso mais insinuante. André experimentou algum excitamento, não apenas por causa do sorriso, mas também porque agora, independente do que viesse a acontecer, ela ficaria acorrentada a ele para sempre.
— Aqueles caracteres, Angelique, os que estavam escritos no lençol... lembra-se como eram?
— Claro — respondeu ela, surpresa com a mudança de assunto. — Por quê?
— Pode desenhá-los para mim? Talvez eu os reconheça e descubra um significado.
— Foram desenhados na colcha, não no lençol. Com o sangue dele. — Angelique respirou fundo, estendeu a mão, pegou a caneta, mergulhou no tinteiro — Esqueci de lhe contar uma coisa. Quando acordei, constatei que desaparecera a pequena cruz que usava desde criança. Procurei por toda parte, mas não a encontrei.
— Ele roubou?
— Presumo que sim. Mas nada mais. Havia algumas jóias, que não foram tocadas. Não eram muito valiosas, porém valiam mais do que a cruz.
O pensamento de Angelique estendida naquela cama, inerte, a camisola cortada do pescoço à bainha, a mão do estuprador arrancando a corrente, o luar faiscando na cruz, antes ou depois, rapidamente se tornou real e erótico, vibrando em André. Seus olhos percorreram o corpo de Angelique, debruçada sobre a mesa, alheia a seu desejo.
— Aqui está — disse ela, estendendo o papel.
André olhou, os raios do sol se refletindo no anel de sinete de ouro que sempre usava. Os caracteres não se relacionavam com qualquer coisa que ele conhecia.
— Desculpe, mas nada significam para mim, nem mesmo parecem chineses... chineses ou japoneses, a escrita é a mesma.
Ele teve uma idéia súbita, virou o papel e ficou boquiaberto.
— Tokaidô... é esse o significado! — A cor se esvaiu do rosto de Angelique enquanto André acrescentava: — Copiou ao contrário. Tokaidô junta tudo. Ele queria que você soubesse, que toda a colônia soubesse, o que teria acontecido se contasse a alguém o que ocorreu. Mas por quê?
Tremendo toda, ela levou os dedos às têmporas.
— Não sei. Talvez... não sei. Ele deve estar morto a esta altura. Monsieur Struan acertou-lhe um tiro. Ele já deve ter morrido.
André hesitou, apreensivo, avaliando as razões contra e a favor.
— Já que partilhamos tantos segredos, e é evidente que você sabe como guardá-los, creio que outro se torna necessário agora.
Ele falou sobre Hoag e a operação, arrematando:
— Não foi culpa de Hoag, que não tinha como saber. É irônico, os nossos médicos aconselharem a não se contar nada a você, para poupá-la de mais angústias.
— É por causa de Babcott e seu opiato que me encontro nesta situação — murmurou Angelique, a voz assustando-o. — Quer dizer que o homem está vivo?
— Não sabemos. Hoag disse que ele não tinha muita chance. Mas por que aquele demônio queria que seu crime fosse conhecido, Angelique?
— Há outros segredos sobre esse horror que você conheça e eu ainda ignore?
— Não. Por que ele queria que todos soubessem? Bravata?
Angelique contemplou por um longo momento os caracteres que desenhara. Imóvel, a não ser pelos seios, que subiam e desciam com a regularidade da respiração. Depois, sem dizer mais nada, ela saiu. Fechou a porta sem fazer barulho.
André balançou a cabeça, espantado, olhando para o papel.
Tyrer estava no pequeno bangalô ao lado da legação britânica, que partilhava com Babcott, praticando caligrafia com Nakama, o nome pelo qual conhecia Hiraga.
— Por favor, dê-me o japonês para: hoje, amanhã, o dia seguinte, a próxima semana, o próximo ano, os dias da semana e os meses do ano.
— Sim, Taira-san.
Com todo cuidado, Hiraga disse uma palavra japonesa, observou Tyrer escrevê-la, foneticamente, em letras romanas. Depois, Hiraga escreveu os caracteres no espaço ao lado, e tornou a observar, enquanto Tyrer os copiava.
— Você bom aluno. Sempre usa mesma ordem para traços, fácil, assim não esquecer.
— Estou começando a compreender. Obrigado. Você tem sido de grande ajuda.
Tyrer sentia-se satisfeito, gostava de escrever, ler e aprender... e ensinava em troca, notando que Nakama era muito inteligente, absorvia tudo bem depressa. Trabalhou toda a lista com ele e disse, ao finaclass="underline"
— Ótimo. Obrigado. Agora, por favor, procure Raiko-san e confirme meu encontro para amanhã.
— Confirme, por favor?
— Pergunte se meu encontro é certo.
— Ah, entender. — Hiraga coçou o queixo, já escuro da barba da noite para o dia. — Eu ir agora, confirmar.
— Voltarei depois do almoço. Por favor, esteja aqui, para podermos praticar mais conversação. Quero que me fale mais coisas sobre o Japão. Como se diz isso em japonês?
Hiraga pronunciou as palavras. Tyrer anotou-as foneticamente num caderno, agora repleto de palavras e frases, repetiu-as várias vezes, até se sentir satisfeito. Já ia dispensar Nakama quando se lembrou de uma coisa: