— O que é um roninl
Hiraga pensou por um momento, depois explicou da maneira mais simples que podia. Mas não disse nada sobre os shishi
— Quer dizer que você é um ronin, um proscrito?
— Hai.
Pensativo, Tyrer agradeceu e deixou-o ir embora. Reprimiu um bocejo. Dormira mal à noite passada, seu mundo ao avesso com a inesperada rejeita de Raiko.
Que se dane Raiko, que se dane Fujiko, pensou ele, pondo a cartola, a fim de descer a High Street para um almoço leve no clube. Que se dane o aprendizado de japonês, que se dane tudo, minha cabeça dói, e nunca, mas nunca mesmo aprenderei essa língua horrivelmente complicada.
— Não seja ridículo! — disse ele, em voz alta.
Claro que vai aprender, conta com Nakama e André, dois bons mestres, e esta noite terá um excelente jantar, uma garrafa de champanhe, com alguém alegre e depois para a cama. E não censure Fujiko, pois em breve dormirei com ela de novo Oh, Deus, espero que sim!
O dia era agradável e a baía se encontrava apinhada de navios. Os mercadores convergiam para o clube.
— Olá, André. É um prazer vê-lo. Quer almoçar comigo?
— Não, obrigado.
Poncin nem parou.
— Qual é o problema? Você está bem?
— Não há problema nenhum. Vamos deixar para outra ocasião?
— Que tal amanhã?
André não costumava ser tão brusco.
— E eu queria lhe perguntar o que devo...
— Almoçarei com você, Phillip, se me permitir — disse McFay.
— Claro, Jamie. Parece de ressaca, meu caro.
— E estou mesmo. Você também parece. Foi uma festa e tanto.
— É verdade. Como está Malcolm?
— Não muito bem. É uma das coisas que eu queria conversar com você. Encontraram uma mesa vaga, na sala enfumaçada, abafada e apinhada, todos de sobrecasaca, como sempre.
A mesa era de canto. Criados chineses carregavam bandejas com rosbife, empadão de galinha, empadão de peixe, sopas diversas, pastéis da Cornualha, chouriço de Yorkshire, porco salmourado, pratos com caril e tigelas de arroz a moda chinesa, assim como uísque, rum, gim, champanhe, vinhos branco e tintos e canecas de cerveja. Havia mata-moscas ao lado de cada prato. McFay usou um assim que sentou.
— Eu queria lhe pedir que conversasse com Malcolm, não como se fosse uma sugestão minha, dizendo-lhe que seria uma boa idéia voltar a Hong Kong assim que for possível.
— Ora, Jamie, tenho certeza de que ele vai querer voltar logo, sem que diga qualquer coisa. Além do mais, ele não me escutaria; e por que deveria? Qual é o problema?
— A mãe dele. Receio que já não seja mais segredo, mesmo assim, não passe adiante. Ela manda uma carta por todos os navios de correspondência ordenando que eu o despache de volta... e não há nada que eu possa fazer, já que Malcolm não me dá a menor atenção. Quando a notícia da festa e de seu noivado f nnal chegar a Hong Kong... — McFay revirou os olhos. — A merda vai se espalhar daqui a Iedo.
Apesar da seriedade de McFay, Tyrer não pôde deixar de rir.
— Já se espalhou e está fedendo como nunca antes. O jardim da legação se encontra coberto por uma camada de esterco.
— É mesmo? — O escocês franziu o rosto, farejou o ar. — Não havia notado. Como está o caril? — perguntou a alguém ao lado.
— Ótimo, Jamie. — O homem, Lunkchurch, cuspiu um pedaço de osso de galinha no chão coberto por serragem. — Já estou no segundo.
Tyrer fez sinal para um dos garçons que passava, mas o jovem dentuço evitou deliberadamente olhar para ele.
— Ei, Dew neh loh moh, garçom! — berrou McFay, irritado. — Bastante caril, depressa!
Houve risos, gritos e vaias pelas imprecações em chinês, por parte dos mercadores, e olhares contrariados do padre do batalhão Highland, que almoçava com seu equivalente anglicano dos dragões. Um prato de rosbife malpassado foi posto na frente de McFay.
— Pronto, muito, e bem depressa, hem? — disse o jovem criado, radiante. Exasperado, McFay empurrou o prato de volta.
— Isto é rosbife, pelo amor de Deus! Eu quero caril! Vá buscar CARIL!
— Quero empadão de galinha — disse Tyrer.
Resmungando, o criado voltou à cozinha. Assim que passou pela porta, caiu na gargalhada, em meio ao pandemônio que reinava ali.
— Fay da Casa Nobre explodiu como um barril de fogos de artifício quando empurrei o rosbife por baixo do nariz bulboso, fingindo que pensava que era caril. — Ele segurava a barriga no riso. — Ah, quase me caguei todo! Provocar os demônios estrangeiros é mais divertido do que fornicar!
Outros riram com ele, até que o chefe da cozinha esbofeteou-o.
— Escute aqui, seu pequeno fornicador fedorento... e todos vocês também... não provoquem os demônios estrangeiros da Casa Nobre até que Chen da Casa Nobre diga que podem. E agora leve depressa o caril de Fay da Casa Nobre, e não cuspa no prato ou vou servir a ele os seus testículos grelhados.
— Cuspir na comida dos demônios estrangeiros não tem nada demais, honorável chefe da cozinha — murmurou o jovem, a cabeça quase arrancada dos ombros. Ele pegou, também, um prato de pastelão de galinha e saiu correndo, obediente, o prato de caril e uma tigela de arroz foram jogados na frente de McFay. — Caril, amo, como pediu.
O jovem afastou-se apressado, a cabeça dolorida, mas ainda assim contente; não ousara desobedecer ao chefe da cozinha, mas mantivera o polegar imundo no caril durante todo o percurso.
— Um desgraçado grosseiro — disse Jamie. — Dez dólares contra um centavo como o patife cuspiu na comida ao trazê-la.
— Se tem tanta certeza, por que gritou com ele? — indagou Tyrer, enquanto começava a cortar o pastelão do tipo Melton-Mowbray, com sua crosta grossa
— Ele precisa disso, todos precisam, e um bom chute no rabo de vez em quando. — Com prazer, McFay pôs-se a revolver o caril com carneiro e batata amarelada e espesso como sopa de aveia, glóbulos de gordura boiando na superfície. — Outra coisa. Ouvi dizer que contrabandeou um samurai de Iedo que fala um pouco de inglês.
Tyrer quase engasgou com um pedaço de galinha.
— Mas que absurdo!
— Então por que ficou quase roxo? Lembre-se de que está falando comigo McFay, da Casa Nobre. Como espera manter esse segredo por aqui, Phillip? Vocês foram ouvidos. — O suor pontilhava sua testa, do calor do caril, a mão se erguia de vez em quando para afugentar as moscas. — Isto está quente o suficiente para fritar os colhões... e muito gostoso. Quer experimentar um pouco?