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— Tome aqui.

Hiraga recusou-o, sufocado de raiva.

— Por favor. Prefere saquê ou cerveja?

Iyé.

— Por favor... mas sente e me conte o que aconteceu.

Hiraga começou a dar uma explicação em japonês.

Gomen nasai, Ingerish dozo. Desculpe, inglês, por favor.

Com algum esforço, Hiraga passou a falar em inglês e disse, com longas e iradas pausas entre as palavras:

— Muitos guardas, portão e ponte. Passar pântano, pela água, pular cerca. Idados me ver. Eu parar, inclinar, estender mão pegar passe, eles me jogar no chão. Lutar, mas ser muitos.

Ele seguiu com outro fluxo de palavras venenosas, em japonês, promessas de vingança. Esgotado o paroxismo, Tyrer disse:

— Desculpe, mas a culpa é sua...

Tyrer recuou, numa reação involuntária, quando Hiraga virou-se para ele.

— Pare com isso! — exclamou Tyrer, irritado. — O soldado tinha razão. Os samurais assustam as pessoas. Sir William lhe disse para tomar cuidado e eu também.

— Eu estava sendo polido, apenas fazendo o que era correto! — exclamou Hiraga, em japonês, furioso. — Aqueles macacos grosseiros me atacaram quando eu ia mostrar o passe, tinha dificuldade para encontrar. Macacos, vou matar todos eles!

O coração de Tyrer batia forte, podia sentir o gosto enjoativo do medo em sua boca.

— Escute, precisamos resolver esse problema o mais depressa possível. Quando Sir William souber do incidente, pode expulsá-lo da colônia. Nós dois temos que solucionar isso, entende?

Iyé! O que ser solucionar, por favor?

Tyrer ficou agradecido por ouvir o “por favor” e conteve seu pavor. Era evidente que aquele sujeito era tão violento, perigoso e impetuoso quanto qualquer outro samurai do Japão. Graças a Deus que ele não está armado.

— “Solucionar” significa resolver, chegar a um acordo. Temos de solucionar este problema, você e eu, como você pode viver aqui em segurança. Entendeu?

Hai. So desu ka! Wakarimasu. Taira-san e eu solucionar problema. — Hiraga controlou sua fúria. — Por favor, o que sugerir? Passe não bom para soldados. Homens que me ver, me odiar. Como solucionar problema?

— Primeiro... primeiro há um excelente e antigo costume inglês. Sempre que temos de solucionar um problema sério, tomamos chá.

Hiraga manteve-se impassível. Tyrer tocou uma sineta e pediu chá a Chen, o garoto número um, que fitou Hiraga desconfiado, com um enorme cutelo escondido nas costas.

Enquanto esperavam, Tyrer recostou-se na cadeira, ficou olhando pela janela, com uma expressão solene, desesperadamente querendo que o outro homem lhe falasse sobre Fujiko, mas também bem-educado demais para um interrogatório sobre assunto tão importante- Mas que desgraçado, pensou ele, devia me dar a informação sem que eu peça, sabendo que me sinto ansioso, em vez de me deixar esperando. Preciso lhe ensinar os costumes ingleses, a não perder o controle e os soldados tinham toda razão. Preciso convertê-lo num cavalheiro inglês. Mas como? E devo me preocupar também com o miserável do Jamie que é esperto demais.

Depois do almoço, haviam ido ao escritório de McFay, que o exortara a tomar um conhaque. Em poucos minutos, Tyrer descobrira que já lhe contara tudo.

— Puxa, Phillip, você é brilhante! — dissera-lhe McFay, com um entusiasmo sincero. — Esse homem será uma verdadeira mina de ouro, se lhe fizerem perguntas certas. Ele disse de onde era?

— De Choshu. Acho que foi isso que ele disse.

— Eu gostaria de conversar com ele... em particular.

— Se ele falar com você, outros acabarão descobrindo, e a notícia... a notícia vai se espalhar por toda parte.

— Se eu sei, Norbert sabe, e aposto que o Bakufu também sabe... não são tolos. Lamento, mas não há segredos aqui. Quantas vezes devo lembrá-lo?

— Está bem, falarei com Nakama. Mas só se eu estiver presente quando conversarem.

— Ora, Phillip, isso não é necessário e você tem muito o que fazer. Não me agradaria desperdiçar seu tempo.

— Sim ou não?

McFay suspirara.

— Você é um homem difícil, Phillip. Está bem.

— E também se eu puder ler o último capítulo, de graça... amanhã, por exemplo. Acerte tudo com Nettlesmith.

McFay protestara:

— Se eu tenho de pagar a quantia espantosa de oito dólares, você também tem de contribuir!

— Neste caso, nada de entrevista e comunicarei tudo a Sir William.

Ele sorriu para si mesmo, recordando a expressão azeda de McFay, quando seus pensamentos foram interrompidos por Chen:

— Chá, amo, muito, depressa, depressa.

Tyrer voltou a se concentrar em Nakama. Chen pôs a bandeja na mesa, não mais carregando o cutelo, embora o deixasse ao seu alcance fácil, no outro lado da porta. Tyrer serviu o chá para os dois, acrescentou leite e açúcar e tomou um gole da mistura escura e escaldante, com intensa satisfação.

— Assim é melhor. — Hiraga imitou-o. Teve de recorrer a toda a sua força de vontade para não cuspir a beberagem quente, e engolir o líquido de gosto mais horrível que já experimentara na vida.

— Bom, não é? — disse Tyrer, com um sorriso radiante, enquanto terminava sua xícara. — Quer mais?

— Não, obrigado. Costume inglês, sim?

— Inglês e americano, sim, não francês. Os franceses... — Tyrer deu de ombros- — Eles não têm o menor gosto.

Ah, so ka? — Hiraga percebera o ligeiro desdém. — Francês não igual a inglês?

Ele fez a pergunta com fingida inocência, sua fúria contida para mais tarde.

— Claro que não, nem um pouco. Eles vivem no continente, nós temos uma Iha-nação, como vocês. Costumes diferentes, comidas diferentes, governo diferente, tudo diferente, e ainda por cima a França é uma pequena potência, em comparação à Inglaterra.

Tyrer pôs mais açúcar, mexeu, satisfeito consigo mesmo porque a raiva de Nakama parecia ter se dissipado.

— Somos muito diferentes.

— Ser mesmo? Inglês e francês fazer guerra?

Tyrer riu.

— Dezenas de vezes, ao longo dos séculos, mas também aliados em outras guerras... fomos aliados no último conflito.

Ele falou brevemente sobre a Criméia, depois sobre Napoleão Bonaparte, a Revolução Francesa e o atual imperador, Luís Napoleão.