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— Ele é sobrinho de Bonaparte, um absoluto bufão. Bonaparte não era um bufão, mas sim um dos homens mais diabólicos que já nasceram, responsável por centenas de milhares de mortes. Se não fosse por Wellington, Nelson e nossos soldados, ele teria dominado o mundo. Está compreendendo tudo isso?

Hiraga acenou com a cabeça.

— Não todas palavras, mas compreender. — Ele absorvera a essência e sentia-se espantado, não podia entender por que um grande general deveria ser considerado diabólico. — Por favor, continuar, Taira-san.

Tyrer continuou a falar por algum tempo, mas logo encerrou a aula de história e declarou:

— Agora, vamos ao seu problema. Quando deixou a Yoshiwara, os guardas de lá não criaram problemas?

— Não. Fingir levar legumes.

— Boa idéia. Ah, por falar nisso, falou com Raiko-san?

— Sim. Fujiko não possível amanhã.

— Ahn... Não importa.

Tyrer deu de ombros, morrendo por dentro. Mas Hiraga notou o profundo depontamento e saboreou-o. Sonno-joi, pensou ele, sombrio. Tivera de comprar pessoalmente os serviços de Fujiko, mas não se importava. Raiko dissera: “Já que você paga bem, embora não os preços dos gai-jin, eu concordo e ele deve deitar com ela no dia seguinte. Não quero que encontre outra...”

Tyrer estava dizendo:

— Nakama-san, a única maneira de você poder ficar seguro aqui é não sair. Não vou mais enviá-lo à Yoshiwara. Deve permanecer aqui, dentro da legação.

— Melhor, Taira-san, eu ficar aldeia, encontrar casa segura. Dentro cerca mais seguro. Cada dia vir amanhecer ou quando quiser, ensinar e aprender Taira-san ser muito bom sensei. Isso solucionar problema, sim?

Tyrer hesitou, não querendo afrouxar o controle, mas também não desejando mais tê-lo tão perto.

— Está bem, mas se primeiro você me mostrar o local exato e não se mudar sem me avisar.

Uma pausa, Hiraga acenou com a cabeça em concordância e disse:

— Eu concordar. Por favor, dizer soldados bom eu ficar aqui e aldeia?

— Claro, farei isso. Tenho certeza que Sir William vai concordar.

— Obrigado, Taira-san. Dizer soldados também se atacar de novo eu virar katana.

— Não fará nada disso! Eu proíbo, Sir William já proibiu! Nada de armas nada de espadas!

— Por favor, dizer soldado não atacar, por favor.

— Está bem, farei isso, mas se usar espadas aqui será morto, eles atirarão em você!

Hiraga deu de ombros.

— Por favor, não atacar. Wakatta?

Tyrer não respondeu. Wakatta era a forma mais imperiosa de wakarimasu ka: Você compreende?

Domo.

Com uma violência contida, que Tyrer quase pôde farejar, Nakama tornou a agradecer e disse que voltaria ao amanhecer para levá-lo à casa segura, depois estaria pronto para responder a quaisquer perguntas que ele quisesse fazer. Fez uma reverência rígida, que Tyrer retribuiu da mesma forma. E virou as costas para sair. Foi só então que Tyrer percebeu a extensão das equimoses por todas as suas costas e pernas.

O vento tornou-se instável naquela noite, o mar ficou encapelado.

A esquadra se encontrava ancorada na baía, pronta para dormir, o primeiro turno da noite, que começava às oito horas, já se encontrava a postos. Mais de cinqüenta homens ocupavam várias celas, por diversas violações, e seis, com graus variados de medo, preparavam diligentes as chibatas de nove tiras para as cinqüenta chibatadas que deveriam receber ao amanhecer, por conduta prejudicial à boa ordem e disciplina militar: um por ameaçar torcer o pescoço de um contramestre sodomita, três por briga, um por roubar uma ração de rum, outro por insultar um oficial.

Nove sepultamentos no mar haviam sido marcados para o amanhecer.

As enfermarias de todos os navios se achavam superlotadas com Biaru-’ sofrendo de disenteria, diarreia, crupe, coqueluche, escarlatina, sarampo, doenças venéreas, fraturas diversas, hérnias, e assim por diante, tudo rotina, à exceção de quatorze perigosos, com varíola, a bordo da nave capitânia. Sangrias e Punções violentas eram as curas recomendadas para a maioria das doenças — Médicos sendo também barbeiros —, exceto pelos poucos pacientes afortunados que recebiam a tintura do Dr. Collis, que ele inventara durante a guerra da Criméia, que reduzia as mortes por disenteria em três quartos: seis gotas do líquido escuro, misturado em ópio, e os intestinos começavam a se acalmar.

Por toda a colônia, as pessoas se preparavam para o jantar e a parte do dia guardada com mais ansiedade: a conversa depois, sobre os rumores ou notícias do dia — graças a Deus que o navio de correspondência deve chegar amanhã — desfrutando a camaradagem, rindo dos escândalos mais suculentos, falando do baile, a tensão dos negócios, se haveria mesmo guerra ou o último livro que alguém lera, uma nova história engraçada ou um poema que alguém criara, aventuras em tempestades, nas terras geladas ou em desertos, viagens por estranhos lugares do império — Nova Zelândia, África e Austrália eram quase inexploradas, a não ser pelas áreas costeiras — ou o oeste selvagem da América e Canadá, histórias da corrida do ouro na Califórnia em 1.848, de visitas à América espanhola, francesa ou russa —, Dmitri numa ocasião navegara pela costa oeste americana, em grande parte desconhecida, de San Francisco para o norte, até o Alasca, que pertencia aos russos — cada homem relatando as coisas estranhas que vira, as mulheres que possuíra, ou as guerras que testemunhara. Bons vinhos, outras bebidas, cachimbos e tabaco da Virgínia, os últimos drinques no clube, depois as orações e a cama.

Uma noite normal no império.

Alguns anfitriões especializavam-se em corais ou na leitura de poemas e trechos de algum romance cobiçado. Nesta noite, na festa muito exclusiva de Norbert Greyforth, com todos os convidados jurando segredo, houve uma leitura especial do último capítulo de Grandes Esperanças, pela cópia proibida que ele conseguira fazer em sua hora permitida, usando todos os cinqüenta amanuenses da firma.

— Se isso vazar, todos vocês serão demitidos — ameaçara ele.

No clube, ainda se falava sobre o baile da noite anterior, e se aventava a possibilidade de promover outro.

— Por que não uma festa semanal? Peitos-de-Anjo pode girar a saia e me mostrar o calção por baixo todos os dias da semana, junto com Naughty Nellie Portheringill...

— Pare de chamá-la de Peitos-de-Anjo, pelo amor de Deus!

— Ora, ela tem peitos de anjo e por isso é Peitos-de-Anjo!

Aos gritos e apupos, a briga começou, fizeram-se apostas, e os dois oponentes, Lunkchurch e Grimm, outro mercador, se atracaram e tentaram deixar um ao outro desacordado.