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Quase em frente, no lado do mar, ficava o prédio de alvenaria da legação Britânica, com um mastro no pátio, jardins, todo cercado, como a maioria das construções importantes, por uma cerca defensável. Sir William já se encontrava vestido para o jantar, assim como seu convidado principal, o almirante, e ambos estavam furiosos.

— Os desgraçados! — bradou o almirante, o rosto vermelho ainda vermelho do que o habitual, indo até o aparador para se servir de outra grande dose de uísque. — Estão além da compreensão!

— Totalmente.

Sir William largou o pergaminho e lançou um olhar furioso para Johan Tyrer, parados à sua frente. O pergaminho fora trazido uma hora antes por nosso mensageiro, enviado pelo governador japonês, em nome do Bakufu.

— Muito urgente, sinto muito.

Em vez de escrito em holandês, como era habitual, estava em caracteres com a concordância de Seratard, Johann convocara um dos missionários jesuíta franceses visitantes e produzira uma tradução aproximada, que Tyrer converteria para o inglês. A mensagem era do Conselho de Anciãos, assinada por Anjo:

Comunico por despacho. Por ordem do xógum, recebida de Quioto, a data provisória da reunião, dentro de dezenove dias, com os roju, e a reunião no mesmo dia com o xógum, serão adiadas por três meses, já que sua majestade não voltará até então. Assim, envio este aviso primeiro, antes de realizar uma conferência para acertar os detalhes. A segunda parcela do presente fica adiada por trinta dias. Respeitosa e humilde comunicação.

— Johann — disse Sir William, a voz gelada—, não acha que é um tratamento grosseiro, infame e absolutamente vil?

Cauteloso, o suíço respondeu:

— Nem tanto assim, senhor.

— Pelo amor de Deus, passei dias negociando, ameaçando, perdendo o sono, renegociando, até eles jurarem pela cabeça do xógum que se reuniriam em Iedo, no dia 5 de novembro, o encontro com o xógum no dia seguinte, e agora isto!

Sir William tomou um gole do seu drinque, engasgou e praguejou por quase cinco minutos, em inglês, francês e russo, os outros fitando-o com admiração, pelas vulgaridades esplendidamente descritivas.

— Tem toda razão — declarou o almirante. — Tyrer, Sirva outro gim para Sir William.

Tyrer obedeceu no mesmo instante. Sir William pegou seu lenço, assoou o nariz, aspirou um pouco de rapé, espirrou, tornou a assoar o nariz.

— A sífilis para todos eles!

— O que propõe, Sir William? — indagou o almirante, evitando que transparecesse em seu rosto a satisfação por mais essa humilhação de seu adversário.

— É claro que responderei imediatamente. Por favor, mande a esquadra para Iedo amanhã, a fim de bombardear as instalações portuárias que eu indicar.

Os olhos azuis do almirante se contraíram.

— Creio que devemos discutir esse assunto em particular. Cavalheiros. Tyrer e Johann encaminharam-se para a porta.

— Não! — protestou Sir William, muito tenso. — Johann, você pode sair. Espere lá fora, por favor. Tyrer é meu assistente pessoal e vai ficar. O pescoço do almirante ficou vermelho, mas ele não disse nada, até Johann fechar a porta.

— Conhece muito bem a minha posição sobre o bombardeio. Até chegar uma ordem expressa da Inglaterra, não determinarei nenhum bombardeio, a menos que seja atacado.

— Sua posição torna impossíveis as negociações. O poder vem do cano de nossos canhões e de mais nada!

— Concordo. Só discordamos sobre o momento oportuno.

— A decisão sobre o melhor momento cabe a mim. Portanto, faça a gentileza de ordenar apenas um pequeno canhoneio, vinte balas, nos alvos que eu indicar.

— Já disse que não! Será que não fui bastante claro? Quando a ordem chegar, incendiarei todo o Japão, se necessário, mas não antes.

Foi a vez de Sir William ficar vermelho.

— Sua relutância em apoiar a política de sua majestade da melhor maneira possível é inacreditável.

— Parece-me que o verdadeiro problema é o engrandecimento pessoal. Que importância podem ter uns poucos meses? Nenhuma... exceto pela prudência.

— A prudência que se dane! — berrou Sir William, furioso. — Claro que receberemos instruções para agir como eu, repito, como eu determinar! É imprudente protelar. Pela correspondência de amanhã, enviarei um pedido para que seja substituído por um oficial mais afinado com os interesses de sua majestade... e treinado em batalha!

O almirante ficou roxo. Só umas poucas pessoas sabiam que nunca participara, em toda a sua carreira, de qualquer combate, em terra ou no mar. Assim que recuperou o controle, ele disse:

— É um privilégio que lhe cabe, senhor. Enquanto isso, até meu substituto chegar, ou o seu, eu comando as forças de sua majestade no Japão. Boa noite, senhor.

Ele saiu, batendo a porta.

— Um patife grosseiro — murmurou Sir William, depois constatando, surpreso, a presença de Tyrer, paralisado pelas circunstâncias. — É melhor ficar de boca fechada, Tyrer. Eles lhe ensinaram isso?

— Sim, senhor.

— Ainda bem. — Sir William tratou de desviar sua mente do nó górdio do Bakufu, roju e a intransigência do almirante, relegando tais problemas para mais tarde. — Sirva-se de um xerez, Tyrer, pois parece que está precisando. Jante conosco, já que o almirante recusou o convite. Joga gamão?

— Sim, senhor.

— Antes que eu me esqueça, que história é essa de uma escaramuça entre um samurai de estimação e o exército britânico?

Tyrer relatou os detalhes e sua solução, mas não falou sobre a ameaça do sensei de pegar suas espadas, sentindo-se mais culpado do que nunca por esconder fatos do ministro.

— Eu gostaria de mantê-lo aqui, senhor... com sua aprovação, é claro. É um mestre excelente e creio que nos será muito útil.

— Duvido muito e é ainda mais importante que não haja novos problemas aqui. Não há como prever o que esse homem fará. Pode se tornar uma víbora no nosso ninho. Terá de ir embora amanhã.

— Mas ele já me forneceu algumas informações muito valiosas, senhor! —protestou Tyrer, reprimindo sua súbita aflição. — Por exemplo, contou-me que o xógum é apenas um menino, mal completou dezesseis anos, e não passa de um títere do Bakufu, o verdadeiro poder pertence ao imperador... ele usou o títere do micado várias vezes... que vive em Quioto.

— Deus Todo-Poderoso! — explodiu Sir William. — Isso é mesmo verdade? Tyrer já ia revelar que Hiraga falava inglês, mas conteve-se a tempo.

— Ainda não tenho certeza, senhor. Não tive tempo de interrogá-lo direito pois é um homem difícil, mas creio que é verdade.