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— Eu também ficaria assim... não, não igual, muito pior.

— Ficarei bem depois que casarmos, toda a espera encerrada, tudo em ordem.

Com alguma dificuldade, Struan usou o urinol, o que era sempre doloroso, viu algumas partículas de sangue no fluxo. Falara a respeito com Hoag no dia anterior, quando recomeçara, e o médico lhe dissera para não se preocupar.

— Então por que você está preocupado?

— Não estou preocupado, Malcolm, mas apenas interessado. Com os ferimentos internos que você sofreu, qualquer indicação durante o processo de cura deve ser registrada...

Struan terminou, claudicou até a cadeira ao lado da janela, arriou nela, agradecido.

— Preciso de um favor, Jamie.

— Claro. Qualquer coisa. O que posso fazer?

— Pode... ahn... preciso ter uma mulher. Pode trazer alguém da Yoshiwara?

Jamie ficou surpreso.

— Ahn... acho que sim. — Uma pausa. — Seria sensato?

Uma rajada de vento sacudiu as janelas, os galhos das árvores e os arbustos no jardim, derrubou algumas telhas soltas ao chão, fez com que os ratos saíssem correndo das pilhas de lixo jogadas na High Street e do canal cheio e fétido ao redor, que também servia como esgoto.

— Não — respondeu Malcolm.

A menos de um quilômetro do prédio Struan, perto da cidade dos bêbados, numa habitação indistinta da aldeia japonesa, Hiraga estava deitado de barriga para baixo, sendo massageado. A casa era ordinária, a fachada dando para a rua decrépita igual às outras nos dois lados do estreito caminho de terra, cada uma servindo também como depósito e loja durante o dia. Lá dentro, como muitas outras que pertenciam aos mercadores mais prósperos, tudo exibia uma limpeza impecável, era polido, apreciado e confortável. Era a casa do shoya, o ancião da aldeia.

A massagista era cega. Tinha vinte e poucos anos, o corpo firme, o rosto gentil, um sorriso meigo. Pelos costumes antigos, na maior parte da Ásia, os cegos tinham o monopólio da arte da massagem, embora fosse praticada também por algumas pessoas de visão normal. Também pelo costume antigo, os cegos sempre tinham toda segurança, nunca eram atacados.

— É muito forte, samurai-sama — disse a jovem, rompendo o silêncio. — Os homens com quem lutou devem estar mortos ou sofrendo.

Por um momento, Hiraga não respondeu, apreciando os dedos hábeis e firmes, que procuravam seus músculos contraídos e os relaxavam.

— Talvez.

— Por favor, posso fazer uma sugestão? Tenho um óleo especial da China que ajudará a curar seus cortes e equimoses num instante.

Ele sorriu. Era um estratagema usado com freqüência, para ganhar um dinheiro extra.

— Está bem. Pode usar.

— Ah, mas você sorri, honrado samurai! Não é um truque para ganhar mais dinheiro — disse ela no mesmo instante, os dedos nas costas de Hiraga. — Minha avó, que também era cega, transmitiu-me o segredo.

— Como soube que eu sorri?

A jovem riu, o que lembrou a Hiraga o som de uma cotovia flutuando nas correntes de ar do amanhecer.

— Um sorriso começa em muitas partes do corpo. Meus dedos o escutam em seus músculos, e às vezes até os pensamentos.

— E em que estou pensando agora?

— Em Sonno-joi. Ah, eu acertei! — Outra vez a risada que o desconcertava — Mas não tenha qualquer receio, não disse nada, os fregueses aqui nunca dizem nada, e eu nada direi. Mas meus dedos me dizem que é um espadachim especial. O melhor a que já servi. É evidente que não é do Bakufu. Portanto, deve ser ronin e ronin por opção, já que é hóspede nesta casa. Ou seja, deve ser um shishi o primeiro que já tivemos aqui.

Ela fez uma reverência, antes de acrescentar:

— Todos nos sentimos honrados. Se eu fosse homem, apoiaria Sonno-joi.

Deliberadamente, a ponta de seu dedo, dura como aço, pressionou um centro nervoso e ela sentiu o tremor de dor percorrer o corpo de Hiraga. Ficou satisfeita por ser capaz de ajudá-lo muito mais do que ele imaginava.

— Sinto muito, mas este é um ponto muito importante para rejuvenescê-lo e manter o fluxo de seus humores.

Hiraga soltou um grunhido, a dor comprimindo-o contra os futons, mas ao mesmo tempo experimentando uma estranha satisfação.

— Sua avó também era massagista?

— Era, sim. Em minha família, pelo menos uma menina em cada segunda geração nasce cega. Foi a minha vez nesta vida.

— Karma.

— É verdaae. Dizem que na China de hoje os pais ou mães cegam uma de suas filhas, a fim de que ela possa obter, quando crescer, um emprego para a vida toda.

Hiraga nunca ouvira falar a respeito, mas acreditou, e sentiu-se furioso.

— Aqui não é a China, e nunca será. Um dia ainda vamos conquistar a China e civilizá-la.

— Oh, lamento perturbar sua harmonia, lorde. Por favor, perdoe-me. Ah, assim é melhor. Mais uma vez, peço que me desculpe, por favor. Estava dizendo, lorde... civilizar a China? Como o ditador Nakamura queria fazer? É possível?

— É, sim, um dia. É o nosso destino assumir o trono do dragão, como é o seu destino massagear e não falar.

Outra vez a risada gentil.

— Sim, lorde.

Hiraga suspirou, enquanto o dedo da jovem soltava o ponto de pressão, a dor dando lugar a uma satisfação agradável. Portanto, todos sabem que sou shishi, pensou ele. Quanto tempo se passará antes de ser traído por alguém? Por que não? Dois koku é uma fortuna.

Não fora fácil encontrar este refúgio. Ao entrar na aldeia, deparara com um silêncio consternado, pois todos viram que se tratava de um samurai, um samurai sem espadas, parecendo descontrolado. A rua esvaziara-se, exceto pelos mais próximos, que se ajoelharam e aguardaram seu destino.

— Você, velho, onde fica a ryokan mais próxima... a estalagem?

— Não temos nenhuma, lorde, não há necessidade, honrado lorde. — balbucira o idoso consciente, o medo fazendo-o falar apressadamente. — Não precisamos, já que nossa Yoshiwara fica aqui perto, maior que na maioria das cidades, com dezenas de lugares em que um homem pode se alojar, com mais de uma centena de mulheres, sem contar as criadas, três gueixas de verdade e sete aprendizes, e é por isso...

— Já chega! Onde é a casa do shoya?

— Aquela ali, senhor.

— Onde, seu tolo? Levante-se e me leve até lá! Ainda enfurecido. Hiraga seguira o velho pela rua,querendo esmurrar os olhos que o observavam de todas as aberturas, sufocar os sussurros em sua esteira.