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— Com o vento certo — murmurou Ori —, um vento sul, como esta noite com cinco ou seis shishi, uns poucos barris de óleo já colocados nos armazéns certos... mesmo que não seja necessário, podemos iniciar incêndios na Yoshiwara. O vento espalharia as chamas para a aldeia e, depois, para a colônia! Neh?

— E o navio?

— Na confusão, podemos remar até o maior. Seria fácil, neh?

— Fácil, não, mas que golpe!

Sonno-joi!

21

Quinta-feira, 16 de outubro:

Entre! Ah, bom dia, André. — O tom de Angelique era efusivo, e não combinava com sua ansiedade. — É muito pontual. Está tudo bem com você?

Ele acenou com a cabeça, fechou a porta da pequena sala no térreo, anexa ao quarto, que servia como o boudoir de Angelique, na legação francesa. Sentiu-se mais uma vez espantado por ela aparentar tanta calma e ser capaz de manter uma conversa descontraída. Polidamente, inclinou-se para beijar a mão de Angelique, depois sentou à sua frente. A sala era insípida, com cadeiras velhas, uma chaise longue, escrivaninha, paredes de reboco, com uns poucos óleos baratos de novos pintores franceses, Delacroix e Corot.

— O exército me ensinou. A pontualidade é quase a santidade.

Ela sorriu, amável.

— Não sabia que esteve no exército.

— Tive uma comissão na Argélia durante um ano, quando tinha vinte e dois anos, depois da universidade... nada de espetacular, apenas ajudar a esmagar uma das habituais rebeliões dos nativos. Quanto mais cedo exterminarmos todos os rebeldes, anexando por completo o norte da África, tornando-o território francês, melhor. — Ele afugentou as moscas, distraído, enquanto a estudava. — Você parece mais linda do que nunca. Seu estado lhe faz bem.

Os olhos de Angelique perderam a cor, tornaram-se duros. A noite anterior fora péssima, sua cama bastante desconfortável, no quarto desarrumado e andrajoso. No escuro, a ansiedade prevalecera sobre a confiança e se tornara cada vez mais nervosa por ter deixado de maneira tão precipitada a suíte confortável ao lado dos aposentos de Struan. A alvorada não melhorara seu humor; outra vez fora torturada pela idéia persistente: os homens causavam todos os seus problemas. A vingança será doce.

— Está se referindo ao meu iminente estado conjugal, não é?

— Claro — respondeu André, depois de uma breve pausa.

Angelique se perguntou, irritada, qual era o problema com ele, por que se mostrava tão grosseiro e distante, como ocorrera na noite anterior, quando tocou piano por um longo tempo, mas sem que a música tivesse o entusiasmo habitual.

André exibia olheiras e o rosto parecia mais encovado do que o habitual.

— Tem algum problema, meu caro amigo?

— Não, minha cara Angelique, absolutamente nenhum.

Mentiroso, pensou ela. Por que os homens mentem tanto, para as outras pessoas e para si mesmos?

— Teve êxito em sua missão?

— Sim e não.

Ele sabia que Angelique girava num espeto e, de repente, teve vontade de fazer com que ela se contorcesse, abanar as chamas para fazê-la gritar, pagar por Hana.

Você é louco, disse a si mesmo. A culpa não é de Angelique. Isso é verdade, mas foi por sua causa que ontem à noite visitei a casa das Três Carpas, falei com Raiko; enquanto conversávamos, em nossa mistura de japonês, inglês e pidgin senti de repente que aquela outra noite não passara de um pesadelo terrível e que a qualquer momento Hana apareceria, com um riso nos olhos, meu coração palpitaria, como sempre, deixaríamos Raiko, tomaríamos um banho juntos, comeríamos em particular e faríamos amor sem pressa. Quando compreendi a verdade, que Hana se fora para sempre, tive a sensação de que vermes fervilhavam em minhas entranhas e cérebro e quase vomitei.

— Raiko, preciso saber quem eram os três clientes.

— Sinto muito, Furansu-san. Já disse antes: a mama-san dela morreu, pessoas da casa se dispersaram, a Estalagem dos Quarenta e Sete Ronin foi destruída.

— Deve haver algum meio de descobrir...

— Não há nenhum. Sinto muito.

— Então me conte a verdade... a verdade de como ela morreu.

— Com sua faca na garganta. Sinto muito.

— Ela se matou? Haraquiri?

Raiko respondera com a mesma voz paciente, a mesma voz que usara para contar a mesma história, dar as mesmas respostas às mesmas perguntas, uma dezena de vezes antes:

— O haraquiri é o meio antigo, o meio honrado, o único meio de expiar um erro cometido. Hana traiu a você e a nós, a todos os clientes, a si mesma... era esse o seu karma nesta vida. Não há mais nada a dizer. Sinto muito. Deixe-a descansar. O quadragésimo dia depois de sua morte, seu dia de kami, quando uma pessoa renasce ou se torna um kami, já passou. Deixe seu kami, seu espírito descansar. Agora, que outra coisa posso fazer por você?

Angelique sentava empertigada, como fora ensinada desde a infância, angustiada, observando-o, uma das mãos no colo, a outra se abanando contra as moscas. Indagara duas vezes “o que significa sim e não?”, mas André não a ouviu, aparentemente em transe. Pouco antes de deixar Paris, seu tio ficara no mesmo estado e a tia comentara:

— Deixe-o em paz. Quem sabe que demônios habitam a mente de um homem quando perturbado?

— Qual é o problema que ele tem?

— Ah, chérie, toda a vida é um problema quando o que se ganha não dá para tudo o que se precisa. Os impostos nos sufocam, Paris é uma cloaca de arrogância e ausência de moral, a França desmorona outra vez, o franco compra cada vez menos, o preço do pão dobrou em um ano e meio. Deixe-o em paz. O pobre coitado faz o melhor que pode.

Angelique suspirou. É isso mesmo, um pobre coitado. Amanhã farei o melhor que puder. Falarei com Malcolm, que acertará o pagamento das dívidas. Um homem tão bom não pode continuar na prisão dos devedores. De quanto serão suas dívidas? Uns poucos luíses...

Ela viu André voltar a si e fitá-la.

— Sim e não, André? O que isso significa?

— Sim, elas têm um medicamento, mas não, você ainda não pode tomá-lo porque...

— Mas por que você...

Mon Dieu, seja paciente, e espere até eu terminar de contar o que a mama-san me disse. Não pode ter o medicamento agora porque não deve ser tomado antes do trigésimo dia, e de novo no trigésimo quinto, e também porque a beberagem... uma infusão de ervas... deve ser preparada na hora, a cada vez.