As palavras liquidaram a simplicidade do plano de Angelique; André já deveria ter lhe dado aquela altura a poção ou o pó que obtivera na noite anterior, ela tomaria de imediato e iria para a cama, alegando que se sentia com depressão. Voilá! Uma pequena dor de barriga e, em poucas horas, um dia no máximo, tudo ficaria perfeito.
Por um momento, Angelique sentiu que todo o seu mundo se distorcia, mas conseguiu aplicar um freio: Pare com isso! Está sozinha. É a heroína, apanhada pelas forças do mal. Deve ser forte, tem de lutar sozinha... mas pode vencê-las!
— Trinta dias?
A voz saiu sufocada.
— Isso mesmo, e repete no trigésimo quinto. Você precisa ser pontual e...
— O que acontece depois, André? Age rápido?
— Pelo amor de Deus, deixe-me acabar. Ela disse que costuma funcionar de lmediato. A segunda dose nem sempre é necessária.
— Não há nada que eu possa tomar imediatamente?
— Não. Absolutamente nada.
— Mas ela disse que a tal beberagem dá certo em todas as ocasiões?
— Disse, sim.
A resposta de Raiko a tal pergunta fora outra:
— Nove vezes em dez. Se o medicamento não funcionar, há outros meios.
— Refere-se a um médico?
— Isso mesmo. A poção geralmente funciona, mas é cara. Devo pagar ao fabricante antes que ele me dê. Precisa comprar as ervas...
André tornou a se concentrar agora em Angelique.
— A mama-san disse que era eficaz... mas cara.
— Eficaz? Todas as vezes? E não é perigosa?
— Todas as vezes, e não é perigosa. Mas é cara. Ela tem de pagar adiantado ao farmacêutico, para que ele compre as ervas.
— Por favor, pague para mim, e dentro de poucos dias o reembolsarei três vezes mais.
Os lábios de André contraíram-se numa linha fina.
— Já adiantei vinte luíses. Não sou rico.
— Mas quanto pode custar um pequeno medicamento, André, um medicamento tão corriqueiro? Não pode ser muito caro, não é?
— Ela disse que para uma moça precisando de tal ajuda, uma ajuda secreta. Que importância tem o custo?
— Concordo, meu caro André. — Angelique empurrou esse problema para o lado, com a maior cordialidade, ao mesmo tempo em que endurecia seu coração por ele ser tão mercenário. — Dentro de trinta dias poderei pagar qualquer coisa, da mesada que Malcolm me prometeu. De qualquer forma, tenho certeza de que você poderá providenciar tudo, já que é um homem tão sensato. Obrigada, meu caro amigo. Por favor, diga a ela que minha regra deveria começar daqui a oito dias, exatamente. Quando receberá o medicamento?
— Já lhe disse, um dia antes do trigésimo. Posso ir buscar pessoalmente ou mandar alguém.
— E... o desconforto? Por quanto tempo deve durar?
André sentia-se muito cansado, constrangido, e agora furioso por ter se deixado envolver, por maiores que fossem as vantagens potenciais e permanentes.
— Ela me disse que depende da mulher, da idade, se já fez isso antes. Se nunca fez, deve ser fácil.
— Mas quantos dias de mal-estar?
— Mon Dieu, ela não disse e também não perguntei. Se tem perguntas específicas, escreva-as, e tentarei obter as respostas. E, agora, se me dá licença...
André levantou-se. No mesmo instante, ela permitiu que seus olhos se enchessem de lágrimas.
— Oh, André, obrigada! Tem sido tão gentil em me ajudar, e lamento muito tê-lo incomodado!
Ela desatou a chorar, satisfeita por vê-lo se derreter de novo.
— Não chore, Angelique. Não é culpa sua, mas sim... peço desculpas. De ser terrível para você, mas não se preocupe, por favor. Irei buscar o medicamento no momento certo e farei tudo o que puder para ajudar. Basta escrever as perguntas e trarei as respostas em poucos dias. Sinto muito... é que não tenho me sentido bem ultimamente...
Angelique fingiu confortá-lo. Depois que ele se retirou, avaliou as suas opções, olhando pelas cortinas sujas para a High Street, sem ver nada.
Trinta dias? Não importa. Posso viver com a demora, nada vai atrapalhar, pensou ela, várias vezes, querendo convencer a si mesma. Mais vinte dias não fará a menor diferença.
Para se certificar, ela pegou seu diário, abriu-o, começou a contar. Depois contou e chegou ao mesmo dia, 7 de novembro, sexta-feira. Dia de são Teodoro.
Mesmo assim acenderei uma vela para ele todos os domingos. Não há necessidade de marcar o dia, pensou ela, um tremor lhe percorrendo o corpo. Mesmo assim, fez a pequena cruz no canto. E a confissão?
Deus compreende. Ele compreende tudo.
Posso esperar... mas o que fazer se...
Se não der certo ou se André ficar doente ou se desaparecer ou se morrer ou se a mama-san não cumprir o prometido ou qualquer outra coisa dentre mil e um contratempos?
Isso a inquietou. Abalou sua determinação. Lágrimas de verdade molharam as faces. E, de repente, Angelique recordou o que o pai dissera uma ocasião, há muitos anos, pouco antes de abandoná-la e ao irmão menor, em Paris...
— Isso mesmo, ele nos abandonou — disse ela, em voz alta, a primeira vez em que articulava essa verdade. — Não se pode chamar de outra coisa. E por tudo o que sei agora, Mon Dieu, provavelmente foi melhor assim. Ele teria nos vendido, pelo menos me vendido.
O pai citara seu ídolo, Napoleão Bonaparte:
— Um general sábio sempre tem uma linha de retirada planejada, da qual desfechará o golpe da vitória.
Qual é a minha linha de retirada?
Foi nesse instante que uma coisa que André Poncin lhe dissera, semanas antes, aflorou em sua mente. Ela sorriu e toda a angústia se desvaneceu.
Phillip Tyrer dava os retoques finais no esboço da resposta de Sir William ao roju. Ao contrário das comunicações anteriores, Sir William enviaria o original em inglês e uma cópia em holandês, a ser preparada por Johann.
— Aqui está, Johann, já acabei.
Ele arrematou com um floreado no “B” final de Sir William Aylesbury, K.C.B.
— Scheiss in mein Hut! — exclamou Johann, impressionado. — É a melhor caligrafia que já vi. Não é de admirar que Wee Willie queira que você copie todos Os despachos de Londres.