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— Achei que ia querer saber logo, senhor. E tenho outra informação, e creio que compreendi corretamente: ele diz que todos os japoneses, até mesmo os daimios, precisam de permissão para visitar Quioto, onde vive o imperador.

— O que são os daimios?

— É como eles chamam seus reis, senhor. Mas todos, até mesmo eles, devem obter permissão para visitar Quioto... ele diz que o Bakufu, que é outro nome para xogunato, como seu serviço público civil, tem medo de permitir o livre acesso a qualquer um. — Tyrer bem que tentara manter a calma, mas as palavras saíram aos borbotões. — Se isso é verdade, e se o xógum se encontra em Quioto no momento, e o imperador reside ali em caráter permanente, se todo o poder se concentra agora na cidade... se o senhor fosse até lá, isso não significa que passaria por cima do Bakufu?

— Uma lógica inspirada — respondeu Sir William, gentilmente, com um suspiro de satisfação, pois já chegara a essa conclusão muito antes da sugestão de Tyrer. — Phillip, creio que vou reformular meu despacho. Volte daqui a uma hora... Fez um bom trabalho.

— Obrigado, senhor. — Tyrer falara então sobre o “novo” Nakama, com um novo corte de cabelo. — Creio que se pudéssemos persuadi-lo a usar roupas européias, ele se tornaria ainda mais maleável... e enquanto ele me ensina japonês, é claro que eu também lhe ensino inglês.

— Uma idéia excelente, Phillip.

— Obrigado, senhor. Providenciarei tudo imediatamente. Posso mandar a conta para nosso cambista pagar?

Um pouco do bom humor de Sir William desaparecera.

— Não temos um excesso de fundos, Phillip, e o Ministério das Finanças... Está bem. Mas apenas um traje, e você é responsável para que a conta seja modesta.

Tyrer se retirara, e agora que concluíra seu trabalho no despacho, levara Hiraga ao alfaiate chinês.

A High Street não se encontrava muito apinhada àquela hora do dia, o da tarde, a maioria dos homens nos escritórios, ainda fazendo a sesta ou no clube. Uns poucos bêbados se agrupavam em lugares abrigados no cais, pois o vento ainda soprava forte. Mais tarde, haveria uma partida de futebol, marinha contra o exército, no campo de desfile, e Tyrer aguardava o jogo com ansiedade. Sentia-se assim pelo encontro que teria com Jamie McFay e que não pudera recusar após visitar o alfaiate.

— Ele é o chefe da Struan aqui, Nakama-san, descobriu de alguma forma a sua presença, e que sabe falar inglês. Mas merece confiança.

— So ka? Struan? O homem que vai casar?

— Quer dizer que os criados já lhe falaram sobre a festa de noivado, hem? McFay é apenas o chefe do escritório aqui. O sr. Struan, o tai-pan, é quem vai casar. Aquele é o seu prédio, armazém, escritório e residência.

— So ka? — Hiraga estudou o prédio. Concluiu que um ataque seria difícil, e a simples entrada seria um problema. As janelas mais baixas eram gradeadas. — Esse Struan, também sua mulher, ficam aqui?

A mente de Tyrer se desviara para Fujiko e ele respondeu, distraído:

— Struan fica, não tenho certeza sobre ela. Em Londres, este prédio não seria grande coisa, em comparação com as casas comuns, milhares e milhares. Londres é a cidade mais rica do mundo.

— Mais rica que Iedo?

Tyrer riu.

— Mais rica do que vinte ou cinqüenta Iedos. Como digo isso em japonês? Hiraga explicou, os olhos perspicazes registrando tudo... não acreditando naquela história sobre Londres, nem na maior parte do que Tyrer lhe dizia, convencido de que eram apenas mentiras para confundi-lo. Passavam agora pelos diversos bangalôs que serviam como legações, esgueirando-se entre o lixo, amontoado por toda parte.

— Por que bandeiras diferentes, por favor?

Tyrer queria praticar o japonês, mas a cada vez que começava, Hiraga respondia em inglês, e no mesmo instante fazia outra pergunta. Mesmo assim, ele explicou, apontando:

— São as legações; aquela é a russa, a americana, a francesa... e ali a prussiana. A Prússia é uma importante nação do continente. Se eu quisesse dizer...

— Ah, sinto muito, ter um mapa do seu mundo, por favor?

— Tenho, sim, e lhe mostrarei com o maior prazer.

Um destacamento de soldados se aproximou e passou, sem lhes dispensar a menor atenção.

— Esses homens da Prússia — disse Hiraga, pronunciando o nome com o maior cuidado — também fazem guerra contra franceses?

— Às vezes. Sem dúvida são belicosos, sempre guerreando contra alguém. Têm um novo rei e seu maior defensor é um príncipe poderoso chamado Bismarck, que está tentando juntar todos os que falam alemão numa grande nação, e...

— Por favor, sinto muito, Taira-san, não tão depressa, sim?

— Ah gomen nasai.

Tyrer repetiu o que dissera, mais devagar, respondeu a mais perguntas, nunca deixando de se espantar com sua quantidade e extensão, admirado com a mente inquisitiva de seu protegido. Ele riu de novo.

— Devemos chegar a um acordo: uma hora sobre o meu mundo, em inglês, a hora sobre o seu, em inglês, e depois uma hora de conversa em japonês. Hai?

Hai. Domo.

Quatro cavaleiros a caminho da pista de corridas alcançaram-nos, eles cumprimentaram Tyrer, olharam para Hiraga com a maior curiosidade. Na extremide da High Street, junto à barreira, filas de cules, com o carregamento da tarde. Mercadorias e alimentos, começavam a passar pela alfândega, sob os olhos vigilantes dos guardas samurais.

— É melhor nos apressarmos, para não nos misturarmos com esse bando disse Tyrer.

Ele atravessou a rua, esgueirando-se entre o estrume de cavalo, parou abruptamente e acenou, ao passarem pela legação francesa. Angelique estava à sua janela, no térreo, as cortinas abertas. Ela sorriu, acenou em resposta. Hiraga fingiu não ter notado o escrutínio a que ela o submeteu.

— Essa é a dama com quem o Sr. Struan vai casar — comentou Tyrer recomeçando a andar. — Muito bonita, não é?

Hai. Aquela sua casa, sim?

— Sim.

— Boa noite, Sr. McFay. Está tudo trancado.

— Boa noite, Vargas.

McFay reprimiu um bocejo e continuou a escrever em seu diário, a última tarefa do dia. Sua escrivaninha se encontrava limpa, a não ser pelos jornais de duas semanas ainda por ler. A bandeja de entrada estava vazia e a de saída continha as respostas para a maior parte da correspondência de hoje, assim como os pedidos, notas de transporte já assinadas, prontas para serem executadas ao amanhecer, quando os negócios começavam.

Vargas coçou distraído uma picada de pulga, uma constante na Ásia, e guardou a chave da casa-forte na escrivaninha.