— Quer que eu traga mais luz?
— Não, obrigado. Já estou quase acabando. Vejo-o amanhã.
— Os Choshus devem chegar amanhã, para tratar das armas.
— Eu não havia esquecido. Boa noite.
Agora que se encontrava sozinho naquela parte do andar térreo, McFay sentiu-se mais feliz, sempre satisfeito por não ter qualquer companhia, sempre seguro dentro de si mesmo. Exceto por Vargas, todos os escriturários, cambistas e demais empregados usavam outra escada, e tinham suas salas nos fundos do prédio. A porta de comunicação entre as duas partes era trancada à noite. Só An Tok e os criados pessoais permaneciam na parte dianteira, que continha os escritórios, a casa-forte, onde ficavam todas as armas, livros de contabilidade e cofres com dólares de prata mexicanos, taéis de ouro e moedas japonesas, e os aposentos, no andar por cima.
A correspondência diária era sempre intensa e ocupava McFay até tarde da noite, aquela em particular mais do que as outras, porque recebera de Nettlesmith o último capítulo de Grandes Esperanças, subira correndo e partilhara sua hora miúda com Malcolm Struan, desfrutando cada página, antes de descer para trabalhar, na maior satisfação, porque tudo acabara bem para Pip e a moça, e agora uma nova epopéia de Dickens seria anunciada na edição do mês seguinte. Pois o relógio de pé tiquetaqueava suavemente. McFay escreveu depressa, com sua letra precisa:
MS ficou furioso com a carta da mãe na correspondência de hoje (Vapor Swift Wind, um dia atrasado, um homem perdido ao cair no mar, ao largo de Xangai, também passou por dificuldades nos estreitos de Shimonoseki, as baterias da praia disparando talvez vinte tiros, que não atingiram o alvo, graças a Deus!). Minha resposta ao canhoneio da Sra. foi conciliatória (ela ainda não teve conhecimento da festa, o que vai causar uma explosão de Hong Kong a Java), mas duvido que possa tranqüilizar as águas agitadas. Informei-a que A se mudara, voltando à legação francesa, mas não creio que isso tenha qualquer importância para a Sra. S, embora MS tenha se mostrado impaciente durante o dia inteiro por A não tê-lo visitado, e gritasse de novo com Ah Tok, deixando-a num ânimo sombrio... que transmitiu a todos os outros criados, infelizmente!
Devo registrar que MS, apesar de toda a sua dor, é muito mais sensato do que eu imaginava, com uma excelente visão dos negócios em geral, inclusive do comércio internacional, e agora aceita minha opinião de que há um grande potencial aqui. Discutimos o problema da Brock e concordamos que não havia nada que pudesse ser feito daqui; mas, assim que ele voltar a HK, tornará a enfrentá-los. Outra vez ele se recusou a considerar o retorno pelo navio de correspondência — Hoag senta em cima da cerca, não é meu aliado, diz que quanto mais Malcolm descansar aqui, melhor será, uma viagem ruim poderia ser traumática.
Tive um primeiro encontro com o tal japonês Nakama (que só pode ser um pseudônimo) e tenho certeza que ele é mais do que finge. Um samurai, um proscrito ronin, que sabe falar um pouco de inglês, corta os cabelos porque decidiu renunciar à sua posição de samurai, que procura usar nossas roupas não pode deixar de ser extraordinário, e precisa ser vigiado com o maior cuidado. Se metade do que ele diz é verdade, então conseguimos — através de Tyrer, abençoado seja — dar um grande passo à frente em matéria de informações. É uma pena que Nakama nada saiba sobre negócios, sua única informação útil sob esse aspecto foi a de que Osaca é o principal centro comercial do Japão, não Iedo, o que constitui uma razão a mais para pressionar pela abertura daquela cidade, o mais depressa possível, Nakama deve ser cultivado, sem qualquer dúvida, e...
Houve uma batida numa das janelas. McFay olhou para o relógio. São dez horas. Uma hora de atraso. Ora, não importa, o tempo asiático é quase como o nosso.
Sem pressa, ele se levantou, pôs o pequeno revólver no bolso da sobrecasaca, foi até sua porta particular e destrancou-a. Havia duas mulheres da fora, usando mantos com capuz, acompanhadas por um criado. Os três fizeram uma reverência. Ele sinalizou para as duas mulheres entrarem, deu trinta moedas ao homem, que agradeceu, fez outra reverência e se afastou pela rua em direção à Yoshiwara. McFay tornou a trancar a porta.
— Ei, Nemi, você sempre bonita, neh?
McFay sorriu, abraçou uma das mulheres, que o fitou por baixo do capuz com um sorriso radiante, um brilho nos olhos; era sua musume há um ano, mantida por ele durante a metade desse período.
— Ei, Jami-san, você bom, hem? Esta musume minha irmã, Shizuka. Bonita neh?
Nervosa, a outra moça empurrou o capuz para trás, forçou um sorriso. Ele recomeçou a respirar — Shizuka era tão jovem quanto Nemi, tão atraente e fragrante.
— Hai!— exclamou ele.
As duas moças sentiram-se aliviadas por Shizuka ter passado pela inspeção inicial. Era a primeira vez que McFay arrumava uma mulher para outro. Contrafeito, pedira a Nemi para explicar à mama-san que a moça seria para o tai-pan, por isso tinha de ser especial. As duas tinham vinte e poucos anos, mal batiam em seu ombro, pareciam um pouco mais à vontade agora, embora conscientes de que o verdadeiro obstáculo ainda teria de ser superado.
— Shizuka, deve compreender, por favor. Tai-pan homem importante. — Virando-se para Nemi e passando a mão pelo lado de seu corpo, na altura do ferimento de Struan, ele acrescentou: — Ela sabe do ferimento, neh?
Nemi acenou com a cabeça, os dentes brancos faiscando.
— Hai, eu explicar, Jami-san. Dozo, deixar casaco aqui, ou lá em cima.
— Lá em cima.
Ele subiu na frente pela escada principal, iluminada por lampiões a óleo, Nemi falando com a nova moça, que prestava atenção a tudo. Era seu costume, de vez em quando, chamar Nemi para passar a noite aqui, o criado voltando pouco antes do amanhecer para escoltá-la até sua pequena habitação, no terreno da estalagem da Alegria Suculenta. O arrendamento da casa por cinco anos, depois de dias negociação, custara-lhe dez soberanos de ouro. Outros dez pelo contrato de Nemi durante o mesmo período, mais um extra para um novo quimono a cada mês, penteados, uma criada pessoal e toda a alimentação, além do saquê.
— Mas o que acontece se o fogo destruir a casa, mama-san? — indagara consternado por concordar com um preço tão alto.
É verdade que a taxa de câmbio excepcionalmente vantajosa lhes proporcionavam lucro de quatrocentos por cento na maioria dos meses... o que significava que quase todos os estrangeiros podiam ter um pônei ou dois, consumir champanhe à vontade e ainda mais importante, no seu caso, contar com a certeza de que os gastos de manutenção de Nemi não representariam mais do que umas poucas despesas.
A mama-san se mostrara chocada.
— Comprar como nova. Você pagar metade preço, justo, neh?