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Ori bocejou e tirou o olho do buraco.

— Já vi o suficiente — sussurrou ele. — Chocante.

— Concordo. — Hiraga também manteve a voz baixa. — Terrível. O desem-penho de Fujiko foi o pior que já testemunhei. Baka!

— Se eu fosse Taira, exigiria meu dinheiro de volta.

— Concordo. Baka! Fujiko não conseguirá deixá-lo pronto de novo por horas, e quanto a ele... apenas a Primeira Posição uma vez e ainda falam de dez arremetidas, e tudo acaba, Sobre a Lua, como um pato. Ori teve de levar a mão à boca para reprimir o riso. Depois, com extremo zelo, ajeitou pequenos pedaços de papel para tapar os buracos que haviam feito no canto distante da tela de shoji. Juntos, esgueiraram-se entre os arbustos, passaram pelo portão secreto na cerca e voltaram à residência de Ori.

Saquê!

Meio adormecida, a criada pôs a bandeja na frente dos dois, serviu e se afastou ainda tendo dificuldade para não olhar para suas cabeças. Eles brindaram um com o outro, tornaram a encher os copos, o cômodo pequeno e agradável iluminado por velas, com os futons já arrumados no aposento contíguo. As espadas estavam e prateleiras baixas, laqueadas. Raiko violara a regra da Yoshiwara que proibia armas na área porque eles eram shishi, por causa do retrato de Hiraga e implorou a ambos, que haviam jurado por Sonno-joi, que não usariam as armas contra alguém na casa ou qualquer hóspede, e apenas em defesa.

— Não posso acreditar que Taira se deixasse enganar pelo simulado momento com os deuses, Hiraga, um depois do outro, daquele jeito! A encenação dela foi péssima. Será que ele é mesmo tão estúpido assim?

— Obviamente. — Hiraga riu, esfregou a cabeça, atrás e nos lados, com extremo vigor. — Com uma arma daquele tamanho, ele deveria ter feito com que Fujiko gritasse de verdade... todos os gai-jin são assim?

— Quem se importa... no caso dele, é um desperdício.

— Sem a menor sutileza, Ori! Talvez eu devesse arrumar para ele um livro de travesseiro, como uma noiva virgem, hem?

— Melhor matá-lo e incendiar a colônia.

— Seja paciente. Ainda faremos isso. Há bastante tempo.

— Ele é um alvo perfeito e é mais uma oportunidade perfeita — insistiu Ori, uma certa rispidez se insinuando em sua voz.

Hiraga observou-o, toda a sua satisfação desaparecendo no mesmo instante.

— Tem toda razão, mas não agora. Ele é importante demais.

— Você mesmo disse que se os enfurecêssemos bastante, eles bombardeariam Iedo, o que seria maravilhoso para a nossa causa.

— É verdade, mas tempos tempo. — Hiraga não deixava transparecer sua preocupação, pois queria apaziguá-lo, vê-lo sob controle. — Taira vem respondendo a todas as minhas perguntas. Por exemplo, ninguém nos contou que os gai-jin lutam entre si como cães selvagens, ainda pior que os daimios antes de Toranaga... os holandeses esconderam isso de nós, não é?

— São todos mentirosos e bárbaros.

— Sei disso, mas deve haver centenas de informações assim, que vão nos indicar a maneira como teremos de enfrentá-los... e dominá-los. Precisamos aprender tudo, Ori, e depois, quando integrarmos o novo Bakufu, lançaremos os alemães contra os russos, contra os franceses, contra os ingleses, contra os americanos...

Hiraga estremeceu, ao recordar o pouco que Tyrer lhe dissera sobre a tal guerra civil, as batalhas e baixas, todas as armas modernas, com centenas de milhares de homens armados em combate, e a inacreditável vastidão das terras dos gai-jin.

— Esta noite ele disse que a marinha inglesa domina os oceanos do mundo e pela lei deles é duas vezes maior que as duas marinhas seguintes juntas, com centenas de navios de guerra, milhares de canhões.

— Mentiras. Exageros para assustá-lo. Ele e todos os outros querem nos intimidar... e ele também quer os nossos segredos!

— Só dou a ele o que acho que deve saber — protestou Hiraga, irritado. — Ori temos de aprender tudo o que pudermos sobre eles! Esses cães conquistaram a maior parte do mundo... humilharam a China, incendiaram Pequim, e este ano os franceses se tornaram senhores da Cochinchina e vão colonizar o Camboja.

— É verdade, mas os franceses jogaram príncipes nativos contra o príncipes nativos, como os britânicos na índia. Mas aqui é o Japão. Somos diferentes... esta é a terra dos deuses. Jamais, nem mesmo com todos os canhões do mundo, eles serão capazes de nos conquistar!

O rosto de Ori contorceu-se de um jeito estranho, e ele acrescentou:

— Podem até seduzir alguns daimios para o seu lado, mas o resto do povo japonês haverá de massacrá-los.

— Não sem canhões e conhecimentos.

— Sem canhões, sim, Hiraga-san!

Hiraga deu de ombros e serviu saquê para ambos. Havia muitos shishi que partilhavam o fervor de Ori... e esqueciam Sun-tzu: Conheça seu inimigo como conhece a si mesmo, e ganhará cem batalhas.

— Torço para que você esteja certo. Enquanto isso, porém, descobrirei o máximo que puder. Ele me prometeu que amanhã vai mostrar um mapa do mundo... chamou-o de “atlas”.

— Como sabe que não será falso, inventado?

— Não é provável, eles não iriam falsificar um só para me mostrar. Talvez eu consiga até arrumar uma cópia, podíamos mandar traduzir... e também alguns de seus livros escolares. — O excitamento de Hiraga era cada vez maior. — Taira disse ainda que eles têm novas habilidades na arte das contas, ensinadas nas escolas, e medidores de astronomia chamados lon-gi-tude e la-ti-tude... — Ele pronunciou as palavras em inglês com dificuldade. —... que de alguma forma os guiam com fantástica precisão nos oceanos, a mil ri da terra. Baka que eu saiba tão pouco! Baka que eu não possa ler inglês!

— Mas vai aprender — declarou Ori. — Eu nunca saberei. Você será parte do nosso novo governo... eu nunca serei.

— Por que diz isso?

— Idolatro Sonno-joi. Já pensei no meu poema da morte e o falei... para Shorin, na noite do ataque. Baka que ele tenha morrido tão cedo.

Ori esvaziou seu copo, despejou as últimas gotas e pediu outra garrafa. Tornou a fitar Hiraga, os olhos contraídos.

— Ouvi dizer que lorde Ogama prometeu perdoar qualquer shishi de Choshu que renunciar publicamente a Sonno-joi.

Hiraga confirmou com um aceno de cabeça.