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Sem perturbar as pessoas que ali estavam, Raiko atravessou aquele jardim até o outro lado. Passou por um portão para outro jardim, deu a volta até os fundos, pulou uma estrutura baixa, de tijolos, à prova de fogo, que servia para guardar mercadorias valiosas, e se encaminhou para os tanques d’água, que eram enchidos em parte pela chuva, em parte por linhas de cules carregando baldes todos os dias. Ofegante, Raiko apontou a tampa de madeira de um dos poços.

— Acho... acho que é ali.

Hiraga empurrou a tampa para o lado. Havia toscas barras de ferro, enferrujadas, fincadas na parede de alvenaria, para servir de apoio aos pés e mãos, e nenhum sinal de água lá embaixo. Ainda apavorada, ela sussurrou:

— Disseram-me que leva a um túnel... não tenho certeza, mas pelo que me lembro, passa por baixo do canal. Não sei onde vai dar... esqueci por completo. E agora preciso voltar.

— Espere!

Ori postou-se na frente dela, depois pegou uma pedra, largou-a no poço. Ouviram o barulho distante de água.

— Quem fez isto?

— O Bakufu, pelo que me contaram, quando construíram a colônia.

— Quem a informou a respeito?

— Um dos criados... esqueci seu nome, mas ele os viu...

Todos olharam na direção da rua principal. Vozes iradas soavam ali.

— Tenho de voltar...

Raiko desapareceu pelo caminho por que viera. Apreensivos, os dois olharam para o fundo do poço.

— Se o Bakufu o construiu, Ori, pode ser uma armadilha, para pessoas como nós.

De uma das casas próximas, veio o som de vozes, gritando em inglês:

— Mas o que vocês querem aqui?

— Caiam fora!

Ori enfiou a espada comprida no cinto. Meio sem jeito, por causa do ombro, ele passou por cima da tampa e começou a descer. Hiraga seguiu-o, repondo a tampa no lugar. A escuridão era intensa, e depois de algum tempo os pés de Ori tornaram a pousar em chão firme.

— Tome cuidado. Acho que é uma saliência.

Sua voz soou abafada, com um estranho eco. Hiraga desceu tateando, foi se postar ao seu lado. Tirou alguns fósforos do bolso na manga, riscou um deles.

— Puxa, onde foi que você conseguiu isso? — indagou Ori, excitado.

— São encontrados por toda parte na legação... aqueles cães são tão ricos que os deixam espalhados. Taira disse que eu podia me servir à vontade. Olhe ali!

À última claridade do fósforo, eles divisaram a entrada do túnel. Estava seca, tinha a altura de um homem. A água enchia o poço, três metros abaixo. Havia uma vela antiga num nicho. Hiraga precisou gastar três fósforos para acendê-la.

— Vamos embora.

O túnel descia. Depois de cinqüenta passos, tornou-se úmido, com poças em alguns pontos, inundado em outros trechos. Uma água fétida vazava pelo teto e lados escorados de maneira tosca, a madeira apodrecida, insegura. À medida que foram avançando, o ar tornou-se mais desagradável, a respiração mais difícil.

— Podemos esperar aqui, Ori.

— Não. Vamos continuar.

Estavam suando, em parte por medo, em parte por causa do ar abafado. A chama tremeu, apagou. Praguejando, Hiraga tornou a acender, protegendo com a mão; não restava muito do pavio, nem da vela. Ele seguiu em frente, o nível da água subindo. O túnel continuava a descer, a água agora alcançava seus quadris. Ori escorregou, mas conseguiu recuperar o equilíbrio. Mais vinte ou trinta passos. A água continuava a subir. Chegou à cintura, o teto não muito acima de suas cabeças. E seguiram em frente. A vela diminuindo. Hiraga observava-a, praguejando.

— É melhor voltar e esperar na parte seca.

— Não. Vamos continuar até a vela apagar.

À frente, o túnel se projetava pela escuridão, o teto e a água quase se encontrando. Nauseado, Hiraga foi em frente, tomando cuidado com o fundo escorregadio. Mais passos. O teto quase se comprimia contra sua cabeça. Mais Passos e agora o teto subiu um pouco.

— O nível da água está baixando — murmurou ele, trêmulo de alívio. Passou a andar mais depressa, revolvendo a lama malcheirosa. Uma curva no túnel, o teto mais alto agora. E foram em frente. Pouco antes de a vela se extinguir por completo, avistaram terra seca e o final do túnel, um poço que subia e descia. Hiraga tateou pelo caminho, incapaz de ver qualquer coisa.

— Estou na beira agora, Ori. Preste atenção, pois vou jogar uma pedra.

A pedra demorou segundos e mais segundos, antes de ricochetear e bater no fundo.

— Deve ser uma queda de trinta metros ou mais — murmurou ele, sentindo um frio no estômago.

— Acenda outro fósforo.

— Só me restam três.

Hiraga acendeu um. Viram degraus de ferro, precários, enferrujados, subindo nada mais.

— Como teve certeza de que Raiko sabia disto?

— Foi uma idéia súbita. Tinha de haver um túnel... eu o teria construído, se estivesse no lugar deles. — A voz de Ori era rouca, a respiração pesada. — Podem estar esperando lá em cima, em emboscada. Vão nos empurrar de volta ou teremos de pular.

— É possível.

— Vamos subir logo. Detesto continuar aqui.

Também contrafeito, Hiraga ajeitou a espada comprida no cinto. Ori recuou, nervoso, a mão no cabo da espada. Abruptamente, os dois se fitaram, talvez perto da segurança, mas nada resolvido entre eles.

A chama do fósforo tremeu e apagou.

Na escuridão, não mais viam um ao outro. Sem pensar, ambos recuaram para as paredes do túnel, longe da beira. Hiraga, mais astuto no combate, abaixou-se, apoiado num joelho, a mão no cabo da espada, pronto para desferir um golpe nas pernas de Ori, se ele atacasse, os ouvidos aguçados, à espera do som de uma lâmina deixando a bainha.

— Hiraga! — A voz de Ori ressoou na escuridão, áspera, fora de alcance, distanciando-se pelo túnel. — Quero a mulher morta e irei em seu encalço... por Sonno-joi e por mim. Você quer ficar. Resolva o problema.

Hiraga levantou-se, em silêncio.

— Resolva você — disse ele, mudando de posição, sem fazer qualquer barulho.

— Não posso. Já tentei, mas não consigo encontrar uma solução.

Hiraga hesitou, esperando um truque.

— Primeiro, ponha suas espadas no chão.

— E depois?

— Como ela o obceca acima de Sonno-joi, não ficará armado perto de mim em Iocoama. Partirá para Quioto amanhã e contará tudo a Katsumata, que é o seu líder Satsuma. Quando você voltar, faremos tudo o que disse.