— E se eu não voltar?
— Então eu farei sozinho... no momento que julgar mais oportuno.
A voz de Ori tornou-se ainda mais áspera:
— Mas ela pode escapar, neh? E se ela for embora antes do meu retorno?
— Ficarei atento a qualquer notícia de uma viagem e lhe mandarei um aviso. Se você não puder chegar aqui a tempo, eu decidirei. Ela... e seu marido, se até lá estiverem casados... só irão até Hong Kong. Você... ou nós... podemos segui-los até lá.
Ele ouvia a respiração pesada de Ori e esperou, em guarda contra um súbito ataque, sabendo que não podia confiar no outro enquanto a mulher estivesse viva e próxima, mas aquele parecia ser o melhor plano no momento. Matá-lo seria um desperdício, refletiu Hiraga. Preciso de sua sabedoria.
— Você concorda?
Ele esperou. E esperou. Depois:
— Concordo. O que mais?
— Por último: a cruz, você vai jogá-la no poço.
Hiraga ouviu Ori aspirar fundo, em raiva. O silêncio foi se tornando mais e mais opressivo.
— Concordo, Hiraga-san. Por favor, aceite minhas desculpas.
No instante seguinte, os ouvidos aguçados de Hiraga captaram o leve ruído de pano sendo mexido, alguma coisa passou por ele, o retinir de metal batendo na parede do poço, a cruz despencando para o abismo. O som de espadas largadas no chão.
Hiraga acendeu um fósforo. Ori se encontrava de pé, indefeso agora. No mesmo instante, Hiraga se adiantou correndo. Ori recuou, em pânico, mas Hiraga apenas recolheu as espadas. Antes que o fósforo apagasse, ele teve tempo de jogar também as espadas no poço.
— Por favor, Ori, obedeça-me. Assim, nada terá a temer. Subirei primeiro. Espere até eu chamá-lo.
Os degraus estavam cobertos de ferrugem, alguns meio soltos. Era uma subida precária. Depois, lá em cima, Hiraga divisou, agradecido, a boca do poço, aberta para o céu, as estrelas cintilando entre as nuvens. Sons noturnos, o vento e o mar. Ele continuou a subir, com mais cautela ainda. Precisou de toda a sua força para se erguer acima da balaustrada de pedra e espiar ao redor.
O poço abandonado ficava perto da cerca do canal, numa terra de ninguém, ocupada por mato e juncos. A praia não era longe. Casas em ruínas, enormes buracos nos caminhos de terra. O rosnado de um cachorro à procura de comida nas proximidades. Vozes roucas cantando ao vento. Agora Hiraga sabia onde haviam saído. Na cidade dos bêbados.
22
Sexta-feira, 17 de outubro:
Na claridade da manhã, no castelo de Iedo, Misamoto — O pescador, falso samurai e espião de Yoshi — postava-se de joelhos, tremendo todo, na frente do alarmado Conselho de Anciãos, a versão inglesa da resposta de Sir William balançando em sua mão. Ao seu lado, apavorado, um funcionário do Bakufu.
— Fale, pescador! — repetiu Anjo, o ancião-chefe, a sala de audiência opressiva, tensa e gelada. — Não importa se não compreende todas as palavras em inglês. Queremos saber se o funcionário do Bakufu traduziu a mensagem com toda precisão. É isso exatamente o que a diz a mensagem dos gai-jinl
— É, sim... isto é, mais ou menos, Sire — balbuciou Misamoto, tão assustado que mal conseguia falar. — É como disse o honrado representante do Bakufu... mais ou menos, Sire... mais... ou...
— Tem alga marinha no lugar da língua e vísceras de peixe em vez de cérebro? Depressa! Lorde Toranaga diz que pode ler inglês... pois leia!
Uma hora antes, Anjo fora acordado pelo nervoso funcionário do Bakufu que trouxera a mensagem de Sir William, em inglês e holandês. Anjo convocara às pressas uma reunião do conselho, na qual o funcionário acabara de repetir sua tradução do holandês.
— O que diz o papel em inglês?
— Bom, Sire, é... num...
Outra vez a voz de Misamoto sumiu, sufocada pelo pânico. Exasperado, Anjo olhou para Yoshi.
— Esse cabeça de peixe é seu espião — disse ele, com a frieza na medida certa. — Foi idéia sua chamá-lo. Por favor, faça com que ele fale.
— Diga-nos o que está na mensagem, Misamoto — pediu Yoshi, a voz gelada, embora por dentro estivesse quase cego de frustração e raiva. — Ninguém vai lhe fazer mal. Diga com suas próprias palavras. A verdade.
— Bem, Sire, é mais ou menos... mais ou menos o que o nobre funcionário disse Sire... mas esta carta... não conheço todas as palavras, Sire... mas... mas...
Seu rosto se contraiu em medo. Yoshi esperou por um momento.
— Continue, Misamoto. Não tenha medo. Fale a verdade, qualquer que seja.
Ninguém vai tocar em você. Precisamos conhecer a verdade.
— Bem, Sire, o líder gai-jin... diz que vai para Osaca dentro de onze dias, como explicou o nobre funcionário, mas não para fazer uma “visita cerimonial”...
O pescador estremeceu sob o impacto de todos os olhares, tão apavorado que agora seu nariz corria, a saliva pingava do queixo, e depois acrescentou, falando muito depressa:
— Ele não está nada feliz, na verdade está bastante furioso e vai... vai a Osaca com sua esquadra, entrando em Quioto com toda a sua força, canhões de sessenta libras, cavalaria, soldados, para falar com o filho do céu e o lorde xógum... até deu seus nomes, Sire, imperador Komei e o menino Xógum, Nobusada.
Todos ficaram boquiabertos, até mesmo os guardas... normalmente impassíveis e que não deveriam escutar. Misamoto baixou a cabeça para o tatame e manteve-a assim. Yoshi apontou para o funcionário do Bakufu, que empalideceu por toda a atenção focalizada nele.
— Isso é correto?
— Visita cerimonial, Sire? Para seus augustos ouvidos, essa deve ser a tradução correta... o palavreado bárbaro é grosseiro e agressivo e deve ser interpretado, acredito com toda sinceridade, como uma visita cerimonial, uma...
— A mensagem fala em “canhões e cavalaria”, essas coisas?
— Em princípio, Sire, a men...
Para espanto de todos, Yoshi quase gritou:
— Sim ou não?
O funcionário engoliu em seco, consternado com a ordem para responder de forma tão direta, o que acontecia pela primeira vez em sua vida, desolado por estar sendo contestado devido à ignorância das regras e costumes elementares da diplomacia.
— Lamento informar que, em princípio, menciona essas coisas, mas tal impertinência é, sem dúvida, um equívoco e...