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— Por que não traduziu com precisão?

— Para seus augustos ouvidos, Sire, é necessário interpretar...

— Essas pessoas augustas são nomeadas? Sim ou não?

— Seus nomes constam da mensagem, mas deve...

— Tais pessoas são indicadas por seus nomes corretos?

— Ao que me parece, Sire, os nomes devem ser inter...

— Escreva imediatamente uma tradução exata da mensagem!— As palavras firmes foram pronunciadas com suavidade, mas a veemência ricocheteou pelas paredes de pedra sem adornos. — Exata! E quero que todas as comunicações vindas deles ou para eles também sejam exatas. EXATAS! Um erro e sua cabeça vai rolar para o lixo! E agora saia! Misamoto, fez um bom trabalho. Espere lá fora, por favor.

Os dois homens se retiraram apressados, Misamoto praguejando contra seu infortúnio e o dia em que concordara em acompanhar Perry ao Japão, pensando que o Bakufu o receberia com todas as honras por seus conhecimentos excepcionais e lhe daria muito dinheiro... e o funcionário do Bakufu jurando vingança contra Yoshi e aquele pescador mentiroso, antes que o conselho tomasse a decisão por ele, um servidor sábio e correto, não poderia evitar.

Yoshi rompeu o silêncio, a mente trabalhando freneticamente para definir o movimento seguinte no incessante conflito.

— Não podemos permitir uma visita armada a Quioto! Isso prova o que venho dizendo há muito tempo: devemos contar com o apoio de homens que falem inglês e tradutores nos quais possamos confiar... e que nos informarão com precisão o que dizem suas torpes mensagens!

— Isso não é necessário — disse Toyama, a papada tremendo de fúria. — Essa impertinência gai-jin é insultuosa além da imaginação, equivale a uma declaração de guerra. Tamanha impertinência deve ser respondida com sangue.

Os guardas se agitaram, enquanto ele acrescentava:

— É uma declaração de guerra. Muito bem. Dentro de três ou quatro dias, comandarei o ataque de surpresa contra a colônia e acabarei com esse absurdo de uma vez por todas.

— Isso seria baka. Não podemos. Baka! — Anjo repetiu mais para os guardas do que para os outros, pois era muito fácil que um deles fosse um admirador secreto dos shishi, um partidário de sonno-joi. — Quantas vezes devo dizer que não podemos atacar ainda, nem mesmo um ataque de surpresa?

Toyama ficou ainda mais furioso.

— Yoshi-san — disse ele —, podemos esmagá-los e incendiar Iocoama, neh? Podemos, neh? Não posso suportar a vergonha! É demais!

— Tem razão, claro que podemos destruir Iocoama, com facilidade, mas Anjo-dono também está correto... não podemos atingir a esquadra. Sugiro que continuemos como antes... — Yoshi falava com uma serenidade que não sentia. — ... fornecendo-lhes sopa aguada, e sem peixe: ofereceremos uma reunião com o Conselho de Anciãos dentro de trinta dias, permitiremos que esse prazo seja reduzido nas negociações para oito dias e o protelamos pelo máximo possível.

— Só me encontrarei com aqueles cães no campo de batalha.

Yoshi conteve sua irritação.

— Tenho certeza que fará o que for decidido pelo roju, mas proponho que seja representado nessa reunião por um impostor... Misamoto.

— Hem?

Todos o fitaram, surpresos.

— Ele será um perfeito substituto.

Anjo interveio:

— Esse estúpido pescador nunca será...

— Vestido com roupas cerimoniais, que aprenderá a usar, em oito dias, tempo mais do que suficiente. Ele parece com um samurai agora, embora não aja como tal. Por sorte, não é estúpido, e se sente tão assustado que fará tudo o que ordenarmos. Mais importante ainda, ele nos dirá depois a verdade, que anda escassa por aqui.

Yoshi viu Anjo ficar vermelho. Os outros fingiram não perceber.

— E que mais, Yoshi-san?

— Realizaremos a reunião aqui no castelo.

— Inadmissível! — gritou Anjo.

— Claro que primeiro vamos propor Kanagawa — explicou-lhe Yoshi, exasperado — e depois nos permitiremos concordar em recebê-los aqui.

— Inadmissível! — insistiu Anjo, com a concordância dos outros.

— Com o castelo como isca, podemos protelar de novo, talvez até por mais um mês... a curiosidade deles vai prevalecer... e ao final só permitimos o acesso a uma área externa. Por que não o castelo? Todos os líderes gai-jin, por sua livre e espontânea vontade, ao nosso alcance? Podemos tomá-los como reféns, sua presença aqui nos dá uma dúzia de possibilidades de envolvê-los ainda mais.

Todos o fitaram, aturdidos.

— Tomá-los como reféns?

— Uma possibilidade, entre muitas — explicou Yoshi, paciente, sabendo que precisava de aliados na luta iminente.— Devemos usar astúcia e cordões de seda, a própria fraqueza dos gai-jin contra eles, não a guerra... até que possamos igualar com suas frotas.

— E até lá? — indagou Adachi. O homenzinho rotundo era o mais rico de todos e sua linhagem Toranaga comparável à de Yoshi. — Acredita realmente que devemos negociar com esses cães até termos esquadras equivalentes às deles?

— Ou canhões bastante grandes para mantê-los à distância de nossas praias. Só precisamos de um ou dois sacos de ouro para que eles se atropelem no empenho de nos vender os meios com que os expulsaremos de nossas águas. — Yoshi fez uma pausa, a expressão se tornando sombria. — Ouvi o rumor de que alguns emissários de Choshu já estão tentando comprar fuzis dos gai-jin.

— Aqueles cães! — exclamou Toyama, furioso. — Sempre Choshu. Quanto mais cedo os esmagarmos, melhor.

— E Satsuma também — murmurou Anjo, com a concordância geral. Ele olhou para Yoshi, antes de acrescentar: — E os outros!

Yoshi fingiu não compreender a insinuação de seu adversário. Não importa, pensou ele, o dia está chegando.

— Podemos lidar com todos os inimigos, um de cada vez... não juntos. Toyama declarou, em tom ríspido:

— Voto para ordenarmos a todos os daimios amigos que aumentem os impostos e tratem de se armar. Eu começarei amanhã.

— “Aconselhar” é uma palavra melhor — interveio Adachi, cauteloso, e esvaziou sua xícara de chá. Flores delicadas ornamentavam as bandejas laqueadas postas diante de todos. Ele reprimiu um bocejo, entediado, ansioso em voltar para a cama. — Por favor, Yoshi-dono, continue a apresentar seu plano. Se não conhecermos todos os detalhes, como poderemos votá-lo?