— Na manhã da reunião, Anjo-sama cairá doente, infelizmente, sentimos muito. Como nem todos os roju estarão presentes, não poderemos tomar decisões definitivas, mas escutaremos tudo, e tentaremos chegar a um acordo. Se não for possível, então concordaremos, com a deferência apropriada, em “apresentar seu desejos ao conselho pleno, assim que possível”... e continuaremos a protelar, até deixá-los tão furiosos que eles é que cometerão um erro, e não nós.
— Por que eles haveriam de concordar com outro adiamento? — perguntou Anjo, contente porque não teria um confronto pessoal com os gai-jin, mas desconfiando de Yoshi, e especulando qual seria a manobra escusa.
— Os cães já provaram que preferem conversar a lutar, são covardes — disse Yoshi. — Embora pudessem nos dominar com facilidade, é evidente que não têm coragem suficiente para isso.
— E se eles não concordarem, e esse insolente macaco inglês cumprir sua ameaça, e partir para Quioto? O que faremos então? Não podemos permitir isso, em quaisquer circunstâncias!
— Concordo — disse Yoshi, decidido, e todos ficaram tensos. — Isso significa guerra... uma guerra que acabaremos perdendo.
Toyama protestou no mesmo instante:
— É melhor guerrearmos como homens do que nos tornarmos escravos, como os chineses, indianos e todas as outras tribos de bárbaros! — O velho examinou Yoshi. — Se eles desembarcarem, você votará pela guerra?
— Mas claro que sim! Qualquer tentativa de desembarcar à força... em qualquer lugar... será enfrentada.
— Ainda bem — disse Toyama, satisfeito.— Neste caso, torço para que eles tentem desembarcar.
— A guerra seria ruim. Creio que eles vão preferir conversar e podemos manobrá-los para que desistam dessa loucura. — A voz de Yoshi tornou-se mais áspera. — E será possível, se formos bastante espertos. Enquanto isso, devemos nos concentrar em questões mais importantes... como Quioto, e recuperar o controle dos portões, como os daimios hostis, como obter ouro suficiente para comprar armas, modernizar e equipar nossas forças... e as forças de nosso aliados de confiança... e não permitir que Choshu, Tosa e Satsuma se armem sob o pretexto de nos apoiarem, mas com a intenção secreta de nos atacarem.
— O traidor Ogama deve ser proscrito — declarou Toyama. — Por que não o condenamos publicamente e retomamos os portões?
— Atacá-lo agora seria baka! — respondeu Anjo, irritado. — Serviria apenas para empurrar Satsuma e Tosa para seus braços, assim como outros que se mantém em cima da cerca.
Ele mudou de posição, desconfortável, o estômago doendo, a cabeça doendo, sem encontrar alívio com o novo médico chinês que consultara em segredo.
— Vamos combinar o seguinte: Yoshi-dono, por favor, prepare uma resposta aos gai-jin, a ser aprovada na reunião de amanhã.
— Certo. Mas o que eu quero saber agora é quem está lhes revelando nossos segredos. Quem é o espião dos gai-jin? É a primeira vez que eles mencionam o “jovem” xógum e dão o seu nome, assim como o do imperador. Alguém está nos traindo.
— Vamos empenhar todos os nossos espiões para descobrir isso! Otimo! Voltaremos a nos reunir amanhã de manhã como sempre, analisaremos o esboço da resposta e decidiremos quanto ao seu plano.— Os olhos de Anjo se estreitaram. — E cuidaremos dos preparativos finais da partida do xógum Nobusada para Quioto.
O sangue se esvaiu do rosto de Yoshi.
— Já discutimos isso uma dúzia de vezes. Em nossa última re...
— A visita será realizada! Ele viajará pela estrada do norte, em vez da Tokaidô. Será mais seguro.
— Como guardião, eu me oponho à visita, pelas razões já enunciadas várias vezes... por qualquer estrada!
Toyama interveio:
— É melhor para meu filho ficar em Quioto. Estaremos em guerra muito em breve. Nossos guerreiros não poderão ser contidos por muito mais tempo.
— Não haverá guerra nem visita! — insistiu Yoshi, furioso. — Qualquer das duas coisas nos destruirá. No momento em que um xógum demonstrar submissão, como Nobusada pretende fazer, nossa posição estará arruinada para sempre. O legado declara...
Anjo interrompeu-o:
— O legado não pode prevalecer neste caso.
— O legado Toranaga é nossa única âncora e não podemos...
— Não concordo!
Quase sufocando de raiva, Yoshi fez menção de se levantar, mas foi detido pelas palavras seguintes de Anjo:
— Há uma última questão a decidir hoje: a designação imediata do novo ancião, o substituto de Utani.
Surgiu uma tensão intensa no conselho. Desde o assassinato de Utani, assim como pela maneira de sua morte — o quarto em que ele e o rapaz haviam sido ernpalados não fora completamente destruído pelas chamas — e o fracasso das legiões de espiões e soldados em capturar os assassinos, todos os anciãos dormiam com profunda apreensão. Anjo, em particular, ainda se afligia por seu quase assassinato. Exceto por Yoshi, que de vez em quando recebia o apoio de Utani, Nenhum dos outros lamentava sua morte ou como ocorrera, Anjo ainda menos, porque ficara chocado ao descobrir a identidade do amante e passara a abominar Utani ainda mais, pelo roubo em segredo de seu prazer ocasional.
— Vamos votar agora.
— Uma questão de tamanha importância deve esperar até amanhã.
— Sinto muito, Yoshi-sama, mas este é o momento perfeito.
Adachi acenou com a cabeça.
— A menos que o conselho esteja completo, não podemos tomar decisões importantes. Quem você propõe?
— Faço a indicação formal de Zukumura de Gai.
Apesar de seu controle, Yoshi não pôde reprimir uma exclamação de espanto, já que o daimio era um simplório, parente e aliado ostensivo de Anjo.
— Já manifestei minha desaprovação a ele... uma dúzia melhores — declarou Yoshi. — E concordamos com Gen Taira.
— Eu não concordei. — Anjo sorriu apenas com um movimento da boca — Só disse que o consideraria com o devido cuidado. Foi o que fiz e concluí que Zukumura é uma escolha melhor. Agora, vamos votar.
— Não creio que uma votação neste momento seja sensata ou acon...
— Vamos votar! Como conselheiro-chefe, é meu direito submeter qualquer questão à votação! E digo que temos de votar agora!
— Eu voto não! — disse Yoshi, lançando um olhar furioso para os outros dois.
Adachi desviou os olhos, e murmurou:
— Gai tem sido aliado de Muto desde Sekigahara. Sim. Toyama deu de ombros.