— O que vocês quiserem.
Yoshi golpeou violentamente seus dois oponentes com a espada de madeira, o suor escorrendo pelo rosto, recuou, girou, atacou de novo. Os dois homens, hábeis espadachins, desviaram-se para o lado e desfecharam seu próprio ataque, sob a ordem de saírem vitoriosos, o fracasso lhes custando um mês de confinamento nos alojamentos e três meses de pagamento.
Com a maior astúcia, um dos homens fez uma finta, a fim de proporcionar uma abertura ao outro, mas Yoshi se encontrava preparado, esquivou-se sob o golpe e acertou o homem no peito, a espada quebrando com a força do golpe — se a lâmina fosse de verdade, teria quase cortado o homem em dois — e assim eliminando-o da disputa.
No mesmo instante, o outro se adiantou, confiante, para o golpe final, mas Yoshi já não se postava mais no lugar onde deveria estar, abaixando-se quase até o chão e desferindo um golpe de karatê com o pé. O atacante gemeu em agonia quando o lado do pé de Yoshi, duro como ferro, atingiu-o no escroto, fazendo-cair ao chão a se contorcer de dor. Ainda dominado pela raiva, a adrenalina fluindo —Yoshi saltou para o homem caído, erguendo a espada partida, que seria cravada no pescoço do oponente, para o golpe mortal. Mas ele deteve o golpe a uma fração do pescoço, o coração batendo forte, extasiado com sua habilidade e controle, por não ter falhado desta vez, a vitória nada significando. Sua fúria acumulada se dissipou.
Contente agora, ele jogou para o lado a espada de madeira quebrada e começou a relaxar, a sala de exercício despojada, como o resto do castelo. Todos se recuperavam do esforço intenso, o homem no chão ainda se contorcia em dor. Foi nesse instante que Yoshi se surpreendeu ao ouvir palmas suaves. Virou-se, furioso — por seu costume, ninguém jamais era convidado a testemunhar aqueles exercícios, nos quais se podia avaliar a extensão de suas proezas, determinar suas fraquezas e medir sua brutalidade —, mas a raiva também se desvaneceu.
— Hosaki! Quando você chegou? — disse ele, tentando recuperar o fôlego. — Por que não enviou um mensageiro para me avisar de sua vinda?
Yoshi fez uma pausa, o sorriso sumindo.
— Problemas?
— Não, Sire — respondeu a esposa, feliz, ajoelhando-se ao lado da porta. — Nenhum problema, apenas uma abundância de prazer por vê-lo de novo.
Ela fez uma reverência profunda, a saia e o blusão de montaria de seda verde, trajes modestos e marcados por muitas viagens, assim como o sobremanto acolchoado, também verde, o chapéu largo, amarrado sob o queixo, e a espada curta na obi.
— Por favor, desculpe-me por aparecer assim, sem ser convidada e sem trocar de roupa antes, mas não podia esperar para vê-lo... e agora me sinto ainda mais satisfeita, por saber que é um espadachim melhor do que nunca.
Ele fingiu não estar deliciado, adiantou-se, fitou-a nos olhos, inquisitivo.
— Realmente nenhum problema?
— Nenhum, Sire.
Ela estava radiante, com uma adoração ostensiva. Dentes brancos, olhos escuros, num rosto clássico, que não era atraente nem comum, mas não seria esquecido, toda a sua presença irradiando extrema dignidade. Nove anos antes, quando Yoshi tinha dezessete anos, o pai lhe dissera:
— Yoshi, escolhi uma esposa para você. Sua linhagem é Toranaga, como a nossa, embora do ramo menor de Mitowara. Ela se chama Hosaki, significando uma “espiga de trigo”, na língua antiga, um presságio de abundânciae fertilidade, e também “ponta de lança”. Não creio que ela venha a lhe falhar em qualquer das duas capacidades...
E não falhara mesmo, pensou Yoshi, orgulhoso. Já tinham dois lindos filhos e uma filha, e ela ainda é forte, sempre sábia, uma competente administradora de nossas finanças, e, o que é raro numa esposa, bastante agradável na cama, embora sem o fogo da minha consorte ou parceiras de prazer, Koiko em particular.
Ele aceitou uma toalha seca do oponente que saíra ileso e acenou com a mão para dispensá-los. O homem fez uma reverência, em silêncio, ajudou o outro a se levantar, e os dois saíram.
Yoshi ajoelhou-se perto da esposa, enxugando o suor.
— E então?
— Não é seguro aqui, neh? — sussurrou ela.
— Nenhum lugar é seguro.
— Primeiro — acrescentou Hosaki, em voz normal —, primeiro, Yoshi-chan, vamos cuidar de seu corpo: um banho, uma massagem e, depois, conversaremos.
— Boa idéia. Há muito que conversar.
— Há, sim. — Sorrindo, ela se levantou e, em resposta a seu olhar inquisitivo tomou a tranquilizá-lo: — Está tudo bem no Dente do Dragão, seus filhos com plena saúde, sua consorte e o filho dela felizes, seus capitães e servidores atentos e bem armados... tudo como você haveria de querer. Apenas decidi fazer uma visita, num súbito capricho... só para vê-lo e conversar sobre a administração do castelo.
E também por querer ir para a cama com você, meu belo, pensou Hosaki e seu coração secreto, contemplando-o, as narinas absorvendo seu cheiro masculino consciente de sua proximidade, e ansiando, como sempre, por sua força.
Enquanto se encontra longe, Yoshi-chan, posso me manter calma, na maior parte do tempo, mas perto de você... Torna-se então muito difícil, embora eu finja — e como finjo! —, não consigo esconder o ciúme das outras e me comportar como uma esposa perfeita. Mas isso não significa que eu, como todas as esposas não sinta um ciúme violento, às vezes no nível da loucura, desejando matar ou ainda melhor, mutilar as outras, querendo ser desejada e levada para a cama com uma paixão igual.
— Passou muito tempo ausente, marido — murmurou ela, gentilmente, querendo que Yoshi a possuísse agora, no chão, impetuoso, como imaginava que os jovens camponeses faziam.
Era quase meio-dia e um vento suave varria o céu. Estavam no santuário mais íntimo de Yoshi, um conjunto de três aposentos, com tatames, e um banheiro, junto de uma ameia no canto. Hosaki servia-lhe chá, com a elegância de sempre. Desde criança que estudara a cerimônia do chá, assim como Yoshi, mas agora ela se tomara uma sensei, uma mestra do chá. Ambos haviam se banhado e sido massageados. As portas se achavam trancadas, os guardas de vigia, as criadas dispensadas. Yoshi usava um quimono engomado, ela um quimono largo, de dormir, os cabelos soltos.
— Depois de nossa conversa, acho que vou descansar. Assim, estarei com a cabeça desanuviada para esta noite.
— Montou durante todo o percurso?
— Isso mesmo, Sire.
A viagem fora bastante árdua, com pouco sono, troca de cavalos a cada três ri, cerca de quinze quilômetros.
— Quanto tempo levou?
— Dois dias e meio. Trouxe apenas vinte servidores, sob o comando do capitão Ishimoto.— Hosaki riu. — Eu precisava mesmo da massagem e do banho. Mas, primeiro...
— Quase dez ri por dia? Por que a marcha forçada?
— Em grande parte para o meu prazer — respondeu ela, jovial, sabendo que havia tempo suficiente para as más notícias. — Mas, primeiro, Yoshi-chan, para o seu prazer.