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— Obrigado.

Yoshi tomou o chá verde fino da xícara ming, largou-a ao terminar, observando e esperando, impressionado com o controle e tranquilidade da esposa. Após ervir de novo, tomar um gole de seu chá, ela também largou a xícara e disse suavemente:

— Decidi vir até aqui sem demora porque ouvi rumores inquietantes e precisava tranquilizar a mim mesma e a seus capitães de que você estava bem... rumores de que você corria perigo, que Anjo mobilizava o conselho contra você, que o atentado dos shishi contra ele e o assassinato de Utani eram parte de uma grande escalada de Sonno-joi, que a guerra é iminente, partindo de dentro e de fora, e que Anjo continua a trair, a você e a todo o xogunato. Ele deve estar insano para permitir que o xógum e sua esposa imperial viajem para Quioto, numa demonstração de submissão.

— Tudo isso é verdade ou verdade parcial — respondeu Yoshi, com igual serenidade, deixando a esposa angustiada. — As más notícias viajam com as asas do falcão, Hosaki, neh? Tudo é pior por causa dos gai-jin.

Ele relatou seu encontro com os estrangeiros, falou sobre Misamoto, o espião, e contou com mais detalhes as intrigas no castelo... mas não sobre a suspeita da ligação de Koiko com os shishi. Hosaki jamais compreenderia como ela é excitante e essa informação a torna ainda mais excitante, pensou Yoshi. Minha esposa aconselharia o imediato afastamento de Koiko, a investigação e punição, não me dando sossego enquanto isso não fosse feito. Ele concluiu com a presença da esquadra estrangeira às suas portas, a mensagem e a ameaça de Sir William e a reunião daquele dia.

— Zukumura? Um ancião? Aquele cabeça de peixe senil? Um dos seus filhos não casou com uma sobrinha de Anjo? O velho Toyama não votou por ele, não é mesmo?

— Toyama limitou-se a dar de ombros e disse: “Ele ou outro, nada significa, entraremos em guerra em breve. Tenham quem quiserem.”

— Ou seja, na melhor das hipóteses, serão três contra dois, você perdendo.

— Isso mesmo. Agora, não há como conter Anjo. Ele pode fazer o que quiser, votar para aumentar seus poderes, promover-se a tairo, qualquer estupidez que imaginar... como a absurda viagem de Nobusada a Quioto.

Yoshi sentiu outra vez uma pressão no peito, mas tratou de ignorá-la, satisfeito pela oportunidade de falar com franqueza... ao máximo de que era capaz, confiando nela mais do que em qualquer outra pessoa.

— Os bárbaros eram como os imaginava, Sire?

Tudo neles a fascinava. “Conheça seu inimigo como a si mesmo...” Sun-tzu

Era o principal livro de aprendizado de Hosaki e suas quatro irmãs e três irmãos, tanto como as artes marciais, caligrafia e a cerimônia do chá. Ela e as irmãs também haviam estudado, com a mãe e as tias, tudo sobre a terra e administração financeira, assim como métodos práticos de lidar com homens de todas as classes, e o futuro e a suprema importância. Ela nunca se destacara nas artes marciais, embora soubesse usar uma faca bastante bem.

Yoshi contou a ela tudo o que podia se lembrar, inclusive o que Misamoto dissera sobre a parte das Américas conhecida como Califórnia... e às vezes chamada de terra da montanha de ouro. Os olhos de Hosaki se contraíram, mas ele não percebeu.

Quando Yoshi acabou, ela ainda tinha mil perguntas, mas controlou-se deixando-as para mais tarde, não querendo cansá-lo.

— Ajuda-me a ver tudo com clareza, Yoshi-chan, é um observador extraordinário. O que decidiu?

— Nada, por enquanto... Eu gostaria que meu pai estivesse vivo, sinto falta de seus conselhos... e também dos conselhos da mãe.

— Posso compreender.

Hosaki sentia-se contente por ambos estarem mortos, o pai dois anos antes os problemas da velhice agravados pelo confinamento a que fora submetido por Li — ele tinha cinqüenta e cinco anos —, e a mãe na epidemia de varíola do ano passado. Ambos haviam tornado angustiante a vida de Hosaki, ao mesmo tempo em que mantinham Yoshi sob seu encantamento. Na opinião dela, o pai não cumpria seu dever com a família, tomando decisões erradas com mais frequência do que as certas, enquanto a mãe sempre fora a sogra mais destemperada e difícil de agradar que já conhecera, pior com ela do que com as esposas dos três irmãos de Yoshi.

A única coisa inteligente que eles fizeram em toda a sua vida, refletiu Hosaki, foi concordarem com a proposta de casamento com Yoshi Toranaga apresentada por meu pai. Por isso, tenho de lhes agradecer. Agora, reino sobre o Dente do Dragão e nossas terras, que passarão para meus filhos, fortes, inviolados e dignos do lorde xógum Toranaga.

— É uma pena que eles tenham partido — murmurou Hosaki. — Vou ao santuário deles todos os dias e suplico para ser digna da confiança que me dispensavam.

Yoshi suspirou. Desde a morte da mãe que sentia um vazio, mais ainda do que depois da morte do pai, a quem admirava, mas temia. Sempre que tinha um problema, ou estava com medo, sabia que podia procurá-la, e seria tranquilizado, orientado, receberia uma nova força. Ele murmurou, muito triste:

— Karma que a mãe tenha morrido tão jovem.

— Tem razão, Sire.

Hosaki compreendia a tristeza do marido, pois a mesma coisa ocorria com todos os filhos, cujo primeiro dever é obedecer e respeitar a mãe acima de todas as pessoas... e pela vida inteira. Nunca poderei preencher esse vazio, assim como as esposas dos meus filhos jamais preencherão o que vou deixar.

— Qual é o seu conselho, Hosaki?

— Tenho pensamentos demais para tantos problemas — respondeu preocupada, a mente absorvendo o mosaico de perigos que vinham de todos os lados.— Sinto-me inútil neste momento. Deixe-me pensar com cuidado, esta noite e amanhã... talvez eu possa sugerir alguma coisa que lhe dará uma indicação do que deve fazer e depois, com sua permissão, voltarei para casa no dia seguinte, já que pelo menos uma coisa é certa: precisamos reforçar nossas defesas. Deve me dizer o que fazer. Enquanto isso, permita-me algumas observações imediatas, para sua consideração: aumentar a vigilância de seus guardas e mobilizar discretamente todas as suas forças.

— Eu já havia tomado essa decisão.

— Esse gai-jin que o abordou depois da reunião, um francês, pelo que disse... sugiro que aceite seu oferecimento, para ver com seus próprios olhos o interior de um navio de guerra. É muito importante que você mesmo veja... talvez até possa fingir que se torna amigo deles, para depois jogá-los contra os ingleses, neh?

— Também já havia decidido isso.

Ela sorriu para si mesma, baixou a voz ainda mais:

— Por mais difícil que seja, Anjo deve ser removido, em caráter permanente... e quanto mais cedo, melhor. Como é provável agora, você não pode evitar que o xógum e a princesa partam para Quioto... Concordo que ela é, corretamente, do seu ponto de vista, a espiã da corte, uma títere e inimiga. Assim, você deve partir em segredo, logo depois deles, e correr para Quioto, pela Tokaidô, que é mais curta, e chegar lá antes... Sorri, Sire?