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— O que sei ou me importo com taxas de juros? — disse ele irritado, a cara garrada. — Faça o melhor acordo que puder. Talvez tenha chegado o momento de propor ao conselho um ajuste das “taxas de juros”, como meu bisavô.

Há sessenta e tantos anos, o xógum, sufocado sob o peso das dívidas do pai, oito anos de futuras colheitas empenhados, como todos os daimios, e espicaçado pela crescente arrogância e desdém da classe dos mercadores, decretara abruptamente que todas as dívidas estavam canceladas e todas as colheitas futuras livres de dívidas.

Em dois séculos e meio, desde Sekigahara, esse decreto extremo fora promulgado quatro vezes. Causava o caos em todo o país. O sofrimento em todas as classes era imenso, em particular entre os samurais. Os mercadores de arroz, que eram os principais emprestadores de dinheiro, pouco podiam fazer. Muitos foram à bancarrota. Uns poucos cometeram seppuku. Os demais se retraíram da melhor forma que podiam e sofreram também com o desespero geral.

Até a próxima colheita. Os plantadores precisavam, então, dos mercadores e todas as pessoas precisavam de arroz; assim, com o maior cuidado, as vendas eram efetuadas e o dinheiro escasso — e, por isso mesmo, bastante caro — era emprestado para sementes e ferramentas, contra a próxima colheita. Aos poucos de forma modesta, o dinheiro e o crédito alcançavam os samurais, contra seus rendimentos esperados, para subsistência e diversão, sedas e espadas. Não demorava muito para que o excesso de gastos dos samurais se tornasse endêmico. Com uma cautela ainda maior, os emprestadores de dinheiro retomavam suas atividades. Logo era preciso lhes oferecer atrativos, mesmo com relutância, como certidões de samurai, adquiridas para alguns filhos, e tudo em breve voltava a ser como antes, com os feudos penhorados.

— Talvez deva mesmo fazer isso, Sire.— Hosaki sentia a mesma repugnância que o marido pelos emprestadores de dinheiro. — Tenho estoques secretos de arroz contra a fome. Seus homens poderiam ficar famintos, mas não morreriam de inanição.

— Ótimo. Negocie esses estoques por armas de fogo.

— Sinto muito, mas a quantidade não seria significativa — disse ela, gentilmente, consternada com a ingenuidade de Yoshi, e se apressou em acrescentar, para desviá-lo desse assunto: — Por outro lado, os tributos não proporcionarão o dinheiro que os gai-jin vão exigir.

— Neste caso, teremos de recorrer aos emprestadores de dinheiro. Faça qualquer coisa que for necessária. Preciso das armas.

— Está bem. — Hosaki deixou o silêncio se prolongar e, depois, bem devagar, começou a expor um plano por muito tempo ponderado: — Algo que me disse antes de sair de casa me deu uma idéia, Sire. A pequena mina de ouro em nossas montanhas ao norte. Proponho aumentarmos a força de trabalho.

— Mas disse-me muitas vezes que a mina já foi quase exaurida e produz menos receita a cada ano.

— É verdade, mas você me fez compreender que nossos mineiros não são especialistas e me ocorreu que, onde há um veio, pode haver outros também se tivéssemos especialistas para procurá-los. Talvez nossos métodos sejam antiquados. Pode haver técnicos no assunto entre os gai-jin.

Ele fitou-a nos olhos.

— Como assim?

— Conversei com Velho Fedorento... — Era o apelido de um holandês, que anos antes fora mercador em Deshima, contratado para ser um dos tutores de Yoshi e induzido a ficar, com o presente de criadas, uma jovem consorte e muito saquê, até se tornar tarde demais para partir.— Ele me contou sobre uma enorme corrida do ouro na terra da montanha de ouro que você mencionou, há apenas treze anos, quando gai-jin de todas as nações foram roubar uma fortuna da Terra. Houve outra corrida do ouro parecida, há poucos anos, num lugar ao sul daqui... ele chamou-o de terra de van Diemen. Deve haver homens em Iocoama que participaram de uma ou de outra. Especialistas!

— E se eles existirem? — indagou Yoshi, pensando em Misamoto.

— Sugiro que lhes ofereça passagem segura e metade do ouro que descobrirem no prazo de um ano. Há muitos americanos e aventureiros na colônia, pelo que fui informada.

— Gostaria de ver os gai-jin vagueando por nossas terras, espionando tudo?

Hosaki balançou a cabeça, depois inclinou-se para a frente, sabendo que tinha a atenção total do marido.

— Mais uma vez, foi você quem proporcionou a solução, Yoshi-chan. Poderia procurar esse importante mercador de Iocoama, em segredo, o mesmo que me contou que achava que ia fornecer fuzis a Choshu... concordo que devemos obter fuzis e canhões modernos a qualquer custo, ao mesmo tempo em que impedimos os inimigos de adquiri-los. Poderia lhe oferecer a concessão para a exploração do ouro, com exclusividade. Em troca, ele providencia tudo o que for necessário para a pesquisa e mineração. Só aceitaria um ou dois peritos desarmados e é claro que eles seriam vigiados de perto. Como compensação, receberia adiantado muitos canhões e fuzis, contra a metade do ouro encontrado, e esse mercador concorda em vender armas apenas a você. Nunca a Choshu, Tosa ou Satsuma. Sorri, Sire?

— E nosso intermediário seria Misamoto?

— Sem a sua sagacidade em descobri-lo e treiná-lo, isto não seria possível.

Ela falou com total deferência e recostou-se, secretamente satisfeita, escutando os comentários de Yoshi e suas respostas, sabendo que ele iniciaria a execução do plano o mais depressa possível, que acabariam conseguindo as armas de alguma forma, sem abrir mão de suas preciosas reservas de arroz. Pouco depois, Hosaki já pôde fingir que se sentia exausta e pedir permissão para descansar.

— Deveria também repousar, Sire, depois de um exercício tão maravilhoso, embora extenuante...

Claro que ele deveria, um homem tão excepcional, pensou Hosaki. E, uma vez no quarto, com muitos elogios, pedindo permissão para massagear os músculos cansados dos ombros, pouco a pouco, com a devida cautela, se tornando mais insinuante, deixando escapar um ou outro suspiro, faria com que ele se tornasse tão íntimo quanto podia desejar. A mesma intimidade que ele tinha com Koiko.

Antes, Koiko pedira permissão para visitá-la, fizera uma reverência, agradecera, dissera que esperava que seus serviços agradassem ao grande lorde, que sentia-se honrada por poder ingressar naquela família, mesmo que por um breve período. Conversaram por algum tempo e, depois, ela se retirou.

Uma beleza e tanto, pensou Hosaki, sem ciúme, nem inveja. Yoshi tem direito a uma diversão, por mais dispendiosa que seja, de vez em quando. A beleza dessas mulheres é muito frágil, transitória, uma vida tão triste, autênticas flores de cerejeira, da árvore da vida. O mundo de um homem é muito mais excitante fisicamente, do que o nosso. Ah, ser capaz de ir de flor em flor, sem angústia ou preocupação...