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— Senhor McFay! — gritou Vargas lá de baixo. — Com licença, mas os samurais de Choshu acabam de chegar, para tratar daquela encomenda de rifles.

— Voltarei num instante. McFay bateu e abriu a porta.

— Olá, tai-pan — disse ele, gentilmente. Struan estava recostado nos travesseiros, com uma expressão estranha, um sorriso apático. — Como se sente hoje?

— Falou com Hoag?

— Falei.

— Neste caso, já sabe que ela foi bastante satisfatória e... Obrigado, Jamie. Ela ajudou muito, mas... — Struan soltou uma risada nervosa. — ...mas o final me deixou um pouco abalado. Um corpo espetacular. Foi tudo bastante satisfatório. Mas creio que não precisarei de uma repetição do desempenho, até me sentir melhor. Mas pelo menos ela me livrou... do tremendo acúmulo.

Ele fez uma pausa, soltou de novo a risada curta e nervosa.

— Não imaginava, Jamie, como uma mulher tão pequena podia ser tão boa ou tão... pode compreender, não é?

— Claro que posso. Tudo transcorreu de acordo com o plano?

Por um instante, Struan hesitou, mas logo disse, com firmeza:

— Melhor até... quero que você dobre o pagamento dela.

— Está certo.

McFay podia perceber a ansiedade latente e seu coração se confrangeu por Malcolm. Independente do que pudesse acontecer, o encontro com Shizuka tinha de ser mantido em segredo. Se é assim que ele quer, tudo bem. Não cabe a mim decidir. O que está feito está feito. Apenas mais um segredo para acrescentar aos demais.

— Fico contente que tudo tenha corrido bem.

— Melhor do que bem. A moça disse alguma coisa?

— Apenas que ela... ahn... trabalhou a noite inteira... para tentar satisfazê-lo.

Uma batida na porta e Angelique entrou, transbordando de saúde, muito elegante num vestido cor de alfazema, novo, sombrinha, chapéu com plumas, luvas e xale.

— Olá, meu amor, olá, Jamie. Como se sente hoje? Oh, Malcolm, fico tão feliz em vê-lo! — Ela se inclinou para beijar Struan, com extrema ternura. — Oh, chéri, como sinto sua falta!

No momento em que a porta se abrira, os corações dos dois homens dispararam. O nervosismo de McFay aumentara e, no mesmo instante, seus olhos examinaram a cama e o resto do quarto, à procura de sinais denunciadores. Mas tudo se encontrava em ordem, impecável, os lençóis e fronhas trocados todos os dias — devido mais à meticulosidade de Struan com a higiene, em um nível absurdo, pensou ele —, assim como a camisa. Era ridículo, uma ou duas vezes por mês seriam mais do que suficientes. Por outro lado, ele sabia que o hábito fora instituído por Dirk Struan, e tudo o que o tai-pan determinava era lei para Tess Struan e, por conseguinte, para sua família. Struan acabara de fazer a barba, usava um camisolão limpo, e as janelas estavam abertas para a brisa marinha, que dissiparia quaisquer vestígios de perfume. McFay passou a respirar com mais facilidade e foi nesse instante que Angelique anunciou:

— Falei com o Dr. Hoag.

Os dois quase tiveram outro espasmo.

— Meu pobre querido — continuou ela, quase sem pausa —, ele me contou que teve uma péssima noite e que não poderá ir à soirée de Sir William hoje. Por isso, achei que devia ficar aqui com você, fazendo-lhe companhia, até a hora do almoço.

Outra vez o sorriso deslumbrante, que seduziu os dois, e Angelique se instalou numa cadeira de encosto alto. Struan sentia-se tonto de amor por ela, ao mesmo tempo em que experimentava uma náusea de culpa. Eu devia estar louco ao querer uma prostituta para substituir o amor da minha vida, pensou ele, deleitando-se com o calor que Angelique irradiava, querendo falar sobre Shizuka e suplicar seu perdão.

A noite começara bastante bem, com Shizuka despindo-se, sorrindo, comprimindo-se contra ele, acariciando, estimulando. Struan também a tocara, acariciando ao mesmo tempo orgulhoso e ansioso. Fora um tanto difícil e doloroso assumir a posição normal, efetuar os movimentos normais, para começar, mas não impossível... até que de repente o rosto e a presença de Angelique dominaram-no por completo, uma pressão involuntária e indesejada. Sua virilidade murchara. E por mais que Shizuka tentasse, e ele também, não voltara mais.

Descansaram um pouco, tentaram de novo, a ânsia horrível agora para ele agravada por uma raiva frenética e impotente, pela necessidade de provar sua capacidade. Mais carícias e tentativas... ela era experiente com as mãos, lábios e corpo, mas nada conseguira que provocasse uma reação de desejo e necessidade muito menos de amor e seu indefinível mistério. Nem qualquer coisa que Shizuka fizesse seria capaz de dissipar o espectro. Ou prevalecer sobre a dor.

Ao final, ela acabara desistindo, o corpo jovem brilhando de suor, ofegante de tanto esforço.

— Gomen nasai, tai-pan — sussurrara Shizuka, várias vezes, desculpando-se.

Ao mesmo tempo, ela ocultara sua fúria, quase em lágrimas pela impotência de Struan, pois nunca falhara antes, e esperara que ele chamasse os criados a qualquer momento, para expulsá-la pelo fracasso, por não conseguir despertá-lo, como uma pessoa civilizada deveria fazer. E mais do que qualquer outra coisa, ela sentira-se assediada pela ansiedade, sem saber como explicaria sua inadequação à mama-san. Que Buda fosse testemunha: o homem é que fracassou, não eu!

— Gomen nasai, gomen nasai — continuara a balbuciar.

— É o acidente — murmurara Struan.

Ele desprezava a si mesmo, achando que a dor era grotesca. Falara sobre a Tokaidô, sobre seus ferimentos, embora soubesse que a mulher não entenderia suas palavras, agoniado de frustração. Passada a tempestade, suas lágrimas secando, Struan fê-la deitar-se ao seu lado, impedira-a de tentar mais uma vez e a fizera compreender que receberia o pagamento em dobro se mantivesse tudo em segredo.

— Segredo, wakarimasu ka? — suplicara ele.

— Hai, tai-pan, wakarimasu — concordara Shizuka, feliz, ao pegar o medicamento que ele pedira, e o embalara até que dormisse.

— Malcolm... — murmurou Angelique.

— O que é? — perguntou Struan no mesmo instante, concentrando-se, o coração batendo forte, lembrando a si mesmo que consumira o resto da poção para dormir de Hoag e que devia pedir a Ah Tok para substituir a mistura... por apenas um dia, ou pouco mais. — Também me sinto satisfeito em vê-la.

— Eu também. Gosta do meu vestido?

— É maravilhoso... e você também.

— Tenho de me retirar agora, tai-pan — interveio McFay, vendo como Struam ficara feliz, satisfeito por ele, embora ainda transpirasse. — Os representantes Choshu estão lá embaixo... posso continuar as negociações com eles?