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O general ecoou suas palavras. Um momento depois, o rosto de Sir William se endureceu, e ele acrescentou:

— Se não receber qualquer satisfação do Bakufu, partirei para Osaca com foi planejando, com ou sem a Pearl, à frente do exército ou não... mas, por Deus seguirei para Osaca e Quioto de qualquer maneira!

— É melhor esperar até a minha volta, é melhor ser prudente, é melhor não invocar o nome do Senhor para uma ação tão desaconselhável, Sir William — declarou o almirante, em tom brusco. — Deus pode decidir de outra forma.

Naquela noitada, pouco antes de meia-noite, Angelique, Phillip Tyrer e Pallidar deixaram a legação britânica e desceram pela High Street a caminho do prédio Struan.

— Ah, não resta a menor dúvida de que Sir William tem um chef modesto! — comentou Angelique, feliz.

Os três estavam vestidos a rigor, e riram do jantar ter sido tão abundante e inglês, especialmente delicioso — rosbife, bandejas de linguiça de porco, siris frescos trazidos no gelo de Xangai pelo navio de correspondência, como parte do serviço diplomático, e por isso imunes à inspeção alfandegária e a impostos. As carnes haviam sido servidas com legumes cozidos, batatas assadas, também importadas de Xangai, e pastelão de Yorkshire, seguindo-se tortas de maçã e tortas de frutas cristalizadas picadas, com todo o clarete, Pouilly Fume, Porto e champanhe que os vinte convidados podiam beber.

— E quando madame Lunkchurch jogou um siri no marido, pensei que ia morrer! — acrescentou ela, rindo ainda mais.

Tyrer, embaraçado, murmurou:

— Receio que alguns dos supostos mercadores e suas esposas são propensos a se mostrarem turbulentos. Por favor, não julgue todos os ingleses pelo comportamento deles.

— É isso mesmo.

Pallidar sentia-se radiante, satisfeito por também ter sido aceito como parte da escolta de Angelique, consciente de que seu uniforme de gala e quepe emplumado faziam com que a sobrecasaca de Tyrer parecesse insípida, a gravata de seda antiquada, e a cartola ainda mais fúnebre.

— Pessoas lamentáveis. Sem a sua presença, a noite teria sido horrível, com toda certeza.

A High Street e suas transversais ainda se achavam movimentadas, com mercadores, escriturários e outras pessoas voltando para casa ou passeando, os bêbados ocasionais deitados no chão, à luz dos lampiões de óleo que as iluminavam. Alguns grupos de pescadores japoneses, carregando remos e redes, com lanternas de papel para iluminar o caminho, subiam da praia, onde haviam deixado seus barcos, na areia ou desciam da aldeia para a pescaria noturna. Angelique parou na porta do prédio da Struan e estendeu a mão para ser beijada.

— Obrigada e boa noite, meus caros amigos. Por favor, não precisam esperar.

Um dos criados poderá me acompanhar até a legação.

— De jeito nenhum! — exclamou Pallidar no mesmo instante, segurando a mão de Angelique, apertando-a por um momento.

— Eu... teremos o maior prazer em esperar — garantiu Tyrer.

— Mas posso demorar uma hora ou uns poucos minutos, dependendo do estado de meu noivo.

Mas os dois insistiram, ela agradeceu, passou pelo vigia noturno armado, vestindo libré, subiu a escada, o vestido farfalhando, o xale em sua esteira... ainda extasiada com o excitamento da noite e a adoração que a cercara.

— Olá, querido. Só vim lhe desejar boa noite.

Struan usava um elegante chambre vermelho de seda, por cima de camisa e calça folgadas, botas de couro macio, gravata. Levantou-se, a dor abrandada pelo elixir que Ah Tok lhe dera, meia hora antes.

— Sinto-me melhor que em muitos dias, minha querida. Um pouco trêmulo, mas bem... ah, como você está adorável!

A luz do lampião a óleo tornava o rosto encovado de Struan mais bonito do que nunca e Angelique ainda mais desejável. Ele pôs as mãos nos ombros dela para se firmar, sentindo a cabeça e o corpo estranhamente leves. A pele de Angelique era macia, quente ao seu contato. Seus olhos faiscavam e Struan fitou-a, com amor intenso, beijando-a. Gentilmente, a princípio, e depois, quando ela retribuiu, exultando com o sabor e a acolhida de Angelique.

— Eu amo você — murmurou ele, entre beijos.

— Eu também amo você — respondeu ela, acreditando nisso, tonta de prazer, muito feliz por ele parecer melhor, seus lábios fortes, procurando, as mãos fortes, procurando também, mas dentro dos limites... limites que ela, de repente, em delírio, quis ultrapassar. — Je t’aime, chéri..je t’aime...

Por um momento, permaneceram abraçados, e depois, com uma força que não sabia que possuía, Struan levantou-a do chão, foi sentar na cadeira grande, ajeitou-a em seu colo, os lábios unidos, um braço seu enlaçando a cintura pequena, uma das mãos num seio, a seda parecendo realçar o calor por baixo. E o espanto dominou-o. Espanto porque agora, quando todas as partes da mulher estavam cobertas, eram proibidas, enquanto na outra noite tudo ficara à mostra, oferecido, também jovem, ele se sentia mais eufórico e estimulado do que nunca, embora ao mesmo tempo controlado, não mais frenético de desejo.

— Muito estranho...

E Struan pensou: não, não é tão estranho assim, a dor foi encoberta pelo medicamento; o resto não, e o resto é meu amor por ela.

Chéri?

— É estranho que eu precise tanto de você, mas sou capaz de esperar. Não por muito tempo, mas posso esperar.

— Por favor, não por muito tempo...

Os lábios de Angelique tornaram a procurar os dele, nada em sua mente além daquele homem, o calor bloqueando sua memória, apagando as preocupações, Os problemas desaparecendo. Para os dois. Até o súbito estampido de um tiro, lá fora nas proximidades.

O clima se desvaneceu, ela se empertigou no colo de Struan e no instante seguinte correu para a janela entreaberta. Lá embaixo, avistou Tyrer e Pallidar. Oh, droga, tinha me esquecido dos dois, pensou ela. Eles olhavam para o interior depois se viraram na direção da cidade dos bêbados.

Angelique esticou a cabeça além da janela, mas viu apenas um vago grupo de homens, na outra extremidade da rua, seus gritos estridentes se perdendo no vento.

— Parece que não é nada demais, Malcolm, apenas uma confusão na cidade dos bêbados...

Brigas e tiros, até mesmo duelos, não eram raros naquela parte de Iocoama. Sentindo-se estranha e enregelada, ao mesmo tempo febril, ela voltou até Struan e fitou-o. Com um pequeno suspiro, ajoelhou-se, pegou a mão dele, comprimiu-a contra a sua face, baixou a cabeça para seu colo; mas a gentileza e os dedos de Struan, acariciando seus cabelos e sua nunca, não afastaram os demônios.

— Devo ir para casa, meu amor.

— É verdade.

Os dedos continuaram a acariciá-la.