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— Quero ficar.

— Sei disso.

Struan tinha a impressão de que podia ver a si mesmo de fora, o perfeito cavalheiro, calmo, controlado, ajudando-a a levantar, esperando enquanto ela ajeitava o corpete e os cabelos, arrumava o xale. Depois, de mãos dadas, acompanhou-a até o alto da escada, onde se permitiu ser persuadido a ficar, deixando que a criada a escoltasse até lá embaixo. Na porta, Angelique virou-se, acenou numa despedida amorosa, ele respondeu e depois ela se foi.

Malcolm teve a impressão de que não precisou de qualquer esforço para voltar e se despir. Deixou que a criada tirasse suas botas. Deitou-se, sem ajuda, recostou-se em paz, consigo mesmo e com o mundo. A cabeça ótima, o corpo ótimo, relaxado.

— Como está meu filho? — sussurrou Ah Tok, da porta.

— Na terra da papoula.

— Isso é ótimo. Não há dor para meu filho aí. Ela soprou a chama e deixou-o sozinho.

Mais abaixo, na High Street, o soldado francês de sentinela, o uniforme tão desleixado quanto seu comportamento, abriu a porta da legação para ela.

Bonsoir, mademoiselle.

Bonsoir, monsieur. Boa noite, Phillip, boa noite, Settry.

Fechada a porta, Angelique recostou-se nela por um momento, a fim de se controlar. O prazer da noite desaparecera. Em seu lugar, os espectros pressionavam por atenção. Absorvida em seus pensamentos, ela seguiu pelo corredor para sua suíte, avistou uma luz por baixo da porta de Seratard. Parou e, num súbito impulso, refletindo que podia ser a ocasião perfeita para pedir um empréstimo, bateu na porta e entrou.

— Oh, André! Desculpe. Eu esperava encontrar monsieur Henri.

— Ele ainda está com Sir William. Eu estava acabando de preparar um despacho para ele.

André sentava à escrivaninha de Seratard, com muitos papéis espalhados por cima. O despacho era sobre a Struan, sua possível transação de armas com Choshu e a possível ajuda que uma possível esposa francesa poderia prestar à incipiente indústria de armamentos da França.

— Divertiu-se bastante? Como está seu noivo?

— Muito melhor, obrigado. O jantar foi magnífico, para quem gosta de comida pesada. Ah, que saudade de Paris...

— Tem razão.

Por Deus, como ela é sedutora, pensou ele, o que o lembrou da infame doença infecciosa que o corroía.

— O que foi? — indagou Angelique, sobressaltada com a repentina palidez de André.

— Nada. — Ele limpou a garganta, fazendo um esforço para controlar o horror. — Apenas os problemas de sempre... nada de grave.

André parecia tão vulnerável, tão desamparado, que abruptamente ela decidiu confiar nele de novo. Fechou a porta, sentou ao seu lado, contou sua história.

— O que vou fazer agora, meu caro André? Não consigo obter nenhum dinheiro... o que posso fazer?

— Enxugue as lágrimas, Angelique, porque a resposta é muito simples. Amanhã ou depois, eu lhe acompanhei para fazer compras — disse ele, a mente lúcida para os problemas mundanos. — Pediu-me para ajudá-la nas compras, procurar um presente de noivado para monsieur Struan, não é mesmo? Abotoaduras de ouro com pérolas e brincos de pérolas para você.

André fez uma pausa, a voz entristeceu quando acrescentou:

— Ah, uma coisa horrível, em algum lugar, no caminho de volta do joalheiro, você perde um par... procuramos por toda parte, mas em vão. Horrível! — Os olhos castanho-claros fixavam-se nos de Angelique. — Enquanto isso, a mama-san recebe seu pagamento secreto. Cuidarei para que o par que você “perdeu” mais do que cubra o medicamento e todos os outros custos.

— Você é maravilhoso! — Angelique abraçou-o. — O que eu faria sem a sua ajuda?

Ela tornou a abraçá-lo, agradeceu mais uma vez e saiu da sala quase dançando. André ficou olhando para a porta fechada por um longo tempo. É isso mesmo, pensou, com uma estranha inquietação, cobrirá o medicamento, meus vinte luíses e todas as outras despesas que eu decidir. Pobre criança, não imagina como é fácil manipulá-la. Está metida num sorvedouro cada vez mais profundo. Não percebe que agora se torna uma ladra e, pior ainda, uma criminosa planejando uma fraude deliberada.

E você, André, é um cúmplice na conspiração.

Ele soltou uma risada, uma risada amarga e irônica. Prove! Ela falará ao tribunal sobre um aborto, com a mama-san como testemunha contra mim? O tribunal acreditará na história da filha e sobrinha de criminosos contra a minha?

Não, mas Deus saberá, e muito em breve estarei diante d'Ele.

E Ele saberá que fiz muito pior. E tenciono fazer ainda mais.

As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.

— Ah, miss — disse Ah Soh, tentando ajudar Angelique a se despir, encontrando dificuldade porque ela não parava por um instante sequer, outra vez alegre e buliçosa, seu problema imediato resolvido. — Miss?

— Está bem, está bem... mas tenho pressa.

Angelique parou ao lado da cama, mas continuou a cantarolar a animada polca, o quarto mais feminino e aconchegante à luz do lampião de óleo do que durante o dia, as janelas de vidro entreabertas, por trás das grades enviesadas.

— Miss, divertiu, hem?

Com extrema habilidade, Ah Soh começou a desprender as tiras da cintura da saia.

— E muito, obrigada — respondeu Angelique, polida.

Não chegava a gostar de Ah Soh, uma mulher de meia-idade, quadris largos, uma criada, em vez de uma autêntica ama.

— Mas ela é muito velha, Malcolm! Não pode arrumar alguém que seja jovem, bonita, e que saiba rir?

— Gordon Chen, nosso compradore, escolheu-a, Angel. Ele garante que é uma pessoa de confiança absoluta; ela pode escovar seus cabelos, ajudá-la no banho, cuidar de suas roupas européias. É um presente meu para você, enquanto estiver no Japão...

As tiras afrouxaram e a crinolina caiu. Ah Soh fez a mesma coisa com a anágua e, por fim, cuidou da armação de ossos e metais que sustentava a crinolina. Um calção comprido, meias de seda, combinação curta, o espartilho e o corpete que reduziam sua cintura de cinqüenta centímetros para quarenta e seis e empurravam os seios para cima, como determinava a moda. Enquanto a criada desfazia o espartilho, Angelique deixou escapar um suspiro de satisfação, saiu do mar de peças de roupa, arriou na cama e permitiu, como uma criança, que Ah Soh a despisse por completo. Obediente, ergueu os braços, para que a camisola estampada fosse enfiada pela cabeça.

— Sente, miss.