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— Boa noite, miss.

— Boa noite, Ah Soh.

Feliz por ficar sozinha, Angelique aconchegou-se sob as cobertas, vendo as sombras produzidas pela chama dançarem com a aragem, a cabeça encostada no braço. Antes de Kanagawa, o escuro nunca a perturbara; num instante resvalava para o mundo dos sonhos, acordando revigorada. Desde Kanagawa, no entanto, o padrão mudara. Agora insistia em ter uma luz acesa durante a noite. O sono não vinha com facilidade. A mente logo a conduzia por caminhos de suposições delirantes. As mãos apalpavam os seios. Tornaram-se um pouco mais cheios do que ontem, os mamilos mais sensíveis? Estão, sim... não, é apenas imaginação. E a barriga? Ficou mais redonda? Não, não há qualquer diferença, mas...

Mas havia uma vasta diferença, como a.C. e d.C, e pelo menos uma vez por dia especulo se seria um menino ou uma menina. Ou um demônio, saindo ao pai estuprador. Não, não, nenhuma criança gerada por mim poderia ser um demônio!

Demônio. Isso me lembra que hoje é sexta-feira e daqui a dois dias tenho de ir à igreja, me confessar de novo. As palavras não se tomaram mais fáceis. Como detesto a confissão agora e abomino o padre Leo, um velho gordo, grosseiro, lascivo, fedendo a tabaco. Ele me lembra o confessor de tia Emma em Paris... o velho escocês, recendendo a uísque, cujo francês era tão horrível quanto sua batina. Sorte minha que nem ela nem tio Michel eram fanáticos, apenas simples católicos de domingo. Gostaria de saber como ela está, e também o pobre tio Michel. Amanhã falarei com Malcolm...

O querido Malcolm, tão maravilhoso esta noite, tão forte e sensato... Ah, como eu o desejava! Fico contente em poder conversar com ele. Ainda bem que tia Emma Se recusou a aprender francês, por isso tive de aprender inglês. Como ela conseguiu sobreviver em Paris, durante tantos anos, falando apenas inglês? E o que de tio Michel para casar com ela e suportar tantas dificuldades? Embora eu não posso deixar de reconhecer que ela é uma desmazelada e, ele, um vulgar.

Amor! É isso o que ele sempre diria, e ela também, o que aconteceu quando se conheceram, na Normandia, nas férias de verão, ele um servidor público subalterno, ela uma atriz numa companhia shakespeariana itinerante. Foi amor à primeira vista, os dois sempre diriam, e acrescentariam que ela era linda, ele muito bonito. Fugiram juntos, casaram em uma semana, tão romântico, mas não foram felizes para sempre.

Mas nós seremos, Malcolm e eu. Com toda certeza! Amarei Malcolm como uma esposa moderna deve fazer, teremos muitos filhos, serão criados como católicos, não tem importância para ele, que também não é um fanático: “Não sou mesmo, Angelique. Claro que casaremos de acordo com as tradições protestantes a mãe não admitiria outra coisa. Mas depois podemos ter uma cerimônia católica em particular, se você assim desejar...”

Não importa que seja secreta, será o verdadeiro casamento — ao contrário do outro —, as crianças serão aceitas na Santa Madre Igreja, viveremos em Paris durante a maior parte do tempo, Malcolm me amará e eu o amarei, faremos amor de forma maravilhosa, pensou ela, o coração começando a palpitar de uma maneira cada vez mais agradável, enquanto a mente vagueava. Mais e mais profundamente. E depois, porque a noite fora maravilhosa, e ela se sentia maravilhosa, além de segura, permitiu que as partes agradáveis do sonho daquela noite aflorassem.

Não podia se lembrar de nenhuma com exatidão. A indignação dissolvia imagens dentro de imagens eróticas dentro de imagens eróticas. Um pequeno ardor, que se transformava em calor irradiando por todo o corpo. Sabendo, mas não sabendo. Sentindo, mas não sentindo, braços fortes que a envolviam, dominada por uma sensualidade nunca antes experimentada, uma abertura, de cabeça, corpo, vida, gloriosamente livre para abandonar todos os freios, para se deleitar com tudo, porque era... apenas um sonho.

Mas acordei, ou quase acordei, e fingi que não, perguntou ela a si mesma, mais uma vez, sempre com um calafrio. Não poderia reagir com tanta lascívia se estivesse acordada — tenho certeza —, mas o sonho era muito intenso e fui levada por uma tempestade a querer mais e mais...

Ela ouviu a porta externa da suíte ser aberta e fechada. Um momento depois, viu a maçaneta girar, a porta do quarto ser aberta, André entrar, sem fazer barulho, e tornar a fechá-la. Ele se encostou na porta, com um sorriso zombeteiro. Angelique sentiu súbito medo.

— O que você quer, André?

Ele não respondeu por um longo momento, depois aproximou-se da cama, fitou-a nos olhos e murmurou:

— Ahn... conversar... está bem? Devemos, não é? Conversar, ou... ou o que...

— Não compreendo...

Mas ela compreendia muito bem, podia perceber o brilho desconcertante em seus olhos, onde poucos minutos antes havia apenas compaixão. Esforçou-se para manter a voz sob controle, criticando-se por não ter trancado a porta... não havia necessidade onde só havia criados e funcionários da legação, nenhum dos quais ousaria entrar sem permissão.

— Por favor, André, não...

— Precisamos conversar sobre amanhã... e nos tornarmos amigos.

— Por favor, meu caro André, já é tarde, qualquer coisa pode esperar até amanhã. Sinto muito, mas você não tem o direito de entrar aqui sem bater...

Num pânico momentâneo, Angelique recuou para o outro lado da cama, enquanto ele sentava à beira e estendia as mãos em sua direção.

— Pare ou vou gritar!

A risada de André foi baixa e irónica.

— Se gritar, minha cara Angelique, isso atrairá os criados. Abrirei a porta e direi que você me convidou a vir aqui... queria privacidade para conversar sobre sua necessidade de dinheiro... dinheiro para um aborto. — Outra vez o sorriso sarcástico. — O que acha?

— Oh, André, não seja assim, por favor, vá embora... se alguém o visse aqui...

— Primeiro... primeiro um beijo. Ela corou.

— Saia! Como ousa?

— Cale a boca e escute — sussurrou ele, a voz ríspida, a mão segurando o pulso de Angelique, apertando-a com força. — Posso ousar qualquer coisa, e se quiser mais do que um beijo, você vai me dar, de bom grado ou não. Sem a minha ajuda, será descoberta, sem...

— André... por favor, largue-me.

Por mais que tentasse, ela não conseguia se desvencilhar. Com outro sorriso irônico, ele soltou-a.

— Você me machucou — balbuciou Angelique, quase em lágrimas.

— Não quero machucá-la — murmurou ele, a voz gutural parecendo estranha para si mesmo.

Sabia que era uma loucura estar ali, agindo daquela maneira, mas fora dominado por um horror tão súbito e intenso que prevalecera sobre a razão, os pés trazendo-o até ali como se tivessem vontade própria, a fim de forçá-la a... a fazer o quê? Partilhar a degradação dele. Por que não? Clamou o cérebro de André. A culpa é dela, ostentando os peitos e sua clamorosa sexualidade, lembrando-me! Ela não é melhor que uma vagabunda das ruas, talvez não tenha sido estuprada... e não está a fim de capturar Struan e seus milhões por quaisquer meios possíveis?