— Sou seu amigo, Angelique... e não a estou ajudando? Venha até aqui. Um beijo não é um pagamento tão grande assim...
— Não!
— Por Deus, faça isso de bom grado ou pararei de ajudá-la e daqui a um ou dois dias darei um aviso anônimo a Struan e Babcott. É isso o que você quer?
— André, por favor...
Angelique olhou ao redor, procurando desesperada por algum meio de escapar. Não havia nenhum. André se adiantou pela cama, estendeu a mão para o seio, mas ela empurrou-o, começou a resistir, a lutar, a golpear com as unhas direção de seus olhos. Mas ele a imobilizou, deixou-a impotente, por mais que se debatesse. Angelique tinha medo de gritar, sabia que se encontrava acuada, perdida, teria de se submeter. Abruptamente, soaram batidas violentas na janela.
O estrépito repentino arrancou André de sua loucura e fez com que ela soltasse um grito de susto. Transtornado, ele se levantou de um pulo, correu para a porta, destrancou-a, atravessou a sala da suíte, abriu também a porta que dava para o corredor. Depois virou-se, voltou correndo para as janelas, abrindo-as. Em segundos, soltou as trancas, empurrou-as para fora. Nada. Não havia ninguém ali. Apenas os arbustos, ondulando ao vento, o barulho, sem qualquer pessoa no caminho além da cerca.
O soldado de sentinela veio correndo.
— O que está acontecendo?
— Eu é que deveria lhe perguntar, soldado — disse André, o coração apertado, as palavras se atropelando. — Viu alguém... alguma coisa? Eu passava pela porta de mademoiselle e ouvi... ou pensei ter ouvido... alguém batendo na janela. Depressa, verifique ao redor!
Por trás dele, Piore Vervene, o chargéi'affiaies, uma vela na mão, entrou no quarto, apressado e ansioso, um chambre por cima do camisolão, a touca torta na cabeça. Outros começaram a se agrupar na porta.
— O que está acontecendo... oh, André! Mas... o que houve? Deu um grito, mademoiselle?
— Dei... ele... — balbuciou Angelique.— André... alguém bateu nas janelas e André...
— Eu passava pela porta — explicou André — e entrei correndo... não é verdade, Angelique?
Ela baixou os olhos, aconchegando-se contra as cobertas.
— É, sim... é verdade — murmurou, com medo e odiando-o, mas fazendo um esforço para esconder.
Vervene juntou-se a André na janela, olhou ao redor.
— Talvez tenha sido o vento. Temos súbitas rajadas aqui e as janelas não são muito novas.
Ele sacudiu uma das persianas. Estava mesmo um pouco solta e fez o maior barulho. Vervene gritou para o soldado:
— Dê uma busca meticulosa e volte aqui para comunicar o que descobrir — Ele fechou a janela e trancou-a. — Pronto? Não há mais nada com que se preocupar.
— Sei disso, mas...
Lágrimas de alívio afloraram aos olhos de Angelique.
— Mon Dieu, mademoiselle, não há motivos para se preocupar. Não chore.
Está perfeitamente segura, não precisa se preocupar com coisa alguma.
Vervene tirou a touca da cabeça, coçou a calva, aturdido. Foi então que avistou Ah Soh entre as pessoas na porta e gesticulou agradecido para ela.
— Ah Soh, você vai dormir aqui com a miss, está bem?
— Sim, amo.
Ah Soh afastou-se apressada para pegar algumas roupas de cama, e os outros começaram a se dispersar.
— Esperarei com mademoiselle Angelique até ela voltar. — Vervene bocejou. — Provavelmente os dois se enganaram e foi apenas o vento. Quem haveria de bater na janela? Não há pirralhos de rua na colônia para fazer brincadeiras assim, ou para tentar furtar qualquer coisa, graças a Deus. Só pode ter sido o vento, não é mesmo?
— Tem toda razão — declarou André, seu pavor agora controlado, temendo que alguém estivesse lá fora, observando... vira a fresta na janela, mas nenhum outro sinal. — Não concorda, Angelique?
— Eu... hum... é possível.
Ela sentia-se perturbada, ainda não recuperada do medo, tanto de André quanto do barulho repentino. Por que ocorrera naquele exato momento? Teria sido alguém ou apenas um vento enviado por Deus... uma autêntica dádiva divina? Vento ou não, pessoa ou não, isso não importa, concluiu ela. O importante é que escapei, amanhã voltarei para junto de Malcolm, não ouso continuar aqui, não devo ficar tão perto de André, é perigoso demais.
— Soou como alguém batendo, mas... mas posso estar enganada. Talvez tenha sido uma súbita rajada.
— Tenho certeza que foi — garantiu Vervene, confiante. — Minhas janelas estão sempre batendo assim e me acordam várias vezes.
Ele tossiu, sentou, olhou gentilmente para André, cujo rosto ainda estava branco.
— Não precisa ficar esperando comigo, meu amigo. Não parece estar muito bem... dá a impressão, que Deus o guarde, de ter uma crise do fígado.
— É possível... e não estou mesmo me sentindo bem. — André olhou para Angelique. — Sinto muito.
Ele fitou-a nos olhos, a voz calma e suave. Parecia ser de novo o velho André, toda estranheza, desejo e violência desaparecidos.
— Boa noite, Angelique. Não precisa mais ter medo de coisa alguma... nunca mais. Monsieur Vervene tem toda razão.
— Ahn... concordo. Obrigada, André.
Angelique forçou um sorriso, e ele saiu. Fitara-o bem fundo, querendo encontrar a verdade por trás de seus olhos. A expressão era cordial, nada mais. Mas ela não confiava no que vira. Mesmo assim, sabia que teria de fazer as pazes com André, aceitar seu inevitável pedido de desculpas — fingindo esquecer tudo, concordando que o ataque fora uma loucura momentânea —, e se tornar amigos de novo. Na superfície.
Ela estremeceu. Em seu íntimo, também sabia que tudo o que André exigisse ela teria de ceder. Enquanto ele vivesse.
Ori tremia todo, agachado sob um barco emborcado, na praia de seixos. As ondas se desmanchavam a vinte metros dali.
— Você está completamente baka — balbuciou ele, a fúria dirigida contra ele mesmo.
Antes de compreender o que fazia, batera nas janelas e depois, transtornado com sua estupidez, saíra correndo, pulara a cerca, encontrara o remo usado como camuflagem, ajeitara-o ao ombro e, sem ser detido, atravessara a rua, enquanto vozes gai-jin soavam lá atrás.
Hiraga deve estar certo, pensou ele, nauseado, confuso, o coração doendo no peito, o ombro latejando, e um filete de sangue quente escorrendo da abertura no ferimento causada por sua fuga precipitada. Talvez aquela mulher tenha realmente me deixado louco. Sem qualquer dúvida, foi uma loucura bater na janela... de que isso me serviria? Qual o problema se ela deitasse com outro? Por que isso deveria me enfurecer tanto, fazer o coração explodir em meus ouvidos? Não sou dono dela, nem quero ser, que diferença faz se outro gai-jin a possui, com ou sem violência? Algumas mulheres precisam de uma certa violência para excitá-las, como muitos homens... ah, espere, teria sido melhor se ela lutasse comigo, em vez de me acolher daquele jeito, por mais drogada que estivesse... ou fingisse estar?