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Fingisse?

Era a primeira vez que tal pensamento lhe ocorria. Um pouco da raiva se esvaiu, embora o coração continuasse disparado, as têmporas ainda latejassem. Seria possível que ela estivesse fingindo? Claro que sim, pois seus braços me enlaçaram, suas pernas me envolveram, e seu corpo se mexeu como o de nenhuma outra... todas as parceiras de travesseiro se mexem com sensualidade, soltam gemidos e suspiros, às vezes exibem umas poucas lágrimas e murmuram “Ah, como você é forte, como me esgota, nunca tive o privilégio de conhecer um homem assim antes...”, mas todos os clientes sabem que são palavras superficiais, decoradas, parte do treinamento, nada mais do que isso, inexpressivas.

Ela não se comportou assim e cada momento teve um significado para mim. Não importa se ela fingia ou não... provavelmente fingia, pois as mulheres são cheias de astúcia. Não me importo, mas não deveria ter golpeado a janela como um tolo alucinado, revelando minha presença e esconderijo, provavelmente arruinando para sempre toda e qualquer possibilidade de, novamente, ter acesso àquele lugar.

Outra vez a raiva o dominou. Bateu com o punho na madeira do casco.

— Baka! — sussurrou, com vontade de gritar bem alto.

Passos sobre os seixos. Cauteloso, Ori se encolheu ainda mais nas sombras esquivando-se da claridade desastrosa da lua. Ouviu as vozes de pescadores se aproximando, conversando, censurando-se mais uma vez por não se ter mantido mais alerta. Quase que no mesmo instante, um pescador rude, de meia-idade, contornou a popa do barco e parou.

— Cuidado! Quem é você, estranho?— indagou o homem, furioso, segurando o mastro curto que tinha nas mãos como se fosse um porrete. — O que está fazendo aqui?

Ori não se mexeu, apenas fitou-o com uma expressão irada e aos outros que vieram se postar ao lado do primeiro. Um também era de meia-idade, o outro um jovem, não muito mais velho que Ori.

— Não deve perguntar algo assim a seus superiores — disse ele. — Onde estão suas maneiras?

— Quem é você? Não é um samu...

O homem parou de falar, paralisado, enquanto Ori se levantava de um pulo, a mão na espada, a lâmina começando a sair da bainha, ameaçadora.

— De joelhos, ralé, antes que eu arranque seus corações baka... um corte de cabelos diferente não faz com que eu seja menos samurai!

No mesmo instante, os pescadores caíram de joelhos, baixando a cabeça para a areia, balbuciando desculpas, convencidos da autoridade de Ori, pela maneira como a espada curta era empunhada.

— Calem-se! — gritou Ori. — Para onde estão indo?

— Vamos sair para pescar, lorde, por meia légua de mar. Por favor, perdoe-nos, mas no escuro, com seus cabelos...

— Cale-se! Levem o barco para a água! Depressa!

Saindo pelo mar, são e salvo, a raiva ofuscante controlada, o ar marinho purificando-o, Ori olhou para a colônia. As luzes continuavam acesas nas legações francesa e britânica, no prédio Struan e no clube que Hiraga lhe indicara. Lampiões a óleo ao longo da praia, umas poucas janelas iluminadas em outros bangalôs e armazéns, a cidade dos bêbados com a agitação normal, que se prolongaria noite adentro, os lugares que vendiam bebida nunca adormecendo por completo.

Mas toda a sua atenção se concentrou na legação francesa. Por quê? Ele não parava de perguntar a si mesmo. Por que eu haveria de me sentir tão possuído pelo... ciúme? Essa era a verdadeira palavra. Um ciúme insano. Sentir ciúme por causa de travesseiro é baka.

Teria sido por causa do que Hiraga me contou? “Taira diz que o costume deles é como o nosso na classe dirigente, um homem não vai para a cama com a mulher com quem casará antes do casamento...” Isso significa que o tai-pan não a levará para a cama, e como ela está prometida, ninguém mais tem esse direito. Bati nas janelas para impedir que aquele homem a possuísse... ou para protegê-la?

Ou foi apenas porque não queria que nenhum outro homem a tivesse até que eu pudesse fazê-lo de novo... o que seria uma estupidez ainda maior? Reagi assim Porque fui o primeiro? Isso faz com que seja diferente... por ter sido o único que a possuiu? Lembre-se, os chineses sempre acreditaram que a virgindade é o mais poderoso afrodisíaco entre o céu e a terra. Foi por isso que agi assim?

Não. Foi um súbito impulso. Acho que ela é uma mulher-lobo e deve ser morta... de preferência após deitar com ela mais uma vez... para que eu possa escapar a seu encantamento.

Mas como e quando? Deveria ser agora.

Só que é perigoso demais permanecer na colônia ou na Yoshiwara. Hiraga acabará descobrindo que não fui embora. E serei um homem morto se ele me encontrar. Dá para arriscar mais três dias e, depois, se não conseguir alcançá-la, partir apressado para Quioto, sem que Hiraga descubra? É mais seguro ir agora. O que fazer?

— Você, velho, onde mora?

— Segunda rua, quinta casa, lorde — balbuciou o pescador.

Todos sentiam profundo medo, sabendo que aquele devia ser um dos ronin que se esconderam na colônia, a fim de escapar aos vigilantes de Toranaga.

23

Domingo, 19 de outubro:

Os sinos da igreja chamavam os fiéis na manhã clara e agradável.

— Não há muitos fiéis em Iocoama — comentou Jamie McFay para Struan. Os ombros e as costas de McFay doíam, a igreja e o serviço iminente não eram de seu gosto, muito diferente do austero presbiterianismo escocês de sua infância. Uma pausa, e ele acrescentou, cauteloso, inseguro sobre a reação de Struan, depois da briga violenta que haviam tido no dia anterior:

— Não que eu seja um fiel que sempre vai à igreja... não sou mais. Minha mãe continua tão rigorosa como sempre, freqüenta três serviços aos domingos.

— Igual à minha, só que na igreja anglicana — murmurou Struan, cansado. Ele andava devagar, meio trôpego, encurvado, apoiado nas bengalas, em meio aos homens que convergiam para a igreja, no final da High Street, um pouco recuada, com seu próprio jardim, num terreno seleto, de frente para o mar.

— Mas a igreja aqui é muito bonita e faz com que Iocoama pareça permanente.

A Santíssima Trindade ou Santíssima Mama, como era reservadamente apelidada, era o orgulho da colônia. Fora consagrada, no ano anterior, pelo bispo de Hong Kong. O campanário era alto e o sino repicava suavemente, lembrando a todos de sua terra natal... tão distante. Madeira, tijolos e reboco de Xangai. Jardim bem cuidado, um pequeno cemitério, com apenas sete sepulturas, pois as doenças eram raras em Iocoama... ao contrário de Hong Kong, com suas pragas e a letal febre do Happy Valley, a malária. Todas as sete mortes haviam sido causadas por Ridente, exceto uma, por velhice. Vinte anos trabalhando na Ásia era algo raro, e mais raro ainda o homem que passava da idade da aposentadoria.