— O que os demônios estrangeiros sabem?
— Não se esqueça de que também sou um demônio estrangeiro.
— Pode ser, mas é meu filho...
Ah Tok é uma velha megera. Mas posso confiar nela. Não há nada de errado em tomar um pouco uma vez por dia. Posso parar a qualquer momento que quiser. Não preciso durante o dia, embora sempre ajude, é claro. Preciso decidir sobre a carta da mãe, tenho de escrever para ela, despachar pelo navio de correspondência que parte amanhã. É indispensável.
A carta da mãe fora trazida do navio de correspondência por um mensageiro especial, um inevitável parente do compradore, Gordon Chen. Mais uma vez, não tinha o “P.S. Eu amo você”. E também mais uma vez, a mensagem secreta o enfurecera:
Malcolm: você enlouqueceu por completo? Festa de noivado? Depois que eu o alertei? Por que ignorou totalmente minha carta e meu chamado urgente para voltar? Se não fosse pelo relatório médico do dr. Hoag, recebido hoje, com a notícia inacreditável, eu teria presumido que você sofreu ferimentos na cabeça também, além dos terríveis ferimentos de espada. Exigi que o nosso governador tome as mais rigorosas providências contra esses animais bárbaros e leve os culpados à justiça da rainha de imediato! Se ele não o fizer, adverti-o pessoalmente de que toda a força da Casa Nobre será mobilizada contra esta administração!
Mas já chega disso. É VITAL que você volte a Hong Kong o mais depressa possível, a fim de resolver três problemas. Claro que estou disposta a perdoar sua transgressão, pois ainda é bastante jovem, passou por uma experiência terrível e caiu nas garras de uma mulher muito astuta. Agradeço a Deus por você estar recuperando as forças a cada dia que passa. Pelo relatório do dr. Hoag, tenho certeza que estará em condições de viajar quando receber esta carta (instruí o dr. Hoag a voltar com você e o considero pessoalmente responsável por sua segurança). Reservei as passagem pra os dois no navio de correspondência... mas não para ela, uma atitude deliberada.
É essencial que você volte DEPRESSA E SOZINHO. Primeiro, para se tornar formalmente o tai-pan. Seu avô deixou instruções específicas, por escrito, e DEVEM ser cumpridas antes que você possa ser o tai-pan LEGAL da Struan, independente do que seu pai ou eu lhe deixemos em testamento. Antes de morrer, seu pai, como você estava ausente, fez-me jurar o que tinha de ser jurado e prometer que exigiria o seu juramento das mesmas condições. Isso deve ser feito sem demora.
Segundo: porque devemos decidir logo como combater o ataque que Tyler Brock desfechou contra nós — mencionei antes que ele conta com o apoio total do Victoria Bank, e hoje ameaça executar nossas notas promissórias, o que nos causaria a ruína, se for bem-sucedido. Gordon Chen sugeriu uma solução, mas é muito arriscada, não pode ser explicada por escrito, e exige a assinatura e participação do tai-pan. Meu meio-irmão, “Sir” Morgan Brock, acaba de chegar a Hong Kong e tem ostentado seu título, que só adquiriu ao persuadir o sogro sem herdeiros a adotá-lo, para logo depois, de uma forma bem conveniente, morrer.
O pobre coitado recebeu alguma assistência? Deus me perdoe, mas dá para duvidar. Tanto ele quanto Tyler Brock proclamam que até o Natal terão nos humilhado e estarão de posse de nosso camarote de organizador de corridas no hipódromo de Happy Valley. A votação para o novo organizador foi ontem. Pelos desejos de seu avô, como em seu nome, mais uma vez lhe dei a bola preta. Deus me perdoe, mas odeio tanto meu pai que isso quase me deixa louca.
Terceiro: a cilada em que você caiu! Não pude acreditar em meus ouvidos sobre essa “festa de noivado “até que a notícia foi confirmada. Torço para que, a esta altura, com a ajuda de Deus, seu bom senso tenha voltado e possa compreender o que lhe aconteceu. Por sorte, você não pode casar sem a minha aprovação, muito menos com a filha católica de um escroque fugitivo (há mandatos judiciais para prendê-lo por suas dívidas). Por uma questão de justiça, devo dizer que entendo a sua situação. Gordon Chen explicou como seria fácil para um jovem como você ser envolvido; portanto, não se desespere. Temos um plano que o arrancará das garras dessa mulher e provará sem a menor sombra de dúvida que ela não passa — sinto muito, meu filho, mas tenho de ser rude — de uma jezebel.
Quando você casar, sua esposa deve ser inglesa, temente a Deus, nunca uma herege, uma dama de boa família, bem-educada e à vontade na SOCIEDADE, digna de ser sua esposa, com um dote apropriado, e qualidades para ajudá-lo em seu futuro. Quando chegar o momento você poderá escolher entre muitas damas condizentes.
Pela mesma correspondência, escrevi para o Dr. Hoag, e também para McFay, expressando meu choque por ele ter permitido que esse noivado estúpido ocorresse. Aguardo ansiosa o momento de abraçá-lo de novo, dentro de poucos dias. Sua mãe afetuosa.
Quase que no mesmo instante, Jamie entrara correndo no quarto, o rosto branco.
— Ela já sabe!
— Também recebi uma carta. Mas não importa.
— Oh, Deus, Malcolm, você não pode se limitar a dizer que não importa! — balbuciara McFay, quase incoerente. Ele estendera a carta que tremia em sua mão. — Tome aqui. Leia você mesmo.
A carta, sem qualquer forma de cumprimento, tinha apenas a assinatura de Tess Struan:
A menos que tenha uma explicação satisfatória do motivo pelo qual permitiu que meu filho (embora ele seja o tai-pan, você deve saber que ainda é menor) se tornasse noivo, sem primeiro obter minha aprovação... a qual DEVE saber que nunca seria concedida, para uma união tão absurda, deixará de ser o chefe da Struan no Japão ao final do ano. Ponha o Sr. Vargas no comando por enquanto e volte com meu filho no navio de correspondência, para resolver essa questão.
Struan devolvera a carta, furioso.
— Não voltarei para Hong Kong agora... só irei no momento em que eu decidir.
— Por Deus, Malcolm, se ela nos ordena que voltemos, então é melhor obedecermos. Há motivos para...
— Não! — explodira ele. — Será que não entende? NÃO!
— Abra os olhos para a verdade! — gritara McFay também. — Você ainda é menor, ela dirige a companhia, há muitos anos. Estamos sob suas ordens e...
— Não estou sob as ordens dela, nem de ninguém! E agora saia!
— Não vou sair, não! Será que não pode perceber que é sensato o que ela pede, não tem nada de difícil? Podemos voltar para cá em duas ou três semanas. Você terá de obter a aprovação de sua mãe em algum momento e, certamente, melhor tentar agora. Abriria o caminho para você, tornaria o nosso trabalho muito mais fácil...
— Não! E... e estou cancelando as ordens dela. A partir de agora, terá de obedecer às minhas ordens. Sou o tai-pan da Struan!
— Deve saber que não posso ficar contra ela!