Выбрать главу

Struan quase tropeçou, a caminho da igreja, ao recordar a terrível pontada de dor nos lombos quando, sem pensar, levantara-se de um pulo e gritara para McFay:

— Tenho de lembrá-lo do seu juramento sagrado de servir ao tai-pan, ao TAI-PAN, pelo amor de Deus, quem quer que ele seja, não à porra da sua mãe? JÁ ESQUECEU?

— Mas você não...

— A quem você vai obedecer, Jamie? A mim ou à minha mãe?

Um vasto abismo abrira-se entre os dois, houvera mais raiva, mais palavras, mas ele acabara prevalecendo. Era uma batalha de cartas marcadas. A cláusula constava de todos os contratos de trabalho, as pessoas tinham de assinar e ainda jurar por Deus, de acordo com as instruções do fundador.

— Está bem, eu concordo! — dissera McFay, entre os dentes semicerrados. — Mas exijo... desculpe, solicito o direito de escrever para ela e comunicar minhas novas ordens.

— Faça isso e envie a mensagem pelo navio de correspondência. Aproveite para informar que o tai-pan ordenou que você permaneça aqui, que somente eu posso despedi-lo, e é o que farei, se tiver algum problema... e que se quero ficar noivo, menor ou não, a decisão cabe apenas a mim.

Depois, ele tornara a arriar na cadeira, quase dobrando de dor.

— Por Deus, tai-pan — balbuciara McFay —, ela vai me dispensar, quer você goste ou não. Estou perdido.

— Ela não pode dispensá-lo sem a minha concordância. Está em nossos estatutos.

— É possível. Mas quer você goste ou não, ela pode converter minha vida e a sua num inferno.

— Não, porque você está apenas fazendo o que eu quero. Encontra-se nos limites da lei de Dirk... e é isso o que a governa, acima de todo o resto.

Ele recordara as inúmeras ocasiões em que a mãe invocara o nome de Dirk Struan para seu pai, para ele, ou para seus irmãos e irmãs, numa questão de negócios, de moral ou da própria vida. E o pai e a mãe disseram mil e uma vezes que eu seria o tai-pan depois dele, e todos aceitaram, em particular tio Gordon. As formalidades podem esperar, ela apenas tenta usar um pretexto adicional para me controlar... afinal, fui preparado durante toda a minha vida para o cargo, sei como lidar com ela e sei qual é o problema aqui.

— Sou o tai-pan, e agora... agora, se me dá licença, tennho muito trabalho a fazer.

No instante em que ficara sozinho, ele gritara por Ah Tok.

Foi uma ocasião em que eu realmente precisava do medicamento, funcionava muito bem, salvou-me de toda aquela dor e angústia, proporcionou-me coragem de novo, e mais tarde um momento feliz com Angelique. Ah, meu anjo de volta à suíte ao lado da minha, graças a Deus, tão próxima, tão atraente, tão sedutora mas eu bem que gostaria que a ânsia não surgisse ao pensar nela, e que isso não levasse à dor mais intensa, com a manhã ainda nem atingindo a metade, um sermão interminável pela frente, um almoço para suportar... e mais de oito horas até o próximo...

— Desculpe por ontem — disse McFay. — Sinto muito.

— Não foi nada. Serviu para expor os problemas e acertá-los — respondeu Struan, com uma estranha força. — Agora a companhia tem um líder autêntico Admito que meu pai não era muito eficaz e passou a maior parte dos seus últimos anos embriagado, com a mãe fazendo o melhor que podia, mas que não foi suficiente para nos manter à frente da Brock... vamos ser francos e reconhecerque eles são mais fortes, mais ricos e mais sólidos do que nós e que teremos muita sorte se resistirmos à atual tempestade. Veja o caso do Japão... as operações aqui mal dão para pagar as despesas.

— Tem razão, a curto prazo, mas não podemos esquecer que serão bastante lucrativas a longo prazo.

— Não da maneira como você as tem dirigido até agora. Os japoneses não nos compram quaisquer mercadorias lucrativas. Nós compramos seda e bichos-da-seda, uns poucos objetos laqueados e o que mais? Nada de valor. Eles não têm indústrias e parecem não querer nenhuma.

— É verdade, mas devemos lembrar que a China demorou anos para se abrir. E ali temos o ópio, o chá e a prata.

— Tem razão, mas a China é diferente. Existe ali uma civilização antiga e refinada. Temos amigos na China e, também, como você costuma dizer, um padrão de comércio. Minha opinião é de que devemos acelerar as coisas aqui para sobreviver ou fecharmos.

— Assim que Sir William resolver o problema com o Bakufu...

— Que se dane isso! — exclamou Struan, a voz estridente.— Estou cansado de ficar empacado numa cadeira e ouvir as pessoas dizerem que devemos esperar até que Sir William ordene que a esquadra e o exército cumpram o seu dever. Quero estar presente na próxima reunião com o Bakufu... ou melhor ainda, arrumaremos uma reunião particular para mim primeiro.

— Mas, tai-pan...

— Cuide disso, Jamie. É o que quero. E providencie depressa.

— Não sei como é possível.

— Pergunte ao samurai domado de Phillip Tyrer, Nakama. Melhor ainda, promova um encontro secreto com ele, para que Phillip não fique comprometido.

McFay transmitira-lhe todas as informações fornecidas por “Nakama”.

— É uma boa idéia — declarou ele, com sinceridade, animado com o queixo erguido e fogo que ardia em Struan. Talvez, depois de muito tempo, pensou e haja alguém aqui que possa fazer com que as coisas aconteçam. — Falarei com Phillip logo depois da igreja.

— Quando parte o próximo navio para San Francisco?

— Dentro de uma semana, o mercante confederado Savannah Lady. — McFay baixou a voz, cauteloso, pois um grupo de mercadores passava por eles. — Nossa encomenda de Choshu segue nesse navio.

— Em quem podemos confiar para viajar no navio, numa missão especial? — perguntou Struan, pondo seu plano em execução.

— Vargas.

— Ele não, pois é necessário aqui.

Struan tornou a parar, as pernas doloridas, claudicou até o lado do passeio, onde havia um muro baixo, em parte para descansar, mas também para manter a conversa em particular.

— Quem mais? Tem de ser bom.

— O sobrinho dele, Pedrito... é um rapaz esperto, parece mais português do que Vargas, não tem nada de chinês em seu rosto, fala português, espanhol, inglês e cantonês... e é bom com os números. Seria aceitável, tanto no norte, quanto na confederação. O que tem em mente?

— Reserve passagem para ele nesse navio. Quero que ele siga com a encomenda, que vamos quadruplicar, e também pedir...

— Quatro mil fuzis? — murmurou McFay, espantado.