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— Isso mesmo. Mande também uma carta para a fábrica, pelo navio de correspondência de amanhã, avisando que devem esperá-lo. O navio fará conexão com o vapor da Califórnia que zarpa de Hong Kong.

McFay ressaltou, apreensivo:

— Mas só recebemos uma entrada em ouro para cobrir duzentos... teremos de pagar toda a encomenda, pois essa é a política da fábrica. Não acha que seria um risco excessivo?

— Algumas pessoas podem pensar assim, eu não.

— Mesmo com um carregamento de dois mil... o almirante fica histérico com a importação de armas de fogo e ópio... sei que ele não pode fazer nada por lei — acrescentou McFay —, mas, se quiser, ainda pode confiscar uma carga sob a alegação de emergência nacional.

— Ele não descobrirá nada, até ser tarde demais... você será esperto o suficiente para enganá-lo. Prepare uma carta para acompanhar o pedido, enviando uma cópia pelo navio de correspondência... cuide disso pessoalmente, Jamie, em sigilo... solicitando à fábrica um serviço especial para essa encomenda e também que nos nomeie seus agentes exclusivos para a Ásia.

— É uma excelente idéia, tai-pan, mas aconselho com veemência a não aumentar a encomenda.

— Faça um pedido de cinco mil fuzis e enfatize que negociaremos um contrato ainda mais atraente. Não quero que Norbert se antecipe a nós nesse negócio.

Struan recomeçou a andar, a dor pior agora. Sem olhar para McFay, sabia o que o outro estava pensando e disse, irritado:

— Não há necessidade de confirmar com Hong Kong primeiro. Faça o que estou mandando. Assinarei o pedido e a carta.

Depois de uma pausa, McFay acenou com a cabeça.

— Como quiser.

— Ótimo. — Ele percebeu a relutância na voz de McFay e decidiu que aquele era o momento. — Estamos mudando nossa política no Japão. Eles gostam de matar por aqui, não é mesmo? Segundo esse Nakama, muitos de seus reis estão dispostos a se revoltarem contra o Bakufu, que sem dúvida não é nosso amigo Pois vamos ajudá-los a fazer o que querem. Venderemos o que pedirem: armamentos, alguns navios, até mesmo uma fábrica de canhões, talvez duas, tudo em quantidades crescentes... em troca de ouro e prata.

— E se eles voltarem as armas contra nós?

— Uma única vez será suficiente para lhes ensinarmos uma lição, como aconteceu em todas as outras partes do mundo. Venderemos mosquetes, alguns fuzis de carregar pela culatra, mas não metralhadoras, nem os canhões maiores, nem os navios de guerra mais modernos. Daremos ao freguês o que ele quer comprar.

Angelique ajoelhou-se diante da tela do pequeno confessionário, ajeitou-se da melhor forma que as saias volumosas permitiam e iniciou o ritual, as palavras em latim saindo quase unidas, como era normal para os que não liam nem escreviam a língua, mas haviam aprendido as obrigatórias orações e responsas desde a infância, pela constante repetição.

— Perdoe-me, padre, pois eu pequei...

No outro lado da tela, o padre Leo estava mais atento do que o habitual. Em circunstâncias normais, escutava com a metade de um ouvido, certo de que seus penitentes mentiam, os pecados inconfessos, o nível de transgressão elevado — mas não maior que nas outras colônias na Ásia —, e as penitências que ordenava eram cumpridas apenas de uma maneira superficial ou totalmente ignoradas.

— Muito bem, minha criança, você pecou — disse ele, em sua voz mais agradável, com um francês de forte sotaque. Tinha cinqüenta e cinco anos, era corpulento e barbudo, ordenado há vinte e sete anos, em grande parte satisfeito com as migalhas de vida que julgava que Deus lhe permitia. — Que pecados cometeu esta semana?

— Esqueci de pedir perdão à Madona em minhas orações uma noite — respondeu ela, com uma calma absoluta, cumprindo seu pacto. — Também tive muitos pensamentos e sonhos ruins e fiquei com medo, esqueci que me encontrava nas mãos de Deus...

Em Kanagawa, no dia seguinte àquela noite — depois de pensar numa saída para sua catástrofe —, Angelique ajoelhara-se chorando diante do pequeno crucifixo que sempre levava a toda parte.

— Mãe de Deus, não há necessidade de explicar o que aconteceu e de como pequei de forma terrível — soluçara ela, rezando com todo o fervor de que era capaz. — Também não preciso explicar que não tenho ninguém a quem recorrer, ou que preciso desesperadamente de sua ajuda, ou que é óbvio que não posso contar a ninguém, nem mesmo na confissão, não ouso confessar o que ocorreu. Isso destruiria minha única chance... E ela acrescentara:

— Assim, de joelhos, eu lhe suplico, por favor, que façamos um pacto: quando eu disser na confissão esqueci de pedir perdão à Madona em minhas orações uma noite, isso significa na verdade que estou confessando, contando tudo o que lhe falei, e que viu acontecer comigo, junto com as pequenas mentiras que terei de inventar para me proteger. Suplico perdão por pedir isso, mas preciso de sua ajuda, não tenho mais ninguém a quem possa recorrer. Sei que vai me perdoar, e sei também que vai compreender, porque é a Mãe de Deus e uma mulher... vai compreender, e tenho certeza que me absolverá...

Ela podia ver o perfil de padre Leo por trás da tela, sentir o cheiro de vinho e alho em sua respiração. Suspirou, agradeceu à Madona, com toda força de seu coração, por ajudá-la.

— Perdoe-me, padre, pois eu pequei.

— Esses pecados não parecem ser tão terríveis, minha criança.

— Obrigada, padre.

Ela reprimiu um bocejo, preparando-se para aceitar a modesta penitência habitual, depois persignar-se, ser absolvida, agradecer ao padre e se retirar. Almoço no clube com Malcolm e Seratard, sesta em minha linda suíte ao lado dos aposentos de Malcolm, jantar na legação Rus...

— Que tipo de maus pensamentos você teve?

— Ora, apenas impaciência — respondeu Angelique, sem pensar. — E também não me sinto contente por me entregar nas mãos de Deus.

— Impaciência com o quê?

— Ahn... impaciência com minha criada — murmurou ela, confusa, tomada de surpresa. — E também porque meu noivo não se encontra nas melhores condições físicas, como eu gostaria.

— Ah, sim, o tai-pan é um excelente rapaz, mas neto de um grande inimigo da verdadeira igreja. Ele lhe falou sobre seu avô, Dirk Struan?

— Algumas histórias, padre — respondeu Angelique, ainda mais perturbada. Sobre a minha criada, fiquei impa...

— Malcolm Struan é um bom rapaz, não como o avô. Pediu a ele para se tornar católico?

A cor se esvaiu do rosto de Angelique.

— Já conversamos a respeito, mas é uma questão muito delicada, e é claro que não pode ser precipitada.

— Tem razão. — O padre Leo ouvira-a respirar fundo, percebera sua ansiedade. — E concordo que é de extrema importância, para ele e para você.