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O padre franziu o rosto, a experiência lhe dizendo que a moça escondia muita coisa... não que isso fosse algo fora do normal, refletiu ele.

Já ia deixar o assunto por aí, mas de repente compreendeu que se tratava de uma oportunidade concedida por Deus para salvar uma alma e ao mesmo tempo realizar um empreendimento valoroso. A vida em Iocoama, ao contrário do que acontecia em seu amado e feliz Portugal, era insípida, com pouco a fazer, exceto pescar, beber, comer e rezar. Sua igreja era pequena e pobre, seu rebanho escasso e ímpio, a colônia uma autêntica prisão.

— Tal conversa pode ser delicada, mas deve ser realizada. A alma imortal do seu noivo corre um risco total. Rezarei por seu sucesso. Seus filhos serão criados na Santa Madre Igreja... ele já concordou com isso, não é?

— Também já conversamos a respeito, padre — respondeu Angelique forçando um tom jovial. — Claro que nossos filhos serão católicos.

— Se não forem, você os lançará à danação eterna e sua alma imortal também correrá perigo. — Ele sentiu-se satisfeito ao ver Angelique estremecer. Ótimo, pensou, um golpe pelo Senhor, contra o anticristo. — Isso deve ser acertado formalmente antes do casamento.

O coração de Angelique disparara, a cabeça doía com a apreensão que tentou impedir que transparecesse na voz, acreditando absolutamente em Deus e no diabo, na vida eterna e na danação eterna.

— Obrigada por seu conselho, padre.

— Falarei com o Sr. Struan.

— Oh, não, padre, por favor, não! — suplicou ela, num súbito pânico. — Isso seria... sugiro que seria insensato.

— Insensato?

O padre contraiu os lábios, coçando distraído os piolhos que habitavam em sua barba, cabelos e batina velha, logo concluindo que o possível golpe da conversão de Struan era um prêmio pelo qual valia esperar, e que precisava de um cuidadoso planejamento.

— Rezarei pela orientação de Deus, e para que Ele a guie também. Mas não se esqueça de que é menor, assim como seu noivo. Suponho que, na ausência de seu pai, monsieur Seratard seria legalmente considerado como o tutor. Antes que qualquer casamento possa ser realizado ou consumado, a permissão deve ser concedida, e essas e outras questões resolvidas, para a proteção de sua alma.

Ele estava radiante, mais do que um pouco satisfeito.

— Agora, como penitência, diga dez ave-marias e leia as epístolas de são João duas vezes, até o próximo domingo... e continue a rezar pela orientação de Deus.

— Obrigada, padre.

Agradecida, Angelique persignou-se, inclinou a cabeça para a bênção.

In nomine Patri et Spiritu sancti, absolvo tuum. — O padre fez o sinal cruz sobre ela. — Reze por mim, minha criança.

O ritual estava encerrado, e o padre Leo já começava, em sua mente, com Malcolm Struan.

Ao crepúsculo, Phillip Tyrer sentava de pernas cruzadas, diante de Hiraga, numa pequena sala particular de um restaurante também pequeno, meio escondido ao lado da casa do shoya, o ancião da aldeia. Eram os únicos fregueses e aquela era a primeira refeição japonesa autêntica, com um anfitrião japonês, que Tyrer experimentava. Sentia fome, e estava disposto a provar tudo.

— Obrigado por me convidar, Nakama-san.

— O prazer é meu, Taira-san. Posso dizer que seu sotaque japonês está melhorando? Por favor, coma.

Sobre a mesa baixa, entre os dois, a criada pusera muitos pratos pequenos, com diferentes alimentos, alguns quentes, alguns frios, em bandejas decorativas laqueadas. Telas de shoji, tatames, pequenas janelas corrediças se abrindo para a escuridão crescente, lampiões a óleo irradiando uma luz agradável, arranjo de flores no canto. Havia ao lado outra sala particular e depois o resto do restaurante, não muito mais que um corredor, com janelas que davam para uma viela, que levava à rua — um braseiro para cozinhar, barris de saquê e cerveja, uma cozinheira e três criadas.

Hiraga e Tyrer usavam quimonos de dormir, com faixas folgadas. Tyrer desfrutava o conforto inesperado e Hiraga sentia-se aliviado por ter tirado os trajes europeus, que usara durante o dia inteiro. Os dois haviam se banhado e recebido massagens na casa de banhos próxima.

— Por favor, coma.

Desajeitado, Tyrer usou os pauzinhos. Em Pequim, a embaixada aconselhara a não aceitar alimentos chineses:

—... a menos que queira ser envenenado, meu caro. Esses patifes realmente comem cachorro, bebem bílis de cobra, empanturram-se com insetos, qualquer coisa, e possuem uma crença espantosa, mas universal, de que tudo sob o céu pode ser comido. Uma coisa horrível!

Hiraga corrigiu a maneira como ele usava os pauzinhos.

— Assim.

— Obrigado, Nakama-san. Muito difícil. — Tyrer soltou uma risada.— Não engordar vou comendo isto.

— Não vou engordar comendo isto — disse Hiraga, ainda não cansado de corrigir o japonês de Tyrer, pois descobrira que gostava de ensinar.

Tyrer era um discípulo capaz, com uma admirável memória e uma feliz disposição... e ainda mais importante para Hiraga, uma contínua fonte de informações.

— Ah, desculpe, não vou engordar comendo isto. Mas o que é esta comida?

— É o que chamamos de tempura, peixe frito na massa de farinha com ovos.

— Como é feito?

Tyrer escutou a explicação com absoluta atenção, perdendo muitas palavras, mas compreendendo o essencial, assim como sabia que o outro homem também perdia muitas palavras em inglês. Falamos mais inglês do que japonês, pensou ele, contrariado, mas não importa. Nakama é um grande mestre e parece que chegamos ao melhor acordo possível — sem ele, eu não estaria aqui, provavelmente já teria morrido, e com certeza nunca alcançaria o prestígio que adquiri com Marlowe Pallidar e Wee Willie Winkie, muito menos obteria as valiosas informações que me são fornecidas. Tyrer sorriu. Agradava-lhe ser capaz de pensar em Sir William agora pelo apelido, quando apenas poucos dias antes tinha pavor do homem.

— Ah, agora entendo! Também usamos uma massa assim!

— Essa comida a seu gosto, Taira-san? — perguntou Hiraga, passando para o inglês.

— Sim, obrigado. — Sempre que podia, Tyrer respondia em japonês.— Obrigado por tudo, massagem, banho, agora camo, desculpe, agora calmo e feliz.

Alguns dos alimentos ele achava saborosos, como tempura eyakitori, pedaços de galinha grelhados com um molho agridoce. Descobrira que anago era enguia grelhada com um molho doce-azedote, que apreciava bastante. Sushi, fatias cruas de peixe, de diferentes cores e texturas, sobre uma bola de arroz, fora difícil de engolir a princípio, mas tornava-se saboroso quando mergulhado num misterioso molho salgado, chamado soy ou soya. Afinal, pensou ele, o pai me aconselhou a experimentar tudo: