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— Meu filho, já que insiste nessa idéia drástica de se tornar intérprete de japonês, então aconselho que mergulhe no modo de vida deles, seus alimentos, e assim por diante... sem esquecer que é um cavalheiro inglês, com suas obrigações, um dever cora a coroa, o império e Deus...

Ele se perguntou o que o pai diria a respeito de Fujiko. Ela é sem dúvida parte do modo de vida deles. Radiante, Tyrer apontou com um pauzinho.

— O que é isto?

— Oh, desculpe, Taira-san, mas é falta de educação apontar com a extremidade fina do rashi. Por favor, use a outra extremidade. Isto é wasabeh.

Antes que Hiraga pudesse detê-lo, Tyrer pegou o nódulo de pasta verde e pôs na boca. No mesmo instante, sua boca pegou fogo, ele ofegou, os olhos lacrimejando, quase cego. A ardência passou depois de algum tempo, mas deixou-o ofegante.

— Por Deus — disse Hiraga, copiando Tyrer, esforçando-se para não rir. — Wasabeh não se comer, apenas pôr um pouco no soy para torná-lo picante.

— Engano meu — balbuciou Tyrer, ainda meio sufocado. — Por Deus, isso é letal, pior do que pimenta! Próxima vez, eu cuidadoso.

— Muito bom para homem que começa, Taira-san. E aprender japonês bem depressa, muito bom.

— Domo, Nakama-san, domo.

O mesmo com você, em relação ao inglês. Satisfeito com o elogio, Tyrer concentrou-se em ser mais hábil. A próxima coisa que experimentou foi tako, tentáculo de polvo. Tinha um gosto de borracha, mesmo com soy e wasabeh.

— Isto é saboroso, gosto muito.

Estou faminto, pensou Tyrer. Gostaria de mais galinha, outra tigela de arroz, mais vinte camarões no tempura. Hiraga come que nem um bebé. Mas não importa. Tenho um samurai como anfitrião, não faz uma semana que ele nos ajudou a sair da legação em Iedo sem um incidente internacional, não se passaram seis semanas desde que conheci André e já sei falar um pouco de japonês, já sei mais sobre os seus costumes que a maioria dos mercadores, que aqui se encontram desde o início. Se puder continuar assim, serei promovido a intérprete oficial em poucos meses e ganharei um salário condizente... quatrocentas libras por ano! Hurra... ou Banzai, como dizem os japoneses. Na atual taxa de câmbio, posso muito bem comprar outro pônei, mas antes disso...

Seu coração se acelerou.

Antes disso, comprarei o contrato de Fujiko. Nakama prometeu ajudar e assim não terei problemas. Ele garantiu. Talvez possamos começar esta noite... graças a Deus, Fujiko voltou da visita à avó. Creio que não deveria, porque hoje é domingo, mas não importa. Karma.

Ele suspirou. Entre André e Nakama descobrira essa palavra e a maneira maravilhosa como se tomara uma panaceia para todos os acontecimentos, bons ou maus, sobre os quais não tinha controle.

— Karma!

— O quê, Taira-san?

— Nada. A comida é boa.

— A comida é boa — arremedou Hiraga. — Obrigado, eu satisfeito.

Ele pediu mais cerveja e saquê. A porta de shoji foi aberta e as bebidas apareceram, numa bandeja trazida por uma criada de rosto jovial, que ofereceu um sorriso radiante a Hiraga e outro tímido a Tyrer. Quase sem pensar, Hiraga acariciou sua bunda.

— Gostaria de experimentar Sobre a Montanha?

— Mas que homem terrível! Sobre a Montanha? Oh, não, não, para mim nem sob, mas posso tocar a flauta, por um oban de ouro!

Ambos riram, pois um oban de ouro era preço afrontoso, a taxa que uma cortesã de primeira classe poderia cobrar por um serviço assim. A criada serviu o saquê, encheu a caneca de Tyrer e se retirou.

— O que ela diz, Nakama-san?

Ele sorriu.

— Sinto muito, difícil explicar, ainda não ter palavras suficientes. Apenas gracejo, gracejo homem-mulher, entende?

— Wakarimasu. Igreja hoje, você gostar?

Com a aprovação de Sir William e o ansioso consentimento do reverendo Michaelmas Tweet, ele levara Hiraga para a galeria do coro. Vestindo as suas novas roupas ocidentais, aprontadas com a habitual e inacreditável rapidez pelo alfaiate japonês, Hiraga passava por eurasiano, mal sendo notado. A não ser por Jamie McFay, que piscara discretamente.

— Igreja boa, sua explicação também — respondeu Hiraga.

Por dentro, no entanto, ele ainda tentava colocar todas as informações de Tyrer na devida perspectiva, assim como a espantosa visão de todos aqueles homens adultos e duas mulheres de aparência repulsiva, cantando em uníssono, levantando, sentando, entoando solenes as orações, inclinando a cabeça, para o Deus muito estranho dos gai-jin, que era na verdade, como Tyrer explicara depois do serviço três pessoas ao mesmo tempo, o Pai, o Filho, que fora crucificado como um criminoso comum, e um kami.

— So ka? — dissera Hiraga, perplexo. — Assim, Taira-san, mulher nome Madona não deus tem filho Deus... mas ela não Deus... e ela deitar com kami que não Deus, mas como hatomoto de Deus com asa, que não marido, e marido que também não Deus, mas pai é, assim pai de seu filho ser avô, neh?

— Não, não houve travesseiro. Deve entender...

Ele tornara a escutar e acabara fingindo que compreendia, a fim de poder interrogar Taira sobre a hostilidade entre as duas igrejas, pois notara que a mulher de Ori não se encontrava presente ali, e perguntara por quê. Duas igrejas, igualmente poderosas, sempre em guerra! E Ori queria que eu renunciasse a essas informações. Baka!

E quando, a cabeça doendo de tanta concentração, ele descobrira a razão para o cisma — e a resultante escalada de ódio, matanças e guerras universais —, tivera certeza de que em algumas áreas os gai-jin eram totalmente loucos: a divisão ocorrera apenas porque um velho bonzo chamado Lutero, trezentos e tantos anos antes, apresentara uma interpretação diferente de alguma pequena questão de dogma, que havia sido inventada por outro bonzo quatorze ou quinze séculos antes dele. Esse homem, obviamente outro doido, determinara, entre outras coisas, que a pobreza devia ser procurada, e que não deitar com mulheres mandaria um homem, depois da morte, para um lugar chamado Paraíso, onde não havia saquê, nem comida, nem mulheres, e ele se transformava numa ave.

Os bárbaros estão além da compreensão. Quem poderia querer ir para um lugar assim? Qualquer um podia perceber que o velho bonzo era como qualquer outro tolo ambicioso e descontente, que apenas queria, depois de uma vida inteira fingindo ser casto, ter uma esposa ou concubina, como qualquer bonzo ou homem comum que tivesse um pouco de sensatez.

— Taira-san — murmurara ele, atordoado —, precisar banho, massagem, saquê, você também, depois comida. Vir comigo, por favor.

A princípio, ele se preocupara com o convite. O ancião da aldeia, o shoya, poderia assim descobrir que ele falava inglês.