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— O que é, Ryoshi-san?

— Há várias coisas que deve saber, Otami-sama.

O homem de rosto forte serviu chá verde nas xícaras pequenas, de um bule de ferro em miniatura. O chá era magnífico, tão excepcional quanto as xícaras de porcelana fina, aromático e delicado. O pressentimento de Hiraga aumentou. O shoya tomou um gole, depois tirou um pergaminho da manga e abriu-o. Era outra cópia do cartaz: O Bakufu oferece uma recompensa de dois koku por este revolucionário assassino de muitos nomes, um dos quais é Hiraga...

Hiraga pegou o cartaz, fingindo que era a primeira vez que o via. Soltou um grunhido, numa atitude neutra, e devolveu o cartaz.

O homem mais velho encostou a ponta na chama da vela. Ambos observaram o papel se enroscar, virar cinza, ambos sabendo que o disfarce de Hiraga, com o novo corte de cabelo, crescendo depressa, era muito bom.

— O Bakufu tornou-se obcecado na perseguição aos nossos bravos shishi.

Hiraga acenou com a cabeça, mas não disse nada, esperando. Distraído, o shoya afagou o gato, que ronronou baixinho.

— Dizem que lorde Yoshi está enviando um emissário para negociar armas com o chefe gai-jin. Com toda certeza, um lorde de sua posição ofereceria preços mais altos do que... do que emissários de Choshu. — Uma pausa, e ele acrescentou: — Os gai-jin venderão a quem pagar mais.

Hiraga já ouvira falar dos samurais de Choshu que visitaram a Casa Nobre por intermédio de Raiko — quase todos na Yoshiwara estavam a par das negociações — e convencera-se de que, se soubesse seus nomes verdadeiros, haveria de conhecê-los pessoalmente, ou pelo menos suas famílias. Apenas um ano antes, um meio-irmão, que também cursara a escola de inglês em Shimonoseki, integrara a equipe enviada para comprar as primeiras cem armas de fogo. É curioso que seja na mesma companhia possuída pelo tai-pan que em breve estará morto, pensou Hiraga, tanto ele quanto sua mulher, e todos naquela cloaca do mal.

— Os gai-jin não têm honra.

— Repulsivo. — Outro gole de chá. — Há muita atividade no castelo em Iedo. Dizem que o xógum e a princesa imperial planejam partir para Quioto dentro de uma ou duas semanas.

— Por que fariam isso? — indagou Hiraga, simulando um desinteresse que não enganava a nenhum dos dois.

O homem mais velho riu.

— Não sei, Otami-san, mas é muito curioso que o xógum deixe seu covil neste momento para viajar por muitos quilômetros perigosos, a fim de visitar o covil de muitos inimigos, quando sempre mandou um lacaio, desde o início.

O gato esticou-se e o shoya coçou sua barriga, enquanto acrescentava pensativo:

— Os roju estão aumentando os tributos em todas as terras de Toranaga, para pagar por quaisquer quantidades de armas e canhões que possam ser compradas, exceto por Satsuma, Tosa e Choshu.

Hiraga sentiu a ira latente do shoya, embora nada transparecesse, nem mesmo seu divertimento: Para que servem os camponeses e mercadores, se não para pagar tributos?

— A menos que o filho do céu possa usar seu poder celestial, o Bakufu vai outra vez mergulhar o Nipão numa eterna guerra civil.

— Concordo.

Hiraga pensou: Até que ponto concorda realmente, velho? Ele pôs essa questão de lado, para ponderar sobre a melhor maneira de desviar o Bakufu e Yoshi Toranaga desse curso. Akimoto deveria partir de imediato para Iedo e a casa da Glicínia, pois há dias que não temos notícias de Koiko e sua mama-san... talvez devêssemos ir jun...

— Por fim, parece que seu amigo shishi, Ori-san, não foi para Quioto, como estava planejado — informou o shoya.

Os olhos de Hiraga tornaram-se frios, quase como os de um réptil. O shoya conteve um tremor. Alerta no mesmo instante, o gato se ergueu num movimento suave e observou, cauteloso. Hiraga rompeu o silêncio:

— Onde ele está?

— Naquela parte da colônia onde os gai-jin de baixa classe vivem, bebem e fornicam.

Perto da meia-noite, André Poncin bateu na porta da Casa das Três Carpas. O porteiro deixou-o entrar no mesmo instante. Raiko recebeu-o muito bem, e logo estavam tomando saquê, conversando sobre as últimas notícias da Yoshiwara e da colônia — ela era uma fonte de informações para André e vice-versa —, na mistura habitual de japonês e inglês.

—... e a patrulha de vigilantes revistou todas as casas, Furansu-san! Como se escondêssemos criminosos! É contra as regras da Yoshiwara. Sabemos como manter cheias nossas tigelas de arroz: promovendo a paz e evitando as encrencas. Os vigilantes continuam no portão principal, olhando furiosos para os transeuntes.

Raiko abanou-se, recordando sua fuga por um triz, e desejou nunca ter convidado os shishi para se refugiarem em sua casa. É tempo de todos irem para longe daqui, pensou ela, vigilantes e shishi, por mais que eu goste de Hiraga.

— Eu gostaria que eles fossem embora.

— Que criminosos procuram? — perguntou André.

— Traidores, em geral os ronin. Mas qualquer um contra eles é um traidor. Os ronin são as presas habituais.

— O Bakufu pode ser derrubado? Uma revolução?

Ela riu baixinho, esvaziou o frasco, pegou outro.

Bakufu é como piolhos numa prisão... você destrói mil e só faz abrir espaço para mais cem mil. Não, o Bakufu e o xogunato são o Nipão, conosco para sempre.

— Taira-san esta noite aqui?

Raiko sacudiu a cabeça.

— A mulher que ele queria não estava disponível. Ofereci outra, mas ele recusou e foi embora. Curioso, neh? Um jovem curioso, em muitas coisas, embora talvez um bom freguês. Obrigada por apresentá-lo à minha humilde casa.

— Esse japonês, sensei, o mestre, o samurai que Taira descobriu... quem é ele, Raiko?

— Não sei. Ouvi dizer que é um homem de Iedo e mora agora na colônia, na aldeia.