Выбрать главу

— Taira-san fala com Fujiko sobre ele?

— Ela nunca mencionou, mas também não perguntei. Talvez eu saiba alguma coisa na próxima vez, Furansu-san.

André não acreditava nela, mas também não tinha importância, pensou ele; quando estiver disposta, Raiko me contará tudo o que sabe.

— Arrumou o medicamento?

— Claro. Tudo o que eu puder fazer para ajudar um cliente predileto é meu propósito na vida.

Ele pôs na mesa o par de brincos de pérolas. Os olhos de Raiko faiscaram. Não fez qualquer movimento para pegá-los, mas André teve certeza que ela os avaliara mentalmente no mesmo instante, determinando a qualidade, o custo e o valor de revenda.

— Pediram-me que lhe desse isto como presente — comentou ele, jovial. Raiko sorriu, insinuante, fingiu estar emocionada, embora já soubesse que o pagamento seria em jóias, que não poderiam ser revendidas em Iocoama. Seus dedos tremiam quando estendeu-os para pegar os brincos. Mas André se antecipou, recolheu-os, simulou que os examinava com o máximo de atenção.

Seu plano para Angelique funcionara com perfeição. Criados da Casa Nobre haviam vasculhado as ruas em vão. A ansiedade e as lágrimas de Angelique foram genuínas e ela sussurrara em particular:

— Oh, André, fiz o que era certo? Malcolm ficou transtornado... eu não tinha idéia de que os brincos eram tão caros.

— Mas ele não disse para você assinar tudo o que quisesse? Não é culpa sua não ter perguntado o preço... e ele gostou das abotoaduras, não é?

— Gostou, sim, mas...

— Sobrará o suficiente para alguma necessidade... um crédito contra qualquer eventualidade, Angelique.

André sorriu para si mesmo e voltou a concentrar sua atenção em Raiko.

— Vale muitas vezes o custo do medicamento.

— O preço de compra, sem dúvida. Mas tenho de mandar para a Yoshiwara de Iedo ou de Nagasáqui. Uma venda difícil. Mas, por favor, não se preocupe. Ajudarei a se livrar de uma criança indesejada.

— Não é minha — protestou ele, um tanto brusco.

— Ah, por favor, desculpe. — Raiko acreditou nele e refletiu que era melhor assim, bastante aliviada, pois não queria mais complicações com aquele cliente.

— Não é da minha conta.

— Só estou ajudando a amiga de um amigo. Na cidade dos bêbados.

— Por favor, desculpe-me. Ele sorriu, sem qualquer humor.

— Conhece pérolas. Estas valem cinqüenta vezes o custo do medicamento Raiko manteve o sorriso, a voz suave, mas por dentro estava rangendo os dentes.

— Mandarei avaliar. Claro que valem mais que o custo do medicamento.

— Sei disso.

André estendeu a mão aberta, e ela pegou os brincos. As pérolas eram quase pretas. Pérolas da ilha do Sul. Raiko encostou-as nos dentes, para sentir se eram frias, mordeu-as com extremo cuidado, mas não ficaram marcadas. Convencida agora de que eram genuínas e preciosas, ela murmurou:

— O preço, caro amigo?

— O preço é todo o medicamento, mesmo que falhe na primeira vez. O que for necessário, se a poção não fizer efeito, entendido? O que for preciso... qualquer coisa... para tirar a criança. Certo?

— Certo — concordou Raiko, feliz, sabendo que era um grande negócio. — Uma garantia... da remoção, da eliminação.

— Mais vinte oban de ouro — acrescentou ele, deliciado ao ver o rosto de Raiko se contrair num horror sincero, embora ainda fosse menos de um terço do que conseguiria na venda... o engaste era de pouco valor, mas ele cuidara para que o joalheiro chinês usasse apenas as melhores pérolas. Ela se lamentou, praguejou, barganharam por algum tempo, ambos apreciando a confrontação, ambos sabendo que o verdadeiro custo do medicamento e do conselho médico não representavam muita coisa para uma mama-san de bordel. Logo estavam prestes a fechar o negócio e foi nesse instante que o ânimo de Raiko mudou abruptamente; ela fitou-o de maneira estranha, gostando dele, triste por seu destino, e pensou: Devo interferir com o karma?

— O que é? — indagou André, desconfiado.

— Deixe-me pensar por um momento, Furansu-san.

Depois, numa voz muito diferente, afetuosa e suave, como nos velhos tempos, quando ele fora seu primeiro freguês, e oferecia vinho e jantar a toda a casa, para comemorar a abertura, Raiko disse:

— Desde que nos conhecemos, muita água passou sob muitas pontes, houve tempos de prazer e riso em nosso mundo flutuante e também, como acontece nessa vida, de tristeza e um lago de lágrimas, mas não por opção minha. Lembrei de repente que a última vez em que barganhamos assim foi pelo contrato de Hana.

O rosto de André transformou-se numa máscara.

— Não vamos falar de Hana.

— Ah, sinto muito, mas eu gostaria, por favor, porque posso ter uma solução para ela.

— Não há nenhuma — protestou ele, irritado. — Não há cura, Hana morreu, e nada tem a ver com pérolas!

— Tem razão. Por favor, fique calmo e escute. Talvez eu possa encontrar outra Hana, parecida, mas que já tenha a doença chinesa.

— Não é possível! — exclamou André, chocado. — A doença é horrível.

— Pode ser, perto do fim — insistiu ela, paciente. — Muitas vezes nada aparece por anos. Você não é feio, nada aparece no seu rosto, Furansu-san... talvez se passem anos antes que a doença se manifeste. Depende do seu karma. Devo procurar uma jovem nessas condições?

Ele fez menção de falar, desistiu, sacudiu a cabeça.

— Se eu conseguisse encontrar uma nova Hana, Furansu-san, e se você...

— Não é possível.

—... se você a aprovasse, e ela também o aprovasse, poderiam ficar juntos até... até que você decida... — Raiko deu de ombros. — Nunca importa o futuro, hoje é hoje, e esta é a regra do nosso mundo flutuante. Manteria a moça aqui, eu providenciaria a construção de uma nova casa, pois a outra foi destruída, como não podia deixar de ser. Você a trataria como Hana, em todas as coisas, o mesmo preço de contrato, o mesmo dinheiro mensal para roupas e alojamento, e ela o servirá com exclusividade.

Os olhos de Raiko o fixavam, e André compreendeu que ela podia ver em sua alma, contemplá-lo a se contorcer numa esperança súbita e frenética, ansiando em aceitar o que o livraria do tormento — a notícia do seu karma viajara com a velocidade da luz e, agora, todas as casas vedavam o seu acesso, com extrema polidez, sem dúvida, mas ainda assim o impediam de chegar a qualquer travesseiro, o que só era possível na cidade dos bêbados — mas também seria uma eterna espada de Dâmocles pairando sobre sua cabeça. E, ainda pior, seu ímpeto sexual não diminuíra, ao contrário, aumentara, a obsessão maior do que antes, e que já o levara à insanidade de duas noites atrás, com Angelique, não que deixasse de desejá-la agora, ainda a queria, com mais intensidade do que nunca, e sabia que, sem um meio de descarregar, tentaria de novo, e não falharia na próxima vez. Mãe Abençoada, ajude-me, pensou ele, quase em lágrimas, pois não quero infeccioná-la também.