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— Há outra possibilidade — continuou Raiko, com um olhar estranho. — Podemos conversar sobre isso depois. Agora, Hana.

— Não quero falar sobre Hana!

— Tenho de fazê-lo, Furansu-san. Agora. Queria saber como ela morreu, neh?

Ele focalizou os olhos, quase parou de respirar, enquanto ela acrescentava:

— Depois que você foi embora correndo, naquela noite, e ela me contou o motivo, chorando, também fiquei chocada. Mandei que deixasse a casa e insultei-a com veemência, embora fosse como uma filha para mim. Claro que você estava certo e deveria tê-la matado, não apenas agredido, antes de ir embora, e claro que a mama-san dela deveria ter me contato, e ela própria me avisado no mo...

— Fale devagar... mais devagar.

— Por favor, desculpe, mas é muito difícil devagar. Ela deveria ter me comtado no momento em que soube. Fiquei furiosa e deixei que ela tentasse alcançá-lo, o que não conseguiu. E foi então que uma das criadas... Mieko... veio me avisar que Hana tentara o haraquiri...

Raiko suava agora. Não fora a primeira tentativa de suicídio em que estive envolvida. Houvera dezenas em seus quarenta e cinco anos como aprendiz, cortesã e mama-san... afinal, ela nascera no mundo dos salgueiros, sua mãe uma cortesã especialista do segundo grau. Muitas tentativas tiveram êxito, poucas por faca, a maioria por veneno ou afogamento, alguns suicídios duplos, entre amantes, o homem sempre pobre, às vezes até samurai. Mas o de Hana fora o pior.

Quando entrara correndo no quarto, Raiko encontrara a jovem em agonia chorando, desamparada, o pescoço cortado várias vezes, mas sem nenhuma veia ou artéria rompida, e a traquéia apenas arranhada. Um pouco de ar borbulhava do corte, que sangrava bastante, mas não de forma letal. Ela estava arriada nos futons, a faca bem perto, mas a mão não conseguia empunhá-la, e cada vez que ela tentava erguê-la, escapulia de seus dedos, e durante todo o tempo Hana chorava, sufocava e vomitava, suplicando perdão, balbuciando... ajude-me... ajude-me... ajude-me...

— Ela se encontrava além de todo e qualquer desejo de vida, Furansu-san — comentou Raiko, com uma profunda tristeza.— Já vi muitas assim e tenho certeza. Se sobrevivesse, haveria de tentar de novo e de novo, sem desistir. Neste mundo, pelo menos no nosso, chega um momento em que é bom e sábio ir para o além. Acabamos com o sofrimento de animais... é certo proporcionar o mesmo alívio a uma pessoa. Por isso, nós a ajudamos. Tratamos de acalmá-la e limpá-la, ajudamo-la a sentar, ela teve tempo de dizer Namu Amida Butsu, e depois segurei a faca sob sua garganta, e Hana caiu por cima, serena. Foi assim que ela morreu.

— Você... em parte... a matou?

— Era meu dever, como sua mama-san.

Raiko tornou a hesitar, suspirando. Não havia necessidade de mais lágrimas. Há muito que foram derramadas. Não me restou mais nenhuma. Quantas vezes, quando tinha a idade de Hana, odiando minha vida e a maneira como tinha de ganhar meu arroz, não cogitei da mesma fuga, uma ocasião até cortei os pulsos, para ser socorrida e salva por minha mama-san, que me aplicou uma surra impiedosa, assim que fiquei boa. Mas ela estava certa, minha mama-san, assim como eu, porque sabia que minha intenção não era tão determinada quanto a de Hana, e agora não posso sequer recordar o rosto do rapaz que ela me proibira, só me lembro que era um poeta

— Antes de morrer, Hana pediu-me que lhe transmitisse seu pedido desculpas. Que suplicasse perdão por ela.

— Você... você perdoa?

Que estranha pergunta!, pensou Raiko, surpresa.

— Hana era como flor de cerejeira do ano passado, dispersa pelo vento, não há necessidade de perdoar ou deixar de perdoar. Apenas uma pétala do mundo dos salgueiros. Ela existiu, mas não existiu. Pode compreender?

Na maior confusão, André acenou com a cabeça, sem entender todas as palavras, mas compreendendo o que ela fizera e o motivo. Odiava-a e abençoava-a, sentia-se aliviado, triste, suicida, cheio de esperança.

— Três homens, três antes de mim. Quem?

— Não sei, sinto muito, exceto que eram japoneses. Verdade.

Raiko falou com os olhos limpos, os nomes gravados no seu coração mais secreto, esperando para usá-los se fosse necessário, a favor ou contra o Bakufu.

— Sobre isto... — Ela abriu a mão. As pérolas faiscaram à luz do lampião a óleo, sedutoras. — Vamos combinar que eu lhe darei um terço do que obtiver com a venda, mais todos os medicamentos, e o mais que for necessário. Um terço seria...

Ela parou de falar subitamente, quando amiga na cidade dos bêbados adquiriu a definição apropriada.

O medicamento é para a mulher que vai casar com o tai-pan, disse a si mesma, excitada. Afinal, foi ela quem teria perdido alguma jóia ontem e não pensei duas vezes a respeito. Só pode ser ela, as pérolas confirmam... e, se é ela, o aborto ser sem a aprovação ou conhecimento do tai-pan, caso contrário Jami-san seria o intermediário, não Furansu-san.

— Um terço seria justo — declarou Raiko.

Já ia acrescentar, presunçosa, “para a jovem gai-jin que vai casar com o tai-pan”, mas percebeu o olhar sombrio com que Furansu-san contemplava sua xícara e concluiu que não havia necessidade ainda de revelar que deduzira “quem”.

Esta noite foi muito lucrativa, pensou ela, exultante. O conhecimento de um aborto secreto por uma dama tão importante a ser guardado, ou revelado, pode ser extremamente valioso, para a própria dama, antes ou depois do casamento, ou para esse tai-pan, que é tão rico quanto Adachi de Mito, antes ou depois do casamento, ou até mesmo para um dos seus muitos inimigos.

Depois: através de Hiraga, tenho esse Taira preso com firmeza ao portão de jade de Fujiko... o que há nessa mulher para tanto atrair olhos redondos? E, por último, mas nem por isso menos importante, a solução para Furansu-san, meu precioso espião gai-jin, aflorou.

Raiko sentiu vontade de gritar de alegria, mas teve o cuidado de conservar sua expressão mais modesta e sincera.

— Um terço, Furansu-san?

Desolado, ele fitou-a, balançou a cabeça em concordância.

— Avisou à dama que há um risco?

— Que risco? Disse que o medicamento faz efeito na maioria das vezes.

— É verdade, na maioria das vezes. Mas se não der certo, nós... Ora, não vamos nos preocupar com isso agora. Vamos esperar que Buda sorria para ela e que seu karma seja ter uma libertação sem problemas, para depois aproveitar as coisas boas da vida. — Raiko fitou-o nos olhos. — E você também. Neh?