André sustentou seu olhar.
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Quinta-feira, 6 de novembro:
Sua queridíssima Colette: As semanas passaram correndo; amanhã é meu dia especial, escreveu Angelique, excitada de expectativa. Sinto-me tão bem que mal posso acreditar. Meu sono é maravilhoso, tenho as faces rosadas, todos me elogiam, e meu corpo está melhor do que nunca... Nenhum sinal, nada, pensou ela. Absolutamente nada. Os seios um pouco sensíveis, mas isso é apenas imaginação... e amanhã tudo estará acabado.
Ela sentava à escrivaninha, em sua suíte, de frente para a baía, a ponta da língua entre os lábios, cautelosa demais para escrever qualquer coisa que pudesse comprometê-la. É um presságio de sorte que seja o dia dele para assinalar meu novo começo.
Amanhã é dia de são Teodoro, o meu novo santo padroeiro. Afinal, Colette, pelo casamento eu me torno britânica (não inglesa, porque Malcolm é escocês, e em parte inglês), e são Teodoro é um dos poucos santos dos britânicos. Ele também se tornou britânico (era grego), há mil e duzentos anos, e foi arcebispo de Canterbury...
A pena com ponta de aço hesitou, já que esse nome trazia fantasmas das brumas, mas ela não os admitiu, e fez com que resvalassem de volta às profundezas.
...isso significa que ele foi como o papa das Ilhas Britânicas. Reformou a Igreja, afastou os malfeitores e acabou com os costumes pagãos, foi santo e generoso, em particular com as mulheres, viveu até a idade espantosa de oitenta e oito anos e se mostrou, em resumo, um maravilhoso homem da verdadeira Igreja. Vou celebrá-lo com um dia especial de jejum e, daqui a três dias, com uma festa! O padre Leo me falou sobre ele. Confesso que não gosto do padre Leo, pois ele é muito malcheiroso (tenho de usar um lenço perfumado no confessionário — ele faria você desfalecer, minha cara Colette). No domingo passado tive depressão, e certamente perderei a missa neste domingo também. Lembra como costumávamos fazer isso, no tempo da escola, embora eu creia que jamais saberei como evitávamos as repreensões.
Lembranças de Colette, a escola e Paris distraíram-na por um momento. Ela olhou pela janela para o oceano, de um cinza escuro, tempestuoso, um vento forte criando vagalhões, que corriam para desabar na praia, a uma centena de metros de distância, no outro lado do passeio — navios mercantes ancorados, pequenas embarcações carregando ou descarregando, o único navio de guerra — a fragata Pearl, esplendorosa com seu novo mastro e nova pintura, aproximando-se para atracar de volta de Iedo.
Mas Angelique não viu realmente nada disso, seus olhos concentrados no futuro róseo que a mente prometia. Ali, em sua suíte, fazia calor, reinava a calma, o vento não soprava, as janelas bem vedadas, um fogo ardendo na lareira, com Malcolm Struan cochilando confortável numa poltrona de veludo vermelho, jornais, cartas e faturas em seu colo e espalhados em torno dos pés. A porta de ligação entre as suítes estava aberta. A porta para o corredor da suíte de Angelique destrancada. Era o novo hábito dos dois. Mais seguro assim, haviam concordado, haveria bastante tempo no futuro para a privacidade.
Havia dias em que ele chegava cedo e conduzia os negócios do boudoir de Angelique, até o meio-dia, quando cochilava por alguns minutos, antes do almoço; em outros dias, ele permanecia em sua suíte; e havia ainda os dias em que descia claudicando para o escritório no térreo. Sempre dizia que ela seria bem-vinda ali, mas Angelique sabia que era apenas por polidez. Lá embaixo era o domínio dos homens. Ela sentia-se muito satisfeita por Malcolm estar trabalhando; McFay lhe dissera que desde que “o tai-pan assumiu o comando, tudo se tornou mais eficiente, temos grandes planos em preparativos, e nossa companhia se agita...”
Era o que também acontecia com ela. Sem medo pelo dia de amanhã. Ao contrário, aguardava ansiosa o encontro com André, à noite, na legação. Juntos, haviam imaginado uma desculpa e ela voltaria para lá amanhã, por três dias, enquanto seus aposentos aqui eram repintados, feitas novas cortinas para as janelas e a cama, com sedas que escolhera no armazém.
— Ora, Angel — protestara Struan —, só ficaremos aqui por mais umas poucas semanas e a despesa...
Uma risada e um beijo fizeram-no mudar de idéia. Ah, já começo a amá-lo, e adoro o jogo de impor minha vontade!
Angelique sorriu, e recomeçou a escrever:
Colette querida, tenho mais energia do que em qualquer outra ocasião anterior. Ando a cavalo todos os dias — nada de excursões, o que torna a colônia restritiva —, mas muitos galopes em torno da pista de corrida, com Phillip Tyrer, Settry (Pallidar), que é o melhor cavaleiro que já conheci, às vezes com oficiais de cavalaria franceses e ingleses, sem esquecer o pobre Marlowe, que vem se revelando um homem excepcional, mas infelizmente não é um cavaleiro. Todos partiram há três dias, numa viagem a Iedo, onde Sir William e os ministros estão tendo A REUNIÃO com o gabinete nativo e o rei deles, chamado XÓGUM.
Malcolm melhora a cada dia, mas muito devagar, ainda anda com dificuldade. Continua maravilhoso — exceto nos dias de correspondência (duas vezes por mês), quando se mostra furioso com tudo e com todos, até comigo. Isso acontece apenas porque sempre recebe cartas da mãe (começo a odiá-la), que reclama amargurada de sua permanência aqui, insiste em seu retorno imediato a Hong Kong. Três dias atrás foi pior do que o habitual. Um dos clíperes da Casa Nobre chegou, desta vez com outra carta e uma convocação verbal, transmitida pelo capitão, que disse: “Eu agradeceria, senhor, se pudesse vir para bordo no momento em que descarregarmos a carga especial. Nossas ordens são para escoltá-lo e ao Dr. Hoag até Hong Kong, o mais depressa possível...”
Nunca tinha ouvido uma linguagem assim, Colette! Pensei que o pobre Malcolm ia sofrer um ataque apoplético. O capitão ficou atordoado e se retirou apressado. Mais uma vez, implorei a Malcolm para fazermos o que ela quer, mas... ele se limitou a resmungar: “Partiremos quando eu decidir, e ponto final! Nunca mais torne a tocar nesse assunto!” Iocoama é muito TEDIOSA e eu gostaria muito de voltar a Hong Kong e à civilização.
Para passar o tempo, venho lendo tudo o que posso encontrar (os jornais, além das notícias sobre a moda e a vida em Paris, são de fato muito interessantes, como fiquei surpresa ao descobrir, o que me levou a compreender que tenho sido uma desmiolada).
Mas devo me preparar para todas as soirées que terei de oferecer por meu marido, recebendo seus convidados importantes... assim como suas esposas. Por isso, tenciono aprender sobre comércio, ópio, chá, algodão, bicho-da-seda... Mas é preciso tomar bastante cuidado. Na primeira vez em que tentei conversar sobre um artigo relatando a lamentável situação da indústria da seda francesa (e é por isso que os bichos-da-seda japoneses são tão valiosos), Malcolm disse: “Não preocupe sua linda cabecinha com essas coisas, Angel...” E NÃO consegui dizer uma única palavra, nem mesmo como um aparte. Para ser franca, ele ficou na maior irritação quando sugeri que a Struan poderia abrir uma fábrica de seda na França...