Ah, minha querida Colette, eu gostaria que você estivesse aqui, e assim poderia lhe contar tudo o que tenho guardado no coração... sinto muita saudade, mas muita mesmo...
A ponta de aço, montada num cabo de osso, começou a borrar o papel. Angelique enxugou-o com extremo cuidado e limpou a ponta, admirada por ser tão fácil, a ponta voltando a ser como nova. Até poucos anos antes, a pena de escrever era a mais comum, e ela teria de usar uma faca especial, cortar uma nova ponta, parti-la para durar mais uma ou duas páginas, enquanto que aquelas penas Mitchell, produzidas em massa em Birmingham, duravam por dias e dias, e eram vendidas em diversos tamanhos, para agradar à fantasia e caligrafia de cada pessoa.
Por trás dela, Struan remexeu-se, mas não acordou. Adormecido, ele tem um rosto impecável, pensou Angelique. Atraente e forte... A porta foi aberta, e Ah Soh entrou.
— Miss, almoço, querer aqui ou lá embaixo, hem?
Struan despertou no mesmo instante.
— Sua patroa vai comer aqui — disse ele, bruscamente, em cantonês. — Eu almoçarei lá embaixo, em nossa sala de jantar principal, e avise ao cozinheiro que é melhor a comida estar excepcional.
— Sim, tai-pan.
Ah Soh retirou-se, quase correndo.
— O que disse a ela, Malcolm?
— Apenas que você almoçaria aqui... vou comer lá embaixo. Convidei Dmitri, Jamie e Norbert. — Ele olhou para ela, delineada contra a luz. — Você está linda.
— Obrigada. Posso almoçar com vocês? Eu gostaria.
— Lamento, mas temos negócios a discutir.
Com um grande esforço, Struan levantou-se e ela entregou-lhe as duas bengalas. Antes de pegá-las ele abraçou-a e Angelique permitiu que seu corpo se comprimisse contra o dele, disfarçando a irritação por ter sido preterida mais uma vez... não tinha para onde ir, nada a fazer, exceto escrever, ler alguma coisa e esperar. Era uma vida muito maçante...
Lun Dois cortou a primeira das enormes tortas de maçã em quartos, que passou Para pratos de peltre, despejou o creme espesso por cima, em porções generosas, e serviu os quatro homens.
— Deus Todo-Poderoso, onde conseguiu isso? — indagou Norbert Grey-forth.
Dmitri acrescentou, com igual espanto:
— É inacreditável!
— O creme? — McFay arrotou. — Desculpem. Com os cumprimentos do Tai-pan.
Dmitri levou a colher cheia à boca.
— A última vez que comi creme foi em Hong Kong, há seis meses. Hum... este é maravilhoso. É uma nova exclusividade da Casa Nobre?
Malcolm sorriu.
— Nosso último clíper, que chegou há poucos dias, trouxe três vacas. Foram desembarcadas à noite e, com a ajuda do intendente do exército, ficaram escondidas entre os cavalos... não queremos que sejam sequestradas ou que a alfândega japonesa comece a fazer perguntas. As vacas são vigiadas dia e noite.
Ele não podia conter sua satisfação pelo efeito do creme, depois de uma lauta quantidade de carne, batatas assadas, legumes frescos, um pastelão do faisão local, queijos franceses e ingleses... tudo acompanhado por cerveja, Château Haut-Brion 1.846, um excelente Chablis e porto.
— Vamos iniciar um rebanho aqui, se elas se aclimatarem, e uma fábrica de laticínios... subsidiária da que temos em Hong Kong... foi uma idéia de Jamie, e é claro que a produção estará disponível para todos.
— Aos habituais preços “nobres”? — disse Norbert, sarcástico, numa irritação óbvia por não ter tomado conhecimento antes daquele novo empreendimento da Struan.
— Com lucro... mas razoável — declarou Struan. Ele ordenara que as vacas fossem trazidas de Hong Kong no momento em que chegara a Iocoama. — Mais, Dmitri?
— Obrigado. Uma torta deliciosa, Malc!
— Quais são as notícias de sua terra? — perguntou Jamie, para romper a tensão entre Struan e Norbert Greyforth.
— Horríveis. Não podiam ser piores. Os dois lados continuam a se engalfinhar, com fuzis e artilharia de longo alcance... as mortes são cada vez mais numerosas. É a loucura do Novo Mundo.
— O mundo inteiro enlouqueceu, meu caro amigo — disse Norbert. — Mas a guerra é um bom negócio, sem a menor dúvida, para os afortunados.
Uma pausa e ele acrescentou, só para provocar Struan:
— A Brock tem todo o açúcar havaiano que você precisar, a preços razoáveis.
— Seria uma mudança e tanto se qualquer coisa fosse razoável — comentou Dmitri, jovial.
Ele sabia de tudo sobre os imensos prejuízos que a Struan sofreria por causa do golpe de Tyler e Morgan Brock, mas deu de ombros para si mesmo. Não estou na guerra deles, já tenho a minha com que me preocupar. Deus do céu, como vai terminar?
— A guerra nunca é boa para o povo. O custo será tremendo... já souberam que Lincoln conseguiu fazer com que o Congresso aprovasse seu imposto de renda para pagar a guerra?
Todos os outros ficaram imóveis por um instante.
— Qual é a taxa?
— Três centavos por dólar — respondeu ele, com uma fúria intensa, o que fez com que todos rissem.
— Tem certeza?
— Recebi a informação hoje, por um mensageiro especial que chegou no Calif Belle.
— Três por cento? Vocês têm muita sorte, Dmitri — disse Jamie, seu prato quase vazio. — Eu esperava quinze.
— Ficou louco? Haveria uma revolução.
— Já estão metidos em uma. Seja como for, é a mesma coisa que nós, só que o de vocês será apenas por três anos, isso... ei, espere um pouco — disse Jamie, alteando a voz —, isso é o que Lincoln prometeu, jurou que seria apenas por três anos, segundo o último Frisco Chronicle, se o Congresso aprovasse. Três anos.
— É verdade, mas você conhece os desgraçados dos políticos, Jamie, depois que aprovam um imposto, no Congresso ou no Parlamento, nunca mais o revogam. São uns safados, todos eles. Três por cento é apenas o começo.
— Tem toda razão — interveio Norbert, também irritado, virando-se em seguida para Lun. — Vou querer outra fatia, com bastante creme. Tem toda razão sobre os impostos, Jamie. Bloody Pitt, o patife que inventou o imposto de renda, prometeu a mesma coisa e depois voltou atrás, como vai acontecer com Lincoln. Todos os políticos são mentirosos, mas Robert Peei devia ter sido açoitado.
— Robert Peei, o mesmo sujeito que criou uma força policial, os Peelers? — perguntou Dmitri, pegando outra colher de creme.
— O próprio. Os Peelers até que foram uma boa idéia... embora não fosse uma idéia só dele. Bem que poderíamos aproveitar alguns aqui, não resta a menor dúvida... mas imposto de renda? Uma coisa monstruosa!
Malcolm comentou:
— Peei foi um bom primeiro-ministro. Ele...