— Por quê? E por que Kanagawa? Por que não aqui?
— Eles apenas disseram que é o lugar em que deve ser feita a reunião e que chegariam à noite na legação em Kanagawa. O encontro pode ocorrer ali.
— Pode ser uma armadilha, tai-pan — alertara Jamie. — Não se esqueça de que Lun foi assassinado na legação e os assassinos...
O excitamento de Malcolm murchara com a lembrança. Mas tratara de afastar essa possibilidade.
— Há soldados ali para nos protegerem.
— Eles garantiram que seus representantes estariam desarmados, senhor — ressaltara Vargas —, e insistiram na necessidade de sigilo.
— É arriscado demais para você, tai-pan — dissera Jamie. — Irei com Vargas, que pode servir como intérprete.
— Lamento, Sr. McFay, mas eles querem falar pessoalmente com o tai-pan — explicara Vargas. — E parece que não há necessidade de um intérprete... eles levariam alguém que sabe falar inglês.
— É perigoso demais, tai-pan.
— Pode ser, mas também é uma oportunidade boa demais para se perder, Jamie. Nada assim jamais foi oferecido a qualquer um de nós. Se pudéssemos fechar um negócio desses, e melhor ainda em segredo, daríamos um gigantesco passo à frente. Quais são as condições para o acordo, Vargas?
— Eles não disseram, tai-pan.
— Não tem importância. Aceite o convite e nos reuniremos o mais depressa possível. Uma condição: o Sr. McFay irá comigo. Jamie, seguiremos de barco. Providencie um palanquim para eu usar em Kanagawa.
A reunião fora rápida e inesperadamente direta. Dois samurais. Um, que dissera se chamar Watanabe, falava uma mistura de inglês e gíria americana, o sotaque americano:
— Lorde Ota quer dois mineiros. Expertos. Poderão ir a qualquer lugar em suas terras... com guias. Sem armas. Ele garante salvo-conduto, dá bons alojamentos, comida, com todo saquê que puderem beber e mulheres de sobra. Contrato de um ano. Vocês ficam com metade do ouro que eles encontrarem, fornecem de graça todos os equipamentos de mineração e capatazes para supervisionar seus homens, se descobrirem um veio. E cuidam das vendas. Se der certo, ele renova por um segundo ano e um terceiro, mais até... se a Casa Nobre agir direito. Concorda?
— Eles só vão procurar ouro?
— Claro que ouro. Lorde Ota diz que tem uma pequena mina, talvez mais nas proximidades. Vocês cuidam das vendas. Homens devem ser bons, devem ter experiência dos campos da Califórnia e Austrália. Concorda?
— Concordo. Levará algum tempo para encontrar os homens.
— Quanto tempo?
— Duas semanas, se houver algum na colônia... seis meses, se tivermos de trazê-los da Austrália ou América.
— Quanto mais cedo, melhor. Agora: quantos fuzis têm à venda neste momento?
— Cinco.
— Lorde Ota compra e também todos os fuzis de Choshu que combinaram, quando chegarem. Mesmo preço.
— Esses rifles já estão prometidos. Podemos fornecer outros.
— Lorde Ota quer fuzis de Choshu... quer todos. Paga mesmo preço. Todas as armas de Choshu, entende? E todas as outras que puder obter. Só vende a ele no Nipão, só a ele, entendido? Mesmo com canhões e navios... tudo que puder obter. Ele paga em ouro. Quanto mais descobrirem, mais terão.
Nem Malcolm Struan nem McFay conseguiram demover o homem de sua posição. Ao final, Struan concordara e marcaram outra reunião, um mês depois, quando a companhia apresentaria um contrato simples, especificando suas garantias, e também os dossiês dos dois homens. Depois que os samurais se retiraram, deram os parabéns um ao outro.
— Jamie, vá procurá-los na cidade dos bêbados. Pelo amor de Deus, apresse-se e tome todo cuidado, antes que Norbert descubra.
— Pode deixar comigo.
Em poucos dias, McFay descobrira dois homens qualificados, um americano e um cômico que era mineiro de estanho. Ambos haviam trabalhado nos campos de ouro perto de Sutter’s Mill, na Califórnia, e nas descobertas em Anderson’s Creek, na Austrália. No dia seguinte, os mineiros deveriam concluir a lista dos equipamentos que iriam precisar, e acertar os detalhes de seus contratos. Agora, consternados, Struan e McFay ouviram Norbert dizer:
— Já fechei esse negócio, jovem Malcolm. Está feito, pode esquecer. Levei a melhor e já despachei os dois para Iedo, ao encontro do samurai Watanabe. Onde será que aquele miserável aprendeu o inglês americano? Ele lhe contou? Ora, não importa. Meio a meio em qualquer ouro que descobrirmos é um bom negócio. — Sua risada se tornou ainda mais desdenhosa. — Quanto a William, eu o verei assim que ele voltar, não há problema. Dmitri, você me acompanha. Providenciarei tudo.
Ele fez uma pausa, olhando para Struan, os lábios se contraindo.
— Já que você não estará aqui, levarei Jamie comigo.
— Como?
Norbert tornou a arrotar.
— Não circulou a notícia de que sua mãe ordenou que voltasse a Hong Kong pelo próximo navio?
Jamie ficou vermelho.
— Escute aqui, Nor...
— Não se meta nisso, Jamie — gritou Struan. — Norbert, eu o aconselharia a escolher suas palavras com mais cuidado.
— É mesmo, meu jovem? Não ouvi direito que ela o quer de volta, mandou que embarcasse imediatamente, e seu capitão tem ordens para levá-lo de qualquer maneira?
— Isso não é da sua conta! Eu o aconselho...
— Tudo que acontece em Iocoama é da minha conta! — berrou Norbert. — E não aceitamos conselhos de ninguém da Struan, muito menos de um garoto que mal saiu das fraldas!
McFay levantou-se de um pulo, Struan pegou seu copo de conhaque e jogou o conteúdo na cara de Norbert.
— DeusTodo-Poderoso...
— Trate de se retratar, Norbert! — bradou Struan, com Dmitri e McFay estupefatos com a escalada da discussão. — Retire tudo o que disse ou exijo uma satisfação!
— Pistolas ao amanhecer? — escarneceu Norbert, a ação ainda melhor do que esperava. Abruptamente, ele puxou a metade da toalha da mesa, para enxugar o rosto, derrubando os copos. — Perdoem-me pela confusão, mas vocês dois são testemunhas de que eu disse apenas a verdade!
— Peça desculpas... sim ou não?