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Norbert pôs as mãos na mesa, olhando furioso para Malcolm Struan, que sustentou seu olhar, com uma raiva intensa.

— Você recebeu a ordem de voltar, tem vinte anos e, assim, ainda é menor perante a lei, e pode-se dizer que mal deixou as fraldas. É a verdade, e aqui vai outra: eu poderia estourar seus miolos, ou cortá-los, com uma das mãos amarrada nas costas. Afinal, você nem sequer consegue ficar em pé direito para lutar, não é mesmo?

A voz era incisiva, impregnada de desprezo.

— Você é um aleijado, jovem Malcolm, e esta é a verdade de Deus! Outra verdade: sua mãe dirige a Struan, vem fazendo isso há anos, e está arrasando a companhia... pergunte a Jamie ou a qualquer outro que seja bastante honesto para lhe responder! Pode se intitular tai-pan, mas não é, não é um Dirk Struan, não é o tai-pan, e nunca será! Já Tyler Brock é o tai-pan e seremos a Casa Nobre antes do Natal. Duelo? Você está louco, mas se é isso o que quer, a qualquer momento!

Ele saiu, batendo a porta.

— Eu gostaria que vocês dois fossem meus padrinhos — murmurou Malcolm, tremendo de raiva.

Dmitri levantou-se, trêmulo.

— Malc, você está louco. Duelar é contra a lei, mas tudo bem. Obrigado pelo almoço.

Ele também saiu. Struan tentou recuperaro fôlego, o coração doendo. Olhou para McFay, que o fitava como se estivesse diante de um estranho.

— Tem razão, Jamie, é uma loucura, mas também Norbert é o melhor da Brock & Sons. Ele levou a melhor sobre você e...

— Lamento a...

— Também lamento. Mas a verdade é que eu não falei a ninguém sobre os mineiros, Vargas nada sabia a respeito, e portanto só pode ter vazado por seu intermédio. Você é o melhor que temos na companhia, mas Norbert vai acabar conosco aqui. Uma bala na cabeça do desgraçado é a melhor maneira de acabar com ele... ou qualquer dos malditos Brocks! Depois de uma pausa, McFay disse:

— Lamento ter falhado, lamento muito, mas... mas não quero ter parte em qualquer duelo, não quero me envolver na sua vendeta. É uma insanidade.

A palidez de Struan aumentou.

— Vamos falar de você. Ou mantém seu juramento sagrado de me apoiar ou está liquidado. Tem três dias para se decidir.

No início daquela manhã, Settry Pallidar e uma tropa de dragões montados seguiu à frente da procissão pela ponte sobre o primeiro fosso do castelo de Iedo.

Passaram entre fileiras de samurais uniformizados, impassíveis, ombro a ombro — milhares de outros haviam margeado todo o percurso —, atravessaram a ponte levadiça e cruzaram os portões de ferro maciço. À frente estavam seus guias, samurais carregando estandartes de três metros de altura, com as insígnias dos roju, três flores de cerejeira entrelaçadas.

Por trás dos dragões, havia meia centena de Highlanders, precedidos pela banda de vinte homens, com seu gigantesco mestre, gaitas de foles a emitir sons agudos, e depois o grupo de ministros, com seus assistentes, todos montados. Os ministros usavam trajes de corte, tricórnios, espadas cerimoniais, casaca ou sobrecasaca contra a brisa constante, à exceção do russo, que vestia um uniforme de cossaco, com capa, e montava o melhor cavalo que existia no Japão, um garanhão castanho, que contava com um bando de vinte cavalariços para cuidá-lo e protegê-lo com suas próprias vidas. Phillip Tyrer e Johann integravam a comitiva de Sir William, André Poncin acompanhava Henri Seratard. Uma companhia de soldados ingleses vinha na retaguarda.

Dois pequenos canhões puxados por cavalos, com suas carroças de carga e guarnições, permaneceram no outro lado da ponte. Isso fora o assunto de dias de discussão, Sir William insistindo que a presença do canhão cerimonial era uma cortesia costumeira à realeza, o Bakufu alegando que quaisquer armas gai-jin eram contra a lei, um insulto a seu reverenciado xógum. O acordo, depois de uma semana de negociações, fora de que o canhão ficaria fora da ponte, as salvas reais não seriam disparadas até que os roju concedessem a permissão formal por unanimidade.

— Nenhuma munição deve ser desembarcada, sinto muito...

Esse problema fora resolvido com a ajuda do almirante francês. Durante uma das intermináveis reuniões, ele aproximara sua nave capitânia de terra e disparara uma bordada de artilharia, sem muita precisão, as balas passando sobre a colônia para caírem, inofensivas, nos arrozais além, mas apavorando todos os japoneses que ouviram os tiros.

— Se não pudermos desembarcar munição — explicara Sir William, insinuante —, então teremos de disparar as salvas do mar desse jeito... pedimos que usasse tiros de pólvora seca, mas imagino que ele entendeu mal a mensagem problemas de linguagem... e sentiremos muito se atingirem sua cidade, mas a culpa será de vocês. Terei de explicar isso em detalhes a seu imperador Komei canhoneio e os rifles, pois constituem uma honra real, um símbolo de respeito para homenagear seu xógum. Explicarei tudo isso quando nos encontrarmos com seu imperador Komei, na visita a Quioto, que já adiei três vezes, a pedido de vocês e que marcarei quando a minha esquadra mais poderosa voltar do ataque a uma boa parte da costa da China, habitada por piratas miseráveis, que tiveram a ousadia de atacar um pequeno navio britânico!

A oposição do Bakufu ruíra por completo. Assim, todos os fuzis estavam carregados, e todos os soldados avisados de que poderia ocorrer uma luta, mas que em nenhuma circunstância, e sob pena da mais rigorosa punição, deveria haver provocações a algum japonês.

— E o que fará a fragata H.M.S. Pearl, Sir William? — indagara o general, na última reunião.

— Pode nos levar a Iedo, e depois voltar para cá, caso nossos anfitriões resolvam desfechar um ataque de surpresa contra a colônia durante nossa ausência... a Pearl daria cobertura a uma evacuação.

— Pelo bom Deus, senhor, se acha que há essa possibilidade, por que assume o risco? — dissera o general, preocupado. — Os outros ministros não seriam uma grande perda, mas haveria um incidente internacional se alguma coisa lhe acontecesse. Afinal, senhor, representa o império. Não deve arriscar sua pessoa.

— É parte do meu trabalho, meu caro general.

Sir William sorriu para si mesmo, ao recordar como mantivera a voz calma, falando como se fosse um gracejo. O general acenara com a cabeça, solene, acreditando que era verdade. O pobre coitado é um pateta, mas isso faz parte de suas funções, sem dúvida, pensou Sir William, jovial, para depois descartar tudo e se concentrar apenas no castelo e na iminente reunião, a culminação de meses de negociações, e que daria legalidade ao tratado e à abertura dos portos do tratado. E foram aqueles poucos disparos franceses que produziram o milagre, pensou ele, sombrio. Maldito Ketterer, mas graças a Deus que suas operações na China correram bem, segundo os últimos despachos, e ele voltará em breve. Se pôde bombardear a costa da China, por que não aqui... ora, ele que se dane!