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E que se dane também este castelo.

De longe, não parecia muito imponente; quanto mais se aproximavam, porém, mais se tornava imenso, com oito círculos de estruturas que pareciam alojamentos como defesas externas. Depois, o castelo propriamente dito, elegante, com lindas proporções, pensou Sir William, o fosso com quase duzentos metros de extensão, as muralhas exteriores muito altas, com uns dez metros de espessura, feitas com enormes blocos de granito. Nem mesmo nossos canhões de sessenta libras poderiam destruí-las, concluiu ele, impressionado. E, lá dentro, só Deus sabe quantas fortificações cercam a torre central. E o acesso só é possível através do portão ou por cima das muralhas, num ataque frontal, que eu não gostaria de ordenar. Deixar o castelo à míngua? Só Deus sabe quantos depósitos de alimentos existem aqui... ou quantos soldados pode alojar. Milhares.

Além dos portões, o caminho se estreitava, numa área dominada por arqueiros, abrigados em fendas defensivas, ou em parapeitos dez metros acima do solo. O caminho levava a outro pátio confinado, com outros portões fortificados, outro pátio, mais portões, no que devia ser um labirinto de passagens, terminando na torre central, e sempre deixando uma força hostil à mercê dos defensores por cima.

— Desmontamos aqui, Sir William — anunciou Pallidar, parando o cavalo e batendo continência.

Ele era o comandante da escolta. Estava acompanhado por oficiais samurais, a pé, que apontaram para uma enorme porta, sendo aberta naquele momento.

— Está certo. Sabe o que tem de fazer?

— Claro. Mas não tenho a menor esperança de lhe dar cobertura, ou até sair daqui lutando, mesmo enfrentando arcos e flechas.

— Não planejo lutar contra ninguém, capitão.— Sir William sorriu. Virou-se na sela, fez sinal para todos desmontarem. — Um castelo e tanto, hem?

— Melhor do que qualquer outro sobre o qual já li ou ouvi falar — comentou Pallidar, apreensivo. — Superior a tudo que os cruzados enfrentaram. Faz com que pareça bem pequeno o enorme castelo dos Cavaleiros de são João, em Malta. Ótimo para se defender, mas eu detestaria ter de atacá-lo.

— Foi o que também pensei. Phillip! — chamou Sir William. — Pergunte a alguém onde se pode urinar por aqui.

Tyrer aproximou-se apressado de um dos oficiais samurais, fez uma reverência polida, e lhe sussurrou. O homem soltou um grunhido e acenou para um biombo.

— Há baldes ali, senhor, e creio que ele disse que há baldes também no canto da maioria dos cômodos, caso alguém sinta uma súbita necessidade.

— Ainda bem. É sempre melhor se aliviar antes de uma reunião... de qualquer maneira, uma bexiga forte é uma dádiva importante para um diplomata.

Depois que Sir William e os outros ministros urinaram, ele conduziu-os através da porta: Seratard, conde Zergeyev, von Heimrich, van de Tromp, Adamson e um recém-chegado, pelo último navio de correspondência, o burgomestre Fritz Erlicher, da Confederação Helvética — Suíça —, um gigante barbudo da capital, Berna, que falava francês, inglês, alemão, holandês e muitos dialetos alemães. Phillip Tyrer e Johann seguiam logo atrás, com André Poncin caminhando ao lado de Seratard.

A sala de audiências tinha quarenta metros quadrados, teto alto, vigas grossas, muito limpa, arejada, paredes de pedra com fendas para arqueiros como janelas. Havia samurais impassíveis postados ao longo das paredes. Duas fileiras de meia dúzia de cadeiras, de frente umas para as outras, na outra extremidade. Muitas Portas. Apenas criados presentes para recebê-los. Um funcionário do Bakufu, vestido com requinte, embora subalterno, apontou para as cadeiras, sem fazer reverência, enquanto criados traziam pequenas bandejas, dizendo em holandês:

— Por favor, sentem para o chá.

Sir William percebeu que Johann conversava com seu ministro suíço e disse irritado:

— Phillip, pergunte a esse sujeito onde está o Conselho de Anciãos, os roju .

Disfarçando seu nervosismo, consciente de que todos os olhos fixavam-se nele, e sentindo vontade de urinar outra vez, Phillip Tyrer aproximou-se do representante do Bakufu e ficou esperando que ele fizesse uma reverência. O homem não fez, apenas o fitou com firmeza, e por isso Tyrer disse, em tom ríspido:

— Onde estão suas maneiras? Faça uma reverência! Sou um lorde em meu país e represento estes altos lordes!

O homem ficou vermelho, fez uma reverência profunda, murmurou um pedido de desculpas. Tyrer sentiu a maior satisfação por ter tido a cautela de pedir a Nakama que lhe ensinasse algumas frases fundamentais. Interpelou o homem de uma forma ainda mais autoritária:

— Onde estão seus superiores, os roju?

— Ah, sinto muito, por favor, desculpe, lorde — balbuciou o homem.— Eles pedem que esperem aqui... ahn... descansando da viagem.

Tyrer não entendeu todas as palavras, mas captou a essência.

— E depois?

— Terei a honra de conduzi-los ao local da reunião — respondeu o homem, os olhos cautelosamente abaixados.

Mais uma vez, para seu enorme alívio, Tyrer compreendeu. Enquanto relatava a conversa a Sir William, podia sentir um suor frio nas costas e refletiu que tivera sorte até agora.

Sir William soltou um grunhido e inclinou-se para os outros.

— Acham que devemos esperar, senhores? Eles estão atrasados... tínhamos combinado que entraríamos direto na reunião... não quero esperar nem aceitar o chá como desculpa.— À aprovação geral, ele acrescentou:— Ótimo. Phillip, diga a esse sujeito que viemos aqui para falar com os roju. É o que queremos fazer. Agora.

— Até que ponto... hum... deseja que eu me mostre veemente, senhor?

— Pelo amor de Deus, Phillip, se eu quisesse que você fosse prolixo e diplomático, teria sido eu mesmo prolixo e diplomático. Afunção de um intérprete é traduzir exatamente o que foi dito, não dar a sua interpretação das palavras.

— O grande lorde diz: quer ver roju agora. Agora!

O funcionário do Bakufu ficou chocado pela falta de polidez, uma afronta inédita, e se descobriu num dilema. Suas instruções haviam sido claras: Os gai-jin ficarão esperando por um período apropriado para “perderem a pose”, cerca meia vela, quando enviaremos um aviso, e poderá conduzi-los à nossa presença. Ele se apressou em dizer:

— Claro que os levarei, assim que acabarem de tomar o chá e estiver tudo pronto para a recepção perfeita, mas sinto muito, não é possível agora, porque as augustas pessoas não vestiram ainda os trajes corretos, e assim não é possível atender ao pedido inconveniente de seu amo, intérprete-san.

— Por favor, fale de novo, não tão depressa — pediu Tyrer, angustiado.