Outro fluxo de japonês e ele disse:
— Sir William, acho que está dizendo que temos de esperar.
— É mesmo? Por quê?
— Meu amo diz, por que esperar?
Mais japonês, que Tyrer não entendeu, e por isso o homem passou para o holandês. Erlicher interveio na conversa, irritando ainda mais Sir William e os outros. Ao final, Erlicher disse:
— Parece, Sir William, que os roju não estão... como se diz... ah, sim... ainda não estão prontos, mas assim que estiverem seremos levados à sala de audiência.
— Por favor, diga a esse sujeito, com toda a rispidez necessária, para nos levar até lá imediatamente, que chegamos na hora marcada, e que as reuniões de alto nível sempre começam na hora, porque as duas partes têm outros importantes problemas de Estado a tratar, como já expliquei cinqüenta vezes! E diga a ele para se apressar!
Erlicher transmitiu a mensagem, com a maior satisfação; por mais que o homem se contorcesse, insistisse e até suplicasse, acabou fazendo uma reverência e depois, tão devagar quanto possível, levou-os por uma porta, através de um corredor... depois de enviar um mensageiro para alertar o conselho sobre a espantosa impertinência dos gai-jin.
Outro corredor, e na extremidade samurais abriram imensas portas, o funcionário caiu de joelhos, inclinou a cabeça até o chão. Quatro homens em trajes de seda requintados, espadas à cinta, sentavam em cadeiras no outro lado da vasta sala de audiência, numa plataforma. A cadeira central se achava vazia. Na frente, num nível mais baixo — o que todos os ministros perceberam no mesmo instante —, havia seis cadeiras para os representantes estrangeiros; entre as duas fileiras, ajoelhava-se o intérprete oficial. Cerca de cem oficiais samurais ajoelhavam-se num semicírculo, de frente para a porta; quando Sir William entrou, todos os samurais na sala se inclinaram. Os quatro roju permaneceram imóveis. Sir William e os outros fizeram uma reverência polida e depois foram ocupar seus lugares.
— Em nenhuma circunstância ministros de nações civilizadas ajoelham-se e inclinam a cabeça até o chão — declarara Sir William —, não importa quais sejam os costumes de vocês, se fazem isso ou não, e ponto final!
Phillip Tyrer, agora um conhecedor de reverências, graças a Nakama, notou que cada vez que um ancião inclinava a cabeça, era o gesto de um superior para um inferior. Não importa, pensou ele, intimidado e excitado, estamos agora no santuário interior. Quando o xógum virá ocupar a cadeira vaga? Um menino? Gostaria de saber como ele parece e o que...
Um ancião começou a falar. Com súbito sobressalto, Tyrer reconheceu-o como o jovem emissário que participara da reunião anterior na legação em Iedo Também reconheceu o homem nervoso e moreno sentado a seu lado, que se mantivera calado durante todo o tempo no encontro anterior, mas observara a tudo com a maior atenção, os olhos contraídos.
Por que dois anciãos foram se encontrar conosco sem anunciar suas posições? ele perguntou a si mesmo. Espere um pouco, o representante mais jovem não se apresentara como Tomo Watanabe, isso mesmo, e dissera ser “funcionário subalterno, segunda classe”. Um nome falso, era óbvio. Mas por quê? E por que o disfarce?
Apreensivo, Tyrer deixou o problema para ser resolvido mais tarde e concentrou-se no que o homem dizia, sem compreender quase nada, como fora avisado antes que aconteceria por Nakama, que lhe explicara que as palavras em voga na corte, as que deveriam ser usadas, tinham significados diferentes, até mesmo conflitantes, das palavras e frases do japonês comum.
Sua concentração vacilou. O terceiro ancião era rotundo, rosto balofo, mãos femininas, por fim, de fato, um ancião, cabelos brancos, rosto encovado, com enorme cicatriz na face esquerda. Todos tinham pouco mais de um metro e meio, os mantos pareciam asas, calças largas, chapéus laqueados, amarrados sob o queixo, bastante impressivos, acima de tudo por sua dignidade imóvel. O intérprete japonês falou em holandês:
— O roju, o Conselho de Anciãos do xogunato, dá as boas-vindas aos representantes estrangeiros, e deseja que apresentem seus documentos, como foi combinado.
Sir William suspirou, mesmerizado pela cadeira vazia.
— Muito bem, Johann, vamos começar. Pergunte a eles se não devemos esperar até que o xógum nos honre com a sua presença.
A indagação foi traduzida para o holandês, depois para o japonês, houve muita discussão, antes que o ancião mais jovem, Yoshi, fizesse um pronunciamento, traduzido de forma lenta e meticulosa para o holandês, e depois para o inglês.
— Basicamente, sem o palavrório habitual, Sir William, o porta-voz diz que o xógum não deve ser esperado nesta reunião, que será apenas com os roju. O xógum aparecerá mais tarde.
— Não foi isso o que combinamos e torno a informá-los de que credenciais ministeriais só são apresentadas a chefes de Estado, neste caso o xógum, e assim não podemos continuar a reunião.
Outras traduções e em seguida, para desprazer dos ministros:
— O ancião diz que o xógum teve de viajar para Quioto, com urgência, e lamenta não ter o prazer de encontrá-los, mas podem apresentar suas credenciais aos roju, já que eles têm autoridade para aceitá-las.
Novamente as traduções, a irritação de Sir William transformando-se numa raiva ostensiva, mais argumentos dos dois lados, mais tempo consumido, depoi um pergaminho, cheio de caracteres, com um lacre imponente, manipulado como se fosse o Santo Graal, foi apresentado a Sir William por um funcionário ajoelhado.
— Phillip, pode ler isto?
— Não, senhor. Sinto muito.
— Não precisa se preocupar.— Sr William suspirou, virou-se para os outros. — Isto é bastante impróprio.
— Também acho — declarou von Heimrich, friamente.
— Inaceitável — acrescentou o conde Alexi Zergeyev.
— Um precedente perigoso — comentou Adamson.
— Fora do comum, sem dúvida, pois eles prometeram a presença do xógum — disse Seratard, em francês. — Mas podemos, apenas para esta reunião, concordar com o pedido... o que acham, meus amigos?
Ele teve o cuidado de ocultar sua irritação e manteve a voz suave e gentil, como André Poncin, a seu lado, sugerira num sussurro cauteloso, ao entrarem na sala, acrescentando:
— Tome cuidado, Henri. O porta-voz dos roju é o mesmo funcionário do Bakufu que eu... a que fizemos a oferta depois da outra reunião, de visitar um navio de guerra, lembra? Mon Dieu, achei que ele era importante, mas nunca um dos anciãos! Se pudéssemos atraí-lo para o lado da França, seria um golpe maravilhoso...
O conde Zergeyev declarou:
— Concordar criará um deplorável precedente.