— Será apenas por esta reunião. Certo?
— Não importa, é como vento no rabo de uma vaca — interveio o suíço, Erlicher. — Vamos continuar.
Eles continuaram a discutir. Tyrer escutava, mas mantinha sua atenção nos anciãos, embora não de uma forma ostensiva, fascinado por eles, querendo aproveitar aquela oportunidade excepcional de aprender o máximo sobre o conselho, no mínimo de tempo. O pai lhe incutira desde cedo:
— Em qualquer reunião, sempre observe as mãos e os pés dos oponentes, pois são reveladores, assim como os olhos e os rostos, só que estes em geral podem ser controlados com facilidade. Concentre-se! Observe, mas com cautela, ou as indicações para lhe dizer o que a pessoa realmente pensa serão encobertas. Lembre-se, meu filho, de que todos exageram, todos mentem, em graus diversos.
As mãos e os pés do ancião moreno, de olhos irrequietos, se mexiam a todo instante, pequenos movimentos nervosos, enquanto os do ancião jovem se mantinham imóveis. De vez em quando, como na outra reunião, ele via o homem que apelidara de “Olhos Matreiros” sussurrar para o jovem ancião, o porta-voz... e só para ele. Por quê? — perguntou Tyrer a si mesmo. — E por que Olhos Matreiros nunca participa das conversas entre eles, aparentemente descartado pelos outros, mantendo os olhos fixados sempre nos ministros, nunca nos intérpretes? Abruptamente, Sir William apontou para a cadeira vazia.
— Se o xógum não era esperado nesta reunião, e há cinco anciãos no conselho, por que há uma cadeira vaga?
Outra vez as traduções, para um lado e outro, antes da resposta:
— Ele diz que o presidente do conselho, lorde Anjo, acaba de cair doente e não pôde comparecer, mas que isso não importa, porque eles têm autoridade para decidir. Por favor, continuem.
Von Heimrich disse, num francês impecável, como uma afronta a Seratard:
— Isso não invalida esta reunião, já que eles sempre ressaltaram a natureza “unânime” deste conselho? Cinco homens. Pode ser outra artimanha a ser usada no futuro, a fim de repudiar toda a reunião.
E começou outra discussão. Apenas Sir William permaneceu em silêncio. Conseguia evitar que a fúria e ansiedade transparecessem em seu rosto. É evidente que haviam sido enganados mais uma vez. O que fazer? E foi então que ele se ouviu dizer, em voz firme:
— Muito bem, aceitaremos a autoridade deles como um ato de boa fé de seu xógum, mas apenas para esta reunião. Comunicaremos a nossos governos que o acordo anterior não foi cumprido e seguiremos para Quioto, o mais depressa possível, afim de apresentarmos nossas credenciais ao xógum... e ao imperador Komei... com uma escolta mais do que apropriada.
Enquanto Johann começava a traduzir para o holandês, o conde Zergeyev murmurou:
— Bravo... é a única maneira de lidar com os matyeryebitzl
Von Heimrich e van de Tromp, o holandês, concordaram no mesmo instante, com as objeções de Seratard, Adamson, o americano, e Erlicher.
O intérprete japonês deixou escapar uma exclamação de espanto e disse em voz alta que tinha certeza que não entendera direito. Johann proclamou que não havia qualquer mal-entendido. Durante essa discussão, Sir William fechou os ouvidos a eles, observando com total atenção os rostos dos roju, enquanto ouviam seu intérprete. Em graus diversos, todos se mostraram apreensivos. Ótimo, pensou ele.
— Com o palavrório habitual, Sir William, mas com uma carga grande de desculpas polidas desta vez, ele diz que não será possível ver o xógum em Quioto, o tempo é inclemente nesta época do ano, mas nos asseguram que assim que ele voltar, etc.
Sir William sorriu, sem qualquer humor.
— Diga a eles o seguinte: Com o tempo inclemente ou não, visitaremos o imperador em futuro próximo. Ressalte isso, Johann. Só nesta base continuaremos a reunião.
Os roju receberam o aviso num silêncio impassível.
Depois, Sir William primeiro, os outros em seguida, levantaram-se, fizeram uma reverência, enunciaram seu posto e o país que representavam e apresentaram suas credenciais. Foram aceitas com dignidade. A cada vez, os roju retribuíam a reverência, respeitosos.
— Agora — disse Sir William, empinando o queixo — vamos passar para o segundo ponto da reunião. O governo de sua majestade real firma que na sexta-feira, dia 12 de setembro, no ano de Nosso Senhor de 1862, um cavalheiro inglês foi abominavelmente assassinado por samurais do contingente de Satsuma, sob o comando de seu rei, Sanjiro. Dois outros foram feridos. O governo de sua majestade exige que os assassinos sejam entregues, ou condenados em público, de acordo com a lei japonesa, que uma reparação de cem mil libras esterlinas em ouro seja paga de imediato, um pedido de desculpas publicado e a promulgação de uma garantia oficial de que isso não tornará a acontecer. E mais: o segundo e último pagamento de cinco mil libras esterlinas em ouro como reparação pelos assassinatos do sargento Gunne do cabo Roper, em nossa legação, no ano passado, com semanas de atraso, terá o pagamento efetuado em ouro dentro de três dias ou a quantia dobrará em cada dia subsequente...
Sir William deu tempo para que Johann traduzisse palavra por palavra, mas não permitiu qualquer discussão, até concluir a lista. Adamson também exigiu uma reparação pelo assassinato de um funcionário americano e, por último, o ministro russo se manifestou. As medalhas retinindo no uniforme de alamares dourados, o conde Zergeyev declarou:
— Um oficial e um soldado russos do nosso navio de guerra Gudenev foram retalhados até a morte em Iocoama, no dia 16 de fevereiro do ano passado. — Para consternação dos outros, ele acrescentou: — Como reparação, o czar de todas as Rússias, Alexandre II, exige as ilhas Kurilas.
Durante as traduções, Sir William inclinou-se e sussurrou em russo, num tom joviaclass="underline"
— Uma boa pilhéria, conde Alexi, pois é claro que o governo de sua majestade nunca poderia concordar com tal intromissão em nossa esfera de influência.
— Talvez sim, talvez não. A guerra na Europa é iminente outra vez. Muito em breve teremos de definir quem são os nossos amigos e quem são os inimigos.
Sir William riu.
— O que é sempre um problema para determinados países. O Reino Unido não tem inimigos permanentes, apenas interesses permanentes.
— É verdade, meu caro amigo, mas esqueceu de acrescentar “não tem amigos permanentes”. Agora, com Vladivostok, também somos uma potência do Pacífico.
— O poder de mar a mar? O sonho dos czares, hem?
— Por que não? Melhor nós do que outros — disse o conde Alexi, incisivo, para depois dar de ombros. — As Kurilas? Se não elas, algumas outras ilhas... para proteger Vladivostok.
— Devemos discutir sua “curiosa” presença no Pacífico em condições mais adequadas. Meu governo está muito interessado.
Seratard, sem entender russo e furioso por sua exclusão dessa conversa, disse friamente, em francês: