Sem ser óbvio, Sir William pôs a mão sobre a do conde Alexi, a fim de impedir sua explosão, enquanto murmurava, em russo:
— Deixe como está, Alexi.
Depois, em voz alta, ele acrescentou para Johann, disposto a negociar um prazo menor e uma quantia menor:
— Excelente, Johann. Por favor, diga a eles... Ele parou de falar quando Tyrer sussurrou:
— Com licença, senhor. Sugiro que aceite de imediato, mas insista que precisa saber os nomes deles.
Foi quase como se Tyrer não tivesse falado, pois Sir William continuou sem pausa e sem mudança da expressão:
— Johann, por favor, diga a eles que a sugestão é aceitável para o governo de sua majestade, no mesmo espírito de amizade. Em relação ao ministro da corte de São Petersburgo, tenho certeza que ele consultará seu governo, que concordará, com toda certeza, que um acordo monetário será satisfatório.
Sem dar tempo ao conde Alexi de protestar, ele tratou de acrescentar:
— Em relação ao nosso outro problema premente, os estreitos de Shimonoseki: todos os governos estrangeiros protestam contra baterias de terra disparando sobre seus navios, ao passarem em paz por aquela área.
Sir William repetiu as datas e os nomes dos navios, coisas que já haviam sido o tema de uma correspondência veemente.
— Eles dizem que transmitirão a queixa, Sir William, com a alegação habitual, de que não têm controle sobre Choshu.
— Diga o seguinte, Johann: No espírito cordial desta reunião, permitam-me sugerir que é difícil, se não mesmo impossível, para os governos estrangeiros negociarem com o Bakufu, que parece não exercer qualquer autoridade sobre seus vários reinos ou Estados. Sendo assim, o que devemos fazer? Negociar diretamentete com o xógum, que assinou nossos tratados... ou com o imperador Komei?
— O governo legal do Nipão é o xogunato, o supremo soberano do xogunato é o xógum, que governa em nome do filho do céu, os roju são os supremos conselheiros do xogunato, e seus representantes constituem o Bakufu. Em todos os casos, os governos estrangeiros devem negociar diretamente com o xogunato.
— Sendo assim, como podemos garantir a travessia segura de todos os navios que passam por Shimonoseki?
Mais discussão exaustiva, e sempre variações da mesma resposta, que não chegava a ser uma resposta, por mais que Sir William tentasse esclarecê-la. As bexigas pareciam estourar outra vez, a impaciência era geral, a fadiga aumentava. Três horas haviam transcorrido desde o início da reunião. Sir William sorriu para si mesmo.
— Muito bem. Diga o seguinte: presumindo que não haverá novos ataques, e que nossos protestos veementes serão encaminhados ao daimio de Choshu imediatamente, aceitamos, no espírito desta nova cordialidade, a posição deles para uma nova reunião, daqui a cem dias.
Uma hora de manobras adicionais.
— O roju concorda com uma segunda reunião, dentro de cento e cinqüenta e seis dias, aqui em Iedo, e deseja declarar esta reunião encerrada.
— Ótimo — disse Sir William, reprimindo um bocejo. — Agora, gostaria por favor que eles nos dessem seus nomes, verbalmente, e depois por escrito, em caracteres, no documento formal que trocaremos daqui a três dias, confirmando os acordos.
Novas traduções, pequenos detalhes alterados, e finalmente:
— Sir William, ele diz que terá os papéis prontos em uma semana, o intérprete fornecerá seus nomes, e a reunião está encerrada.
A medida que cada um era apresentado, o ancião acenava com a cabeça, mantendo o rosto impassível.
— Lorde Adachi de Mito, lorde Zukumura de Gai, lorde Yoshi de Hisamatsu...
Tyrer ficou na maior satisfação ao constatar que Olhos Matreiros, o último na fila, suava bastante, remexendo os pés e as mãos, e que seu movimento de cabeça não tinha a mesma altivez dos outros:
— Lorde Kii de Zukoshi.
— Por favor, transmita a todos nossos agradecimentos. Como foi combinado antes, ordenarei agora as salvas reais.
— Lorde Yoshi diz que, infelizmente, um dos seus membros está ausente. Como ficou acertado antes, é necessária a aprovação unânime do roju para o disparo de qualquer canhão.
Abruptamente, o bom humor de Sir William se desvaneceu. Os outros ministros ficaram chocados.
— E os nossos acordos? — indagou ele, em tom brusco. — Também precisa de uma aprovação por unanimidade?
Mais discussão, em meio a muita tensão, advertências murmuradas entre ministros. Depois, Johann informou, contrafeito:
— Lorde Yoshi diz que esta reunião conta com a autoridade do xógum e do presidente para aceitar credenciais, escutar e recomendar. Vão recomendar os acordos por unanimidade. Como ficou combinado antes, a aprovação para disparar o canhão exige a unanimidade dos anciãos. Por isso, embora lamentando, eles não podem permitir.
O silêncio tornou-se opressivo, enquanto Sir William e os outros compreendiam a armadilha em que haviam caído. Não havia opção desta vez, pensou ele sentindo um frio no estômago.
— Capitão Pallidar!
— Pois não, senhor?
Pallidar adiantou-se, o coração disparado, sabendo também, como todos diante do conselho, que Sir William não tinha alternativa agora, a não ser dar a ordem para disparar as salvas, qualquer que fosse o custo, ou a mesma desculpa seria usada com certeza para repudiar o acordo.
Enquanto ele batia continência, Seratard interveio, com sua voz mais suave e diplomática:
— Sir William, tenho certeza que o acordo é de boa fé, será implementado, e deve ser aceito. Recomendo que faça isso... todos recomendamos, não é mesmo, senhores?
Houve um alívio geral pela sugestão que salvava as aparências, e o ministro francês tratou de acrescentar:
— Também recomendamos que, nas circunstâncias, as salvas podem ser ignoradas. Concorda, Sir William, em nosso nome?
Sir William hesitou, com uma expressão sombria. Para espanto de todos, Seratard declarou, altivo:
— André, diga a eles, em nome da França, que darei minha garantia pelo primeiro pagamento.
Antes que Sir William pudesse falarqualquer coisa, André se inclinou, edisse: