— Se for apanhado desprevenido, traído desprevenido, morto desprevenido, é porque falhou em seu dever comigo e com você mesmo. A culpa será toda sua, porque deixou de verificar pessoalmente e de planejar contra qualquer eventualidade. Não há desculpa para o fracasso, exceto o karma... e os deuses não existem!
Um sorriso rápido para tranquilizá-la. Yoshi fechou a porta e foi verificar se o outro palanquim se achava desocupado, disponível para seu uso, caso precisasse. Satisfeito, deu o sinal para os homens montarem. Isso foi feito num silêncio quase total, o que também o agradou... ordenara que todas as armaduras e arreios fossem abafados. Uma última conferência silenciosa, mas ele não pôde sentir qualquer sinal de perigo. O fuzil novo estava num coldre na sela, a bolsa de munição cheia, as outras quatro armas penduradas nos ombros de seus atiradores de mais confiança. Sem qualquer barulho, ele subiu na sela. Outro sinal. A guarda avançada e o porta-estandarte partiram. Yoshi seguiu atrás, com os dois palanquins e os outros homens em sua esteira.
O progresso foi rápido e quase silencioso. Percorreram a passagem para a fortificação seguinte, longe dos caminhos e dos portões principais. Em cada posto de controle, as sentinelas gesticulavam para que passassem, sem qualquer dificuldade. Em vez de entrar no labirinto do castelo, foram para um prédio grande, no lado norte, junto a uma das maiores fortificações. Havia uma guarda enorme no lado de fora. No momento em que Yoshi foi reconhecido, as portas altas foram abertas, para deixá-lo passar. Lá dentro, havia um picadeiro grande, de terra batida, todo fechado, teto alto, em abóbada, com uma galeria para observadores. Umas poucas tochas, aqui e ali. As portas foram fechadas depois que eles entraram.
Yoshi trotou até a vanguarda da coluna e atravessou a arcada no outro lado, passando por baias e salas de arreios. Todas estavam vazias. Aquela área tinha um calçamento de pedra, o ar impregnado pelo cheiro de esterco, urina e suor. Mais além, recomeçava o chão de terra batida e havia outra arcada, dando para um picadeiro interno, bem menor. Terminava em mais uma arcada, mal iluminada. Yoshi esporeou seu pônei, mas parou subitamente.
A galeria em torno do picadeiro se encontrava repleta de arqueiros em silêncio. Nenhum tinha flechas em seus arcos, mas todos no picadeiro sabiam que morreriam... se fosse dada a ordem.
— Ah, Yoshi-sama. — A voz áspera de Nori Anjo veio da semi-escuridão por cima, e Yoshi teve uma dificuldade momentânea para localizá-lo. Depois o viu sem armadura, sentado no fundo da galeria, ao lado da escada. — Na reunião desta tarde, não nos disse que ia deixar o castelo com homens armados como... como o quê? Como ninja?
Um murmúrio de raiva espalhou-se pelos homens de Yoshi, mas ele riu, o que rompeu a tensão, em baixo e em cima.
— Não ninja, Anjo-sama, embora sem dúvida com o máximo de discrição possível. É uma boa idéia testar as defesas, sem avisar. Sou o guardião do castelo além de guardião do xógum. E você? A que devo este prazer?
— Está apenas testando nossas defesas?
— Matando três pombas com uma única flecha. — O humor desaparecera da voz de Yoshi, e todos sentiram um calafrio, especulando por que três, e o que isso significava. — E você? Por que tantos arqueiros? Para uma emboscada, talvez?
A risada rude ecoou pelo picadeiro, tornando-se ainda mais agressiva. Mãos apertavam armas, embora ninguém fizesse qualquer movimento ostensivo.
— Emboscada? Oh, não, não uma emboscada... uma guarda de honra. No momento em que fui informado que você planejava uma patrulha com os cascos abafados... estes homens estão aqui apenas para homenageá-lo e mostrar que nem todos nós dormimos, que o castelo se encontra em boas mãos e não há necessidade de um guardião.
Anjo gritou uma ordem. No mesmo instante, os arqueiros desceram a escada correndo e formaram duas filas, por toda a extensão do picadeiro, com Yoshi e seus homens no meio. Fizeram uma reverência formal. Yoshi e seus homens retribuíram, também formais. Mas nada mudara, a armadilha continuava pronta para ser acionada.
— Precisa de armas para testar as defesas?
— Nosso conselho aconselhou todos os daimios a se armarem com armas modernas — respondeu Yoshi, a voz calma, mas por dentro furioso por alguém ter revelado seu plano e por não ter previsto uma emboscada. — Estes são os primeiros dos meus novos fuzis. Desejo acostumar meus homens a carregá-los.
— Sensato, muito sensato. Mas vejo que carrega um. Lorde Yoshi também precisa se acostumar a andar com uma arma assim?
Fervendo de ódio pelo escárnio, Yoshi olhou para o fuzil no coldre, odiando todas as armas de fogo e abençoando a sabedoria de seu homônimo ao proibir a fabricação ou importação no dia em que se tornara xógum. E isso, mais do que qualquer outra coisa, garantiu a nossa paz por dois séculos e meio, pensou ele, sombrio. As armas de fogo são infames, covardes, dignas dos repulsivos gai-jin. Armas que podem matar a mil passos de distância, de tal forma que talvez você nunca possa ver quem mata, ou quem o matou, armas que qualquer idiota, maníaco, assaltante, homem ou mulher de baixa extração podem usar contra qualquer um, até mesmo o lorde mais elevado, com impunidade, capazes de liquidarem o mais experiente espadachim. E agora tenho de carregar um fuzil... os gai-jin nos forçaram a isso.
Com o escárnio de Anjo ressoando em seus ouvidos, ele tirou o fuzil do coldre, puxou a trava de segurança, como Misamoto mostrara, apontou, puxou o gatilho, as balas entrando na culatra automaticamente, cinco balas disparadas para as vigas do teto, com estampidos ensurdecedores, o fuzil quase escapulindo de suas mãos, com uma força inesperada. Todos se dispersaram, até mesmo seus homens, uns poucos derrubados pelos pôneis assustados que empinaram. Anjo e seus guardas se jogaram ao chão, antecipando mais disparos, letais desta vez, cada homem na sala apavorado com a rapidez dos tiros.
Em total silêncio, todos esperaram, prendendo a respiração, e depois, porque não houve seqüência, compreenderam que Yoshi apenas fizera uma demonstração do fuzil. Os arqueiros se apressaram em retornar suas posições, embora cautelosos, em torno dos homens de Yoshi, que também retomavam a ordem anterior. Anjo se levantou e gritou:
— Qual o significado disso?
Tão indiferente quanto podia aparentar, com o coração batendo forte, Yoshi continuou a acalmar seu pônei, puxou a trava de segurança e estendeu o fuzil no colo, disfarçando sua satisfação pelo sucesso da ação, tão impressionado quanto os outros pelo poder do fuzil — já disparara antes fuzil de carregar pelo cano e algumas antiquadas pistolas de duelo, contra alvos, mas nunca um fuzil de carregar pela culatra, com cartuchos.
— Eu queria lhe mostrar o valor de um desses. Em determinadas circunstâncias, são melhores do que espadas, em particular para os daimios. — Ele ficou contente ao constatar que sua voz soava calma. — Por exemplo, quando você foi emboscado, há poucas semanas, poderia ter usado um, neh?