Trêmulo, Anjo tratou de controlar sua ira, convencido agora de que corria grande perigo, sua vida sob ameaça, e também certo de que se ordenasse a prisão de Toranaga, como planejara, as balas crivariam seu corpo... em nome de todos os deuses, onde e como esse cão aprendeu a atirar, e por que não fui informado que ele se tornou um perito?
E ser lembrado do incidente com os shishi era um insulto público adicional, pois todos sabiam que não fora bastante bravo, fugira para a segurança, sem chegar a duelar uma única vez com os atacantes e ainda por cima, depois de os feridos serem capturados, ordenara que fossem executados de uma maneira desonrosa.
— Em algumas circunstâncias, Yoshi-sama, em algumas, mas duvido se sua arma ou quaisquer outras teriam algum valor esta noite. Duvido muito. Posso lhe perguntar seu propósito esta noite? Visitar nossas defesas externas e voltar? Ou uma de suas “pombas” está de partida para outro lugar?
Ambos sabiam que Yoshi não precisava justificar suas entradas ou saídas do castelo.
— Isso depende do que eu encontrar lá fora — disse ele, em tom brusco. — Posso decidir voltar ao meu domínio por um dia ou dois, talvez não... mas é claro que o manterei informado.
— O conselho sentiria falta de sua presença, mesmo que seja por uns poucos dias. Há muito a ser feito e teremos de tomar as decisões de qualquer maneira mesmo com sua ausência.
— Como concluímos esta tarde, não há nada de importante a ser decidido Além disso, felizmente, nada de grande monta pode ser resolvido sem a presença dos cinco anciãos.
— Há o problema do acordo com os gai-jin.
— Isso também ficou decidido esta tarde.
A reunião do conselho, depois da saída dos gai-jin, fora feliz e repleta de risos para variar, pela humilhação do inimigo, que mais uma vez fora logrado. Anjo, Toyama e Adachi haviam lhe dado os parabéns pela maneira hábil com que conduzira a confrontação, e por sua compreensão dos gai-jin, Zukumura pouco falando, limitando-se a alguns murmúrios de débil mental de vez em quando. Anjo comentara, rindo:
— Concordar em adiantar uma ninharia para afastá-los e a seus navios de Iedo, enquanto controlamos Satsuma, foi muito hábil, Yoshi-sama. Muito. Ao mesmo tempo, adiamos por tempo indefinido a ameaça de eles irem a Quioto e os fizemos concordar que a culpa toda é de Satsuma.
Toyama dissera:
— E agora declaramos guerra a Satsuma? Isso é ótimo!
— Não, não a guerra, pois há outros meios de submeter aquele cão. — Anjo sentia-se confiante com seu conhecimento recém-adquirido. — Você estava certo sobre os gai-jin, Yoshi-sama. Foi muito interessante constatar como a hostilidade entre eles se encontra bem perto de suas superfícies repugnantes.
Ele e Toyama haviam acompanhado a reunião por trás da plataforma, a parede ali lhes permitindo ver tudo, sem serem vistos.
— Isso mesmo, repugnantes. Pudemos até sentir o cheiro deles. Nauseante. Ordenei que a sala de audiência fosse lavada e destruídas as cadeiras em que eles sentaram.
— Excelente! — exclamara Adachi. — Fiquei arrepiado durante todo o tempo em que estive lá. Yoshi-sama, posso lhe perguntar sobre aquele macaco Misamoto, ele realmente contou tudo o que os gai-jin disseram? Não consegui ouvir uma só palavra.
— Nem tudo — explicara Yoshi —, mas o suficiente para me dar algumas indicações adiantadas, e apenas quando eles falavam inglês. Misamoto disse que na maior parte do tempo eles falavam outra língua, ele achou que era francês. Isso comprova outro pronto: precisamos de intérpretes de confiança. Proponho abrirmos uma escola de línguas para nossos filhos mais brilhantes imediatamente.
— Escola? — murmurara Zukumura. — Que escola? Ninguém lhe dera atenção.
— Discordo — declarara Toyama, a papada tremendo. — Quanto mais nossos filhos se aproximarem dos gai-jin, mais infectados se tornarão.
— Não — anunciara Anjo —, escolheremos pessoalmente os estudantes... devemos ter homens de confiança que conheçam as línguas dos bárbaros. Vamos votar. O Bakufu receberá a ordem de criar sem demora uma escola de línguas. Todos concordam? Ótimo. Agora, a carta dos gai-jin: vamos continuar na tática de Yoshi-sama, no dia anterior ao marcado para a entrega, diremos que ficará pronta “o mais depressa possível”? Todos concordam?
— Sinto muito, mas não concordo — dissera Yoshi. — Devemos fazer exatamente o oposto. Entregaremos a carta no prazo e também efetuaremos o segundo pagamento da chantagem na data marcada.
Todos se mostraram surpresos e Zukumura murmurara:
— Carta?
Yoshi expusera sua posição, com extrema paciência:
— Devemos manter os gai-jin desconcertados. Eles ficarão esperando uma protelação, o que não acontecerá. Assim, eles acreditarão que o prazo de cento e cinqüenta e seis dias também é certo, mas claro que não será. Vamos adiar e adiar, torcendo para que isso os deixe furiosos.
Todos riram com ele, até mesmo Zukumura, que não compreendia por que riam, mas rira assim mesmo... e ainda mais quando Yoshi relatara quantas vezes quase caíra na gargalhada durante a reunião, vendo como a impaciência dos gai-jin arruinava sua posição de barganha, já ilusória.
— Sem o cão matador, o amo é tão fraco quanto um filhote contra um homem com uma vara.
— Como? Um homem com uma vara? — indagara Zukumura, uma expressão aturdida nos olhos de peixe morto. — Que cão?
Muito do bom humor de Yoshi se desvanecera, ao lembrar que agora teria de suportar aquele débil mental para sempre. Mesmo assim, explicara que sem força para sustentar suas queixas, ou sem a determinação de usá-la, o inimigo era impotente.
— Força? Não compreendo, Yoshi-sama. Que força?
— O poder! — exclamara Anjo, impaciente. — O poder! Seus canhões e suas esquadras, Zukumura! Ora, não importa!
Toyama, o velho, declarara, com veemência:
— Enquanto eles estão sem sua esquadra, deveríamos destruí-los... são arrogantes demais, com uma atitude grosseira, e seu porta-voz... Estou contente por não ter participado da reunião, Yoshi-sama, pois acho que teria explodido. Vamos destruí-los agora.
— Quem? Destruir quem?
— Cale a boca, Zukumura — dissera Anjo, cansado —, e limite-se a votar quando eu mandar. Yoshi-sama, concordo com seu raciocínio. Enviaremos a carta no prazo, e a segunda parte do dinheiro da chantagem conforme o combinado. Todos a favor? Ótimo. Agora que já lidamos com os gai-jin, e o xógum e a princesa se encontram sãos e salvos viajando pela estrada do norte, não há muito o que fazer durante a próxima semana.
— Permitir a partida deles foi uma decisão equivocada que se voltará para nos atormentar — comentara Yoshi.