— Neste caso, você está errado. Por favor, prepare um plano, apresente suas idéias sobre a melhor maneira de subjugar o cão Sanjiro e Satsuma. Voto para nos reunirmos de novo daqui a duas semanas, a menos que surja uma emergência antes...
Mais tarde, retornando a seus aposentos, Yoshi não conseguira imaginar nenhuma emergência em potencial que exigisse sua presença em Iedo... nem mesmo o segundo convite, discreto e sussurrado, para visitar o navio de guerra francês, que ele não aceitara, nem recusara, mas deixara em aberto, pelas semanas subsequentes, já que não se tratava de um assunto urgente. Por isso, resolvera pôr em prática imediatamente o plano que formulara junto com a esposa, Hosaki. Agora, Anjo e seus arqueiros barravam seu caminho.
O que fazer?
— Boa noite, Anjo-sama — disse ele, tomando sua decisão. — Como sempre, eu o manterei informado.
Ocultando sua apreensão e sentindo-se exposto, Yoshi esporeou o pônei, encaminhando-se para a arcada no outro lado. Nenhum dos arqueiros se mexeu, esperando por uma ordem. Seus homens e os dois palanquins seguiram-no, todos se sentindo também indefesos.
Anjo observou-os se afastarem. Enfurecido. Se não fosse pelos fuzis, eu o prenderia, conforme o planejado. Sob que acusação? Traição, conspirar contra o xógum! Mas Yoshi nunca seria levado a julgamento, de jeito nenhum, sinto muito, meus amigos, ele foi morto quando tentava escapar à justiça.
Uma súbita pontada de dor nas entranhas fê-lo tatear à procura de um assento. Médicos baka! Deve haver uma cura, disse a si mesmo, e depois lançou mais imprecações contra Yoshi e seus homens, que haviam desaparecido sob a arcada distante.
Yoshi respirava melhor agora, não mais dominado pelo suor do medo. Continuar a avançar pelas fortificações, passando por corredores mal iluminados, por mais baias e salas de arreios, até alcançar o muro no outro lado, revestido de madeira. Alguns homens desmontaram e acenderam as tochas dos suportes na parede.
Com seu chicote, Yoshi apontou para o puxador em um lado. Seu ajudante desmontou, deu um puxão firme. Toda uma parte do muro se abriu, revelando um túnel, bastante alto e largo para que dois homens pudessem cavalgar juntos por ali, lado a lado. No mesmo instante, ele tornou a esporear o pônei. Depois que os palanquins e o último homem passaram, a porta foi fechada de novo e Yoshi deixou escapar um suspiro de alívio. Foi só então que guardou o fuzil no coldre.
Se não fosse por você, fuzil-san, pensou eie, afetuoso, eu poderia estar morto ou no mínimo seria um prisioneiro. Às vezes posso compreender que um fuzil era de fato, melhor do que uma espada. Merece ter um nome — era um antigo costume xintoísta dar nomes a espadas e outras armas especiais, até mesmo a pedras ou árvores. Vou chamá-lo de “Nori”, que também pode significar “alga marinha”, e é uma referência a Nori Anjo, para lembrar que me salvou dele, e que uma de suas balas pertence a ele, na cabeça ou no coração.
— Puxa, lorde, seus tiros foram um espetáculo maravilhoso para se contemplar — comentou seu capitão, aproximando-se.
— Obrigado, mas você e todos os homens receberam ordem de ficar em silêncio até eu permitir que falassem. Está rebaixado. Passe para a retaguarda.
Desolado, o homem se afastou, e Yoshi chamou o segundo no comando.
— Você é o capitão agora.
Ele virou-se na sela e continuou a seguir em frente, liderando a marcha. O ar no túnel era abafado. Era um dos muitos caminhos de fuga secretos do castelo. Com seus três fossos e imensa torre de menagem, o castelo levara quatro anos para ser construído — quinhentos mil homens, por sugestão do xógum Toranaga, e sem qualquer custo para ele, haviam trabalhado dia e noite, orgulhosos, até sua conclusão.
O chão do túnel descia um pouco, virando para um lado e outro, as paredes escavadas na rocha em alguns trechos, revestidas com tijolos em outros, o teto escorado aqui e ali, mas tudo em boas condições de conservação. Sempre descendo, mas sem perigo. Agora, a água vazava dos lados, o ar se tornou mais fresco, e Yoshi compreendeu que passavam sob o fosso. Aconchegou-se no manto, detestando o túnel, quase tonto de claustrofobia... um legado do tempo em que ele, a esposa e os filhos ficaram confinados por quase meio ano em cômodos que pareciam masmorras, por ordem do tairo Li, não fazia tanto tempo assim. Nunca mais ficarei confinado, jurara ele, nunca mais.
Não demorou muito para que o túnel começasse a subir e logo eles saíram na outra extremidade, numa casa. Era um lugar seguro, que pertencia a um leal vassalo do clã Toranaga, que fora avisado antes e os esperava. Aliviado não ter deparado com mais problemas, Yoshi gesticulou para que a guarda avançada partisse.
A noite era agradável e atravessaram a cidade por caminhos pouco conhecidos, até chegar aos arredores e encontrar a primeira barreira na Tokaidô. Ali, guardas hostis tornaram-se dóceis assim que viram o estandarte de Toranaga. Apressaram-se em abrir a barricada, fizeram suas reverências e tornaram a fechá-la, depois que todos passaram, curiosos, mas nenhum bastante estúpido para fazer perguntas.
A estrada se bifurcava pouco depois da barreira. Um dos caminhos seguia para o norte, pelo interior, na direção das montanhas; numa viagem normal, alcançariam o castelo de Yoshi, o Dente do Dragão, em três ou quatro dias. Satisfeita, a guarda avançada pegou essa estrada, voltando para sua terra... para seus lares, pois a maioria não via a família, noivas ou amigos há quase um ano. Meia légua adiante, ao se aproximarem de uma aldeia, onde havia uma boa aguada e uma fonte quente Yoshi gritou “guardas!”, fazendo sinal para que voltassem.
O novo capitão da escolta foi parar ao seu lado e quase disse “Sire?”, mas controlou-se a tempo e esperou. Yoshi apontou para uma estalagem, como se tomasse uma decisão repentina.
— Paramos ali. — O lugar era chamado de Sete Estações da Felicidade. — Não há necessidade de silêncio agora.
O pátio era limpo, calçado com pedras. No mesmo instante, o proprietário, criadas e criados saírem apressados, com lanternas, fazendo reverências, ansiosos em agradar, honrados com a importância do hóspede esperado. Criadas cercaram o palanquim, para cuidar de Koiko, enquanto o proprietário, um velho magro e calvo, asseado e bem arrumado, claudicando um pouco ao andar, conduzia Yoshi ao melhor e mais isolado bangalô. Era um samurai aposentado, chamado Inejin, que decidira raspar o penacho e se tornar um estalajadeiro. Secretamente, ainda era hatomoto — um samurai privilegiado —, um dos muitos espiões de Yoshi que se espalhavam pelos arredores de Iedo e por todos os acessos ao Dente do Dragão. O novo capitão, consciente de sua responsabilidade, acompanhou-o com quatro samurais, mais Misamoto e seus dois guardas.
O capitão se certificou de que o bangalô era seguro. Depois, Yoshi acomodou-se na varanda, sobre uma almofada, de frente para os degraus, o capitão e os outros samurais ajoelhados de guarda por trás. Ele notou que a criada que servia o chá tinha um rosto viçoso, fora bem escolhida, o chá parecendo mais saboroso por isso. Quando achou que já estava pronto, Yoshi acenou para que as criadas e servos se afastassem e ordenou: