— Por favor, traga-os para cá, Inejin.
Momentos depois, Inejin voltou, acompanhado pelos dois garimpeiros gai-jin. Um alto, o outro largo, ambos encovados, de aparência rude, barbudos, com roupas sujas, gorros ensebados. Yoshi estudou-os, curioso, com profunda aversão, considerando-os mais como criaturas do que como homens. Ambos estavam apreensivos. Pararam perto dos degraus, fitando-o, aturdidos. O capitão gritou:
— Curvem-se!
Como eles continuassem imóveis, apenas fitando-o, sem compreender, ele acrescentou para dois samurais:
— Ensinem-lhes as boas maneiras.
Em segundos, eles estavam de joelhos, a cara na terra, praguejando pela estupidez em aceitar um emprego tão perigoso.
— Mas que merda, Charlie — dissera o garimpeiro da Cornualha, na cidade dos bêbados, poucos dias antes, depois da conversa com Norbert Greyforth — O que temos a perder? Nada! Estamos passando fome, sem dinheiro, sem trabalho, sem crédito... não há um único bar em Yokopoko que nos sirva uma cerveja, ninguém que nos ofereça uma cama, um pedaço de pão, muito menos uma mulher. Nenhum navio nos dá passagem. Estamos empacados aqui e não demora muito para que os peelers da Austrália desembarquem aqui, ou os seus policiais de San Francisco, e nos meterão em correntes, enforcanao-me por esfaquear alguns garimpeiros sífilíticos que não respeitavam o terreno dos outros, e a você por roubar e atirar em alguns banqueiros desgraçados.
— Confia naquele miserável do Greyforth?
— Onde está sua honra, eu sou um velho galo de briga! Acertamos com ele, certo? Ele fez o que prometeu, certo? Deu vinte libras para a gente pagar o que devia e se livrar da cadeia, mais vinte para ficar no banco até a gente voltar, todas as picaretas, pólvoras e mercadorias de que precisamos, e mais um contrato jurado na frente do pregador, de que vamos ficar com duas partes de cada cinco mandadas para Yoko, certo? Tudo o que ele prometeu, certo? É um sujeito duro, mas todos os duros são trapaceiros.
Os dois haviam caído na gargalhada, com o outro dizendo:
— Você tem toda razão.
— Somos os garimpeiros, certo? Nós é que encontramos os veios, certo? Na terra dos japas, onde estamos sozinhos, certo? Podemos esconder uma parte, hem? E levar sem que ninguém saiba, certo? Todo o grude, bebida e mulher por um ano, uma vida e tanto na Yoshiwara, e a oportunidade de explorar uma mina de ouro? Eu entro nessa, mesmo que você não tope...
Agora, a situação era muito diferente.
— Façam com que sentem, sem machucá-los. Misamoto!
Misamoto caiu de joelhos no mesmo instante. Ao verem-no, os dois garimpeiros se mostraram um pouco menos preocupados.
— São esses os homens com quem se encontrou no cais ontem?
— Sim, Sire.
— Eles o conhecem como Watanabe?
— Sim, lorde.
— Ótimo. Eles não sabem nada sobre seu passado?
— Não, lorde. Fiz tudo como mandou, tudo...
— Disse que aprendeu inglês com marujos em Nagasáqui?
— Disse, lorde.
— Ótimo. Agora, diga primeiro que eles serão bem tratados e que não precisam ter medo. Como eles se chamam?
— Escutem, vocês dois, este é o chefe, lorde Ota — disse Misamoto, como fora instruído por Yoshi, seu sotaque americano compreendido sem dificuldade. — Falei que deviam se curvar ou seriam obrigados. Ele diz que serão bem tratados e quer saber seus nomes.
— Sou John Cornishman e ele é Charlie Yank, e até agora ainda não tivemos nada para comer ou beber.
Da melhor forma que podia, Misamoto traduziu os nomes.
— Não diga nada a meu respeito, nem o que você fez desde que o tirei da prisão... lembre-se, tenho ouvidos por toda parte, e saberei.
— Não falharei, lorde.
Misamoto fez uma reverência profunda, escondendo seu ódio, desesperado em agradar, apavorado com seu futuro.
— Muito bem.
Por um momento, Yoshi considerou-o. Em dois meses e pouco, desde que recrutara Misamoto para seu serviço, o homem mudara de uma forma radical, por fora. Agora, tinha o rosto raspado, a cabeça também raspada, com exceção do penacho, ao estilo dos samurais. Uma higiene forçada melhorara bastante sua aparência, e embora fosse deliberadamente mantido com os trajes da mais baixa classe de samurais, parecia um samurai agora, e usava as duas espadas como se lhe pertencessem. É verdade que as espadas eram falsas, apenas os cabos, sem lâminas dentro das bainhas.
Até agora, Yoshi estava satisfeito com seu desempenho, e ficara atônito ao vê-lo com os trajes e o chapéu de um ancião, sem reconhecê-lo. Uma boa lição a lembrar, pensara ele na ocasião: como é fácil parecer o que não se é!
— É melhor você não falhar mesmo — disse ele, olhando em seguida para os dois guardas de Misamoto. — Vocês são responsáveis pela segurança desses dois homens. A senhora Hosaki providenciará mais guardas e guias também, mas vocês são responsáveis pelo sucesso do empreendimento.
— Sim, lorde.
— E quanto a este falso Watanabe — acrescentou Yoshi, a voz suave, mas ninguém se iludiu com isso —, deve ser tratado como samurai, embora do grau mais baixo. Mas se ele desobedecer às ordens, ou tentar escapar, vão amarrar suas mãos e pés e arrastá-lo à minha presença. Vocês são os responsáveis.
— Sim, lorde.
— Não vou fracassar, lorde — murmurou Misamoto, o rosto pálido, uma parte do seu terror contagiando os garimpeiros.
— Diga a esses homens que eles estão seguros. E também que você será seu ajudante e mestre, não há necessidade de ficarem assustados, se obedecerem. Diga a eles que espero rápido sucesso na busca.
— O chefe diz que não precisam ter medo.
— Então por que você está se mijando de medo?
— Vá se foder. Eu... estou no comando e é melhor terem boas maneiras.
— Melhor é você tomar cuidado com a gente ou assim que ficarmos a sós vamos arrancar seus ovos e fritar. Onde estão a porra do grude, a bebida e as mulheres que nos prometeram?
— Terão tudo daqui a pouco, e acho melhor se mostrarem polidos... na presença desses sujeitos — advertiu Misamoto, cauteloso. — Eles podem ser como um gato com uma abelha no rabo. E o chefe diz que é melhor encontrarem o ouro bem depressa.
— Se houver ouro, vamos encontrá-lo, Wotinabey, seu velho sacana. Se não estiver lá, é porque não existe nada, certo, Charlie?
— Eles agradecem por sua bondade, lorde — disse Misamoto, já não tão assustado, pois compreendera que se os homens encontrassem ouro, ele seria o primeiro a saber, já que os acompanharia. — Prometem tentar encontrar tesouros o mais depressa possível. Respeitosamente perguntam se podem ter alguma coisa para comer e beber e quando podem começar a trabalhar.