— Obrigado, Inejin — murmurou Yoshi, pensativo. — Não há notícias de daimios mobilizando forças contra nós?
— Não, lorde, não nesta área, embora eu tenha ouvido dizer que Sanjiro pôs Satsuma em pé de guerra.
— E Choshu?
— Ainda não, mas Ogama tornou a reforçar a guarnição que domina os portões e aumentou o número de baterias de terra em Shimonoseki.
— Hum... Seus armeiros holandeses?
Inejin confirmou com um aceno de cabeça.
— Espiões me dizem que eles treinam seus artilheiros e fabricam quatro canhões por mês, no novo arsenal de Choshu. Esses canhões são logo levados para os redutos. Muito em breve, os estreitos se tornarão inexpugnáveis.
O que é bom e mau ao mesmo tempo, pensou Yoshi — bom ter tal opção, mau que esteja em mãos inimigas.
— Ogama planeja intensificar os ataques aos navios?
— Fui informado que não, pelo menos por enquanto. Mas ele ordenou que suas baterias destruíssem todos os navios gai-jin e fechassem os estreitos em caráter permanente, quando lhes enviasse uma senha em código. — Inejin inclinou-se para a frente e sussurrou: — “Céu escarlate.”
Yoshi ficou aturdido.
— A mesma que o xógum Toranaga usava?
— É o rumor que está circulando.
A mente de Yoshi estava em turbilhão. Isso significa que Ogama, como o meu antepassado, pretende também desfechar um ataque de surpresa... poder supremo sendo o prêmio?
— Pode obter uma prova?
— Com o tempo. Mas essa é a senha atual. Quanto ao verdadeiro plano de Ogama... — Inejin deu de ombros. — Ele controla os portões agora. Se pudesse persuadir Sanjiro a lhe empenhar sua lealdade...
Houve um momento de silêncio, longo e opressivo.
— Fez um bom trabalho.
— Outro fato interessante, Sire. Lorde Anjo tem uma doença do estômago. — Os olhos de Inejin se iluminaram ao registrarem o interesse imediato de Yoshi. — Um amigo de um amigo em quem eu confio me diz que ele consultou em segredo um médico chinês. A doença é a da deterioração e não pode ser curada.
Yoshi soltou um grunhido, em parte de uma pontada gelada de ansiedade pela possibilidade de contrair a mesma doença — quem sabe como ou de onde — ou já tê-la em suas entranhas, esperando o momento de se manifestar.
— Quanto tempo ele viverá?
— Meses, talvez um ano, não mais. Mas deve se manter duplamente em guarda, Sire, porque meu informante diz que, enquanto o corpo se deteriora, sem qualquer sinal externo, a mente continua lúcida, apenas se distorce por caminhos perigosos e implacáveis.
Como a estúpida decisão de permitir que a princesa prevaleça, pensou Yoshi, a cabeça fervilhando com as novas informações.
— E que mais?
— Sobre os shishi que atacaram lorde Utani e seu amante, Sire. Foram liderados pelo mesmo shishi de Choshu que atacou lorde Anjo... Hiraga.
— Aquele cujo cartaz foi enviado a todas as barreiras?
— Isso mesmo, Sire, Rezan Hiraga. Pelo menos foi esse o nome indicado pelo shishi capturado, antes de morrer. Provavelmente é falso. Outro nome com que se apresenta é Otani.
— Conseguiram capturá-lo? — indagou Yoshi, esperançoso.
— Não, Sire, ainda não, e infelizmente perdemos todas as pistas. Assim, ele deve estar em outro lugar. Talvez em Quioto. — Inejin baixou a voz ainda mais.
— Correm rumores de que haverá outro ataque dos shishi em Quioto. Há indícios de que estão se concentrando ali. Em grande quantidade.
— Que tipo de ataque seria? Um assassinato?
— Ninguém sabe, por enquanto. Talvez outro atentado. O líder shishi com o codinome de “Corvo” teria determinado a convocação. Estou tentando descobrir quem ele é.
— Ótimo. De um jeito ou de outro, os shishi devem ser destruídos. — Yoshi pensou por um instante. — O veneno deles poderia ser dirigido contra Ogama ou Sanjiro, os verdadeiros inimigos do imperador?
— Seria muito difícil, Sire.
— Descobriu quem informou aos shishi sobre Utani? Sobre seu encontro amoroso?
Depois de uma pausa, Inejin respondeu:
— Foi a criada da dama, Sire, quem sussurrou para a mama-san, que sussurrou para eles.
Yoshi suspirou.
— E a dama?
— A dama parece ser inocente, Sire.
Yoshi tornou a suspirar, satisfeito por Koiko não estar envolvida, mas lá no fundo ainda não convencido.
— A criada está conosco agora... cuidarei dela. Providencie para que a mama-san nada desconfie. Acertarei as contas com ela quando voltar. Já descobriu quem é o outro espião, o que vem fornecendo informações para os gai-jin?
— Não com certeza, Sire. Fui informado que o traidor se chama Ori... ou esse é um pseudônimo... não sei o nome completo, um shishi de Satsuma, um dos homens de Sanjiro, um dos dois assassinos da Tokaidô.
— Foi inepto ao matar apenas um, quando os quatro constituíam um alvo fácil. Onde está o traidor agora?
— Em algum lugar da colônia de Iocoama, Sire. Ele se tornou um confidente secreto do jovem intérprete inglês e do francês de que me falou.
— Ah, ele também... — Yoshi ficou em silêncio por um momento, pensativo. — Silencie esse Ori imediatamente.
Inejin inclinou a cabeça, aceitando a ordem.
— O que mais?
— Isso encerra meu relatório.
— Obrigado. Trabalhou bem.
Yoshi acabou de tomar o chá, imerso em pensamento. O luar projetava estranhas sombras. O velho rompeu o silêncio:
— Seu banho está pronto, Sire, e imagino que tenha fome. Tudo se encontra à sua espera.
— Obrigado, mas faz uma noite tão boa que partirei agora mesmo. Há muito o que fazer no Dente do Dragão. Capitão!
Todos se reuniram num instante. Koiko e sua criada voltaram a vestir as roupas de viagem e ela entrou no palanquim. Com a devida deferência, Inejin, sua família, criadas e servidores saudaram o hóspede, no momento da partida.
— O que faremos com toda a comida que preparamos? — indagou hesitante a esposa, uma mulher pequena, de rosto redondo, também descendente de samurais.