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Ela preparara as iguarias às pressas, mas com extremo cuidado, tudo comprado a um vasto custo, para conquistar o suserano naquela visita inesperada — mais de três meses de lucro investido em uma única refeição.

— Vamos comê-la — murmurou Inejin, observando o cortejo se afastar, através da aldeia adormecida, até desaparecer. — Foi muito bom tornar a vê-lo, uma grande honra.

— Foi, sim — murmurou ela, submissa, seguindo-o para o interior do prédio.

A noite era amena, com luar suficiente para se divisar tudo. Além da aldeia, a estrada de terra, a estrada seguia para o norte, sinuosa, com aldeias a intervalos de poucos quilômetros, todas as terras ao redor exploradas por Yoshi desde a sua infância. Reinava um silêncio profundo. Ninguém viajava àquela hora da noite a não ser os salteadores, os ronin e a elite. Vadearam um córrego, o terreno mais aberto naquele ponto. No outro lado, Yoshi parou e fez um sinal para o capitão.

— Pois não, Sire?

Sob o crescente excitamento de todos, Yoshi virou-se na sela e apontou para leste e para o sul, na direção da costa.

— Estou mudando meu plano — anunciou ele, como se fosse uma decisão repentina, e não uma coisa planejada por vários dias. — Agora vamos seguir por este caminho, até a Tokaidô, mas contornaremos as três primeiras barreiras, e em seguida voltaremos à estrada, pouco depois do amanhecer.

Não havia necessidade de perguntar para onde estavam indo.

— Marcha forçada, Sire?

— Isso mesmo. E agora chega de conversa. Vamos embora!

Cento e vinte léguas, dez ou onze dias, pensou Yoshi. E, depois, Quioto e os portões. Meus portões.

25

IOCOAMA

No final da tarde desse mesmo dia, Hiraga esgueirou-se para os fundos de um barraco, na beira da cidade dos bêbados, onde um marujo pequeno e imundo o esperava, bastante nervoso.

— Dê-me o dinheiro, companheiro — disse o homem.

— Sim. Revólver, por favor?

— Num dia você está grã-fino, no outro parece um pobre coitado bexiguento. — O homem tinha uma barba grisalha, um olhar desconfiado, com uma faca afiada na cintura, outra numa bainha no antebraço. Quando Hiraga o abordara pela primeira vez, na praia, usava as roupas que Tyrer providenciara. Hoje usava uma túnica encardida de trabalhador, calça puída e botinas surradas. — Qual é o seu jogo?

Hiraga deu de ombros, sem compreender.

— Revólver, por favor.

— Revólver, hem? Já sei que é isso o que quer.

Os olhos astutos esquadrinharam ao redor, pela área coberta de mato e com pilhas de lixo entre a cidade dos bêbados e a aldeia japonesa — um lugar chamado de terra de ninguém pelos moradores locais —, mas não avistou ninguém a espreitá-los.

— Onde está a grana? — indagou ele, irritado. — O dinheiro, pelo amor de Deus, os mexicanos!

Hiraga enfiou a mão no bolso da túnica, achando tudo desconfortável e estranho, as roupas compradas especialmente para o encontro. Três dólares de Prata mexicanos faiscaram em sua mão.

— Revólver, por favor.

Impaciente, o marujo meteu a mão por dentro da camisa e mostrou o Colt.

— Leva a arma quando me entregar o dinheiro.

— Balas, por favor?

O homem tirou do bolso da calça um pano imundo, com uma dúzia ou mais de cartuchos.

— Um negócio é um negócio, e minha palavra é minha palavra.

O marujo estendeu o braço para o dinheiro, mas antes que pudesse apanhá-lo Hiraga fechou a mão.

— Não roubado, sim?

— Claro que não foi roubado!

Hiraga abriu a mão. O homem pegou as moedas, na maior ganância, examinou-as com todo cuidado, para se certificar que não estavam lascadas, nem eram falsificadas, os olhos astutos se desviando para um lado e outro durante todo o tempo. Depois de se convencer que o dinheiro era genuíno, ele entregou o Colt e as balas e se levantou.

— Não seja apanhado com isso, companheiro, ou vai balançar na ponta de uma corda. Claro que é roubado.

O marujo soltou uma risada desdenhosa e se afastou apressado, como o rato com que se parecia.

Hiraga voltou meio agachado para a relativa segurança da aldeia japonesa... segura apenas pelo tempo em que a ralé e os bêbados não decidissem atacá-la. Não havia polícia ou sentinelas para proteger os aldeões. Apenas uma patrulha ocasional da marinha ou do exército passava de vez em quando pela rua principal, e os homens raramente tomavam o partido dos japoneses nos tumultos.

Hiraga levara vários dias para acertar a transação, pois é claro que não podia pedir a ajuda de Tyrer. Ninguém na Yoshiwara possuía uma arma de fogo. Raiko dissera, apreensiva:

— Só os gai-jin têm, Hiraga-san, sinto muito. É perigoso para uma pessoa civilizada ser apanhada com uma arma assim.

Akimoto interviera, ameaçador:

— Se meu primo quer uma arma assim, trate de arrumar logo para ele, Raiko! Você pode fazer qualquer coisa, neh? Como pagamento, eu a levarei para a cama de graça...

Ele se esquivara à almofada que Raiko lhe jogara, os dois rindo. Raiko acrescentara, abanando-se:

— Ah, Hiraga-san, sinto muito, mas suplico que tire esse homem horrível daqui. Duas das minhas garotas já exigiram um dia de folga para se aliviarem da investida do yang dele...

Quando ficaram a sós, Akimoto comentara, muito sério:

— Talvez seja melhor você mudar de idéia, esquecer essa arma. Deixe-me tentar persuadir Ori a se encontrar conosco aqui.

Hiraga sacudira a cabeça, satisfeito pela companhia do primo jovial.

— Ori tem uma pistola e vai usá-la no momento em que nos avistar. Já tentei por todos os meios atraí-lo para fora da cidade dos bêbados e não consegui. Se o emboscar com uma arma de fogo, vai parecer que foi um gai-jin. A qualquer dia ele vai tentar outra vez se encontrar com aquela mulher; estarei perdido aqui no instante em que isso acontecer.

— Talvez ele se canse de esperar. Todos os homens na aldeia foram avisados para vigiá-lo e ninguém vai tirá-lo daqui pelo mar.

— Quem ousaria confiar num aldeão?

Akimoto propusera:

— Neste caso, deixe-me fazer o serviço, quando conseguir a arma.

Ele era muito maior do que Hiraga, que não o reconhecera quando chegara, pois Akimoto também cortara os cabelos da mesma forma.

Ao final, Hiraga abordara o marujo na praia, fingindo ser um mercador chinês visitante de Hong Kong, e acertara o negócio, sua única condição a de que a arma não fosse roubada. Mas é claro que seria roubada...